Uma carta para o Rafael

Coisa mais bonita é você

Depois de tantas verdades verdadeiras sobre o caos da maternidade, achei que estava te devendo essa, filho.

Antes de você, eu era uma visita na minha casa. Como tinha preguiça de arrumar, limpar, ajeitar, me movia pouco nesse cenário. À meia-luz, livros, música, cerveja depois do trabalho, TV, cama.

Você foi a vida arrombando a porta, filho.

É cheiro, cor, movimento. É (muita) louça na pia, giz de cera no tampo da mesa, pedaço de comida no chão da sala, um sofá sempre imundo, um caminhão de brinquedo no banheiro.

É um furacão cheio de doçura.

Tua cara descobrindo tudo pelo caminho folha, pessoa, bicho é pura luz acesa, do tipo holofote. Nada de silêncios. Você acordado é música (mesmo quando eu estou de saco cheio de ouvir).

Ver o mundo por esses olhos amendoados de pestanas compridas é ser véspera de natal tudo de novo.

Quando subo os três lances de escada no final do dia em direção à tua sala na escola, vou antecipando a hora que você vai gritar “MAMÃE!” como se fosse uma enorme surpresa me ver ali. Me escondo um pouquinho para te ver pela janela e tentar te entender sem mim. Gosto de esperar você me ver — e que pena quando a professora me enxerga antes e te avisa. Prefiro quando teus olhos me encontram sem querer (já falei que ganho um milhão de dólares cada vez que você grita “MAMÃE!” nesses momentos?) E abandona a brincadeira para sair correndo, atropelando, sorrindo em minha direção. Um amor derramado, sem frescuras, sem nenhuma espécie de bagagem prévia.

É improvável que esse jeito de amar transborde a passagem do tempo, filho. Então, não posso te desejar que você ame o resto da vida desse modo, sem restrições. Mas espero que você consiga atravessar a aspereza dos anos com esse sorriso fácil para todo mundo que cruza o teu caminho. E com essa energia imensa também, porque é ela que vai te mover em busca de um mundo melhor para você e também para os outros.

Te amo. Ser tua mãe é a vida cheia de som e fúria — e um tanto de pieguice.