Sobre propósito, negócios, e oxigênio

Não tem um dia sequer que eu não escute alguém falando sobre propósito. Sobre a importância de ter um propósito. Que as marcas e empresas precisam ter propósito. Que as pessoas buscam marcas e empresas que têm propósito. Que cada vez mais os jovens querem trabalhar com (e não ‘para’) empresas que têm propósito. Que o futuro pertence às empresas com propósito. E, numa máxima, que ter propósito e conectar seu trabalho a ele é a melhor medida de sucesso. Quem sabe até mesmo de felicidade.

Eu sou super defensora de tudo isso aí em cima. Acredito de verdade que pessoas que têm um propósito e que conseguem vivê-lo de fato, são mais felizes e realizadas por isso.

Mas concordo também que esse papo de que as empresas têm que ter uma causa para existir pode parecer um discurso meio filosófico. Principalmente no contexto de negócio, onde a causa mor “gerar lucro” era o que até então ditava as regras do jogo.

É lindo ter propósito. É inspirador. Engajador. Se isso tudo der lucro lá na última linha, então… Mágico.

Mas show me the money. Se não, meu amigo, é papinho de filantropia, voluntariado, assistencialismo, ou qualquer blábláblá de publicitário com discurso bonito.

Nem tanto.

Empresas com propósito inspiram. Mobilizam pessoas. E também fazem negócios de sucesso, sim.

A recente fala do Mark Zuckerberg em Harvard neste ano foi uma das coisas mais lindas que já ouvi sobre propósito. “Purpose is that sense that we are part of something bigger than ourselves, that we are needed, that we have something better ahead to work for. Purpose is what creates true happiness…. Today I want to talk about three ways to create a world where everyone has a sense of purpose: by taking on big meaningful projects together, by redefining equality so everyone has the freedom to pursue purpose, and by building community across the world.” (clica aqui se você não viu ainda. Vale muuuito à pena)

Propósito é algo pelo qual você se mobiliza, mas que você sozinho talvez não seja suficiente para fazer eco e provocar mudanças. Mas você e todos os outros que se mobilizam pela mesma causa que você, podem impactar muitos outros, e mudar muita coisa — e você se sente incrivelmente feliz por isso.

Propósito geralmente tem sua raiz nos grandes desafios do mundo: globalização, superpopulação, pobreza, meio ambiente, energia, moradia, fome, saúde, imigração, política, educação, água, segurança…. e por aí vai a lista de questões que desafiam o futuro da humanidade. Uma lista enorme de oportunidades que as pessoas têm de fazer algo realmente impactante para o bem — e que as empresas têm de engajar pessoas que queiram fazer algo realmente impactante para o bem.

Estamos vivendo uma crise em meio a tantas crises que às vezes penso se o mundo não está entrando em colapso. Mas a crise cria condições para a criatividade, para a mudança. Talvez um mundo precise de fato morrer para que outro nasça. Como escreveu Edgar Morin, no livro A via para o futuro da humanidade: “A crise planetária é a crise da humanidade que não consegue atingir o estado de humanidade.”

Confuso? Ou perturbador?

De fato, temos um longo caminho para evoluir como seres humanos. Mas você não sente que já tem alguma coisa diferente acontecendo?

Eu penso que parte dessa crise toda reflete um momento em que a sociedade está em profunda reflexão sobre a forma como vivemos, nos relacionamos e produzimos e geramos valor. Sobre o que, de fato, tem valor.

E empresas que estão percebendo esse movimento estão buscando novas formas de existir, engajar pessoas e utilizar dessa inteligência coletiva para fazer algo de bom — pro mundo.

As pessoas não trabalham para empresas com propósito. Elas se conectam a empresas com propósito. As empresas com propósito não têm mais concorrência — se a causa é a mesma, competidores agora jogam no mesmo time. As empresas com propósito não tentam ganhar “em cima” do consumidor. Elas focam nas conexões e experiências e tentam gerar valor compartilhado entre parceiros por meio das conexões e das experiências. Para as empresas com propósito, o lucro não é o fim da cadeia, é consequência do meio.

E não faltam exemplos de gente que está, literalmente, destruindo convicções e o que alguém ainda diria que é impossível. Gente que está empreendendo seu propósito e transformando ideias em grandes feitos. Até em empresas.

Gente como Elon Musk, que está transformando a indústria aeroespacial, de energia e automotiva para buscar seu propósito de vida: “to enable the future of humanity”. A Tesla Motors, uma das suas empresas, abriu as suas patentes, no mais pleno espírito do “open source movement”, para contribuir com o avanço tecnológico dos carros elétricos. “Tesla Motors was created to accelerate the advent of sustainable transport. If we clear a path to the creation of compelling electric vehicles, but then lay intellectual property landmines behind us to inhibit others, we are acting in a manner contrary to that goal…Our true competition is not the small trickle of non-Tesla electric cars being produced, but rather the enormous flood of gasoline cars pouring out of the world’s factories every day…. We believe that Tesla, other companies making electric cars, and the world would all benefit from a common, rapidly-evolving technology platform.”(Esse post é dele próprio, no blog da Tesla. Se quiser na íntegra, clica aqui)

Empresas como um Google que através do seu propósito de “organizar todas as informações do mundo e torná-las acessíveis e úteis para as pessoas permitiu que histórias como a do menino Saroo, do filme Lion (se você não assistiu, pelo amor de Deus, assiste!!!), que se perdeu da sua mãe aos cinco anos de idade pudesse, muitos anos depois (e depois de muita, muita dedicação e determinação, é verdade), descobrir a localização exata da sua antiga casa e o caminho que o levaria de volta para encontrá-la. Pensa! A história é real e sim, o Google permitiu que isso fosse possível.

Empresas como a Purpose, que “mobilizam pessoas para ‘refazer’ o mundo”, e para isso promovem iniciativas (entre muitas outras) como um estudo para entender e segmentar percepções da opinião pública na Alemanha e França sobre a complexa questão dos refugiados na Europa — e a partir disso buscar e promover formas de apoiar essa causa. (para ler mais sobre isso clica aqui).

Negócios tipo “one for one” (ou nessa linha outros Buy one, give one) como da Toms, de calçados, em que cada produto comprado se reverte em alguma ação que impacta alguém que necessita de algo — e não são apenas calçados.

Olho aqui pro meu lado e vejo empresas (ou seriam movimentos?) como a Shoot the Shit — que eu estou tendo o prazer de ter como parceiros — que se mobilizam por apoiar grandes causas, por não esperar pelos outros para mudar algo que eles acham que precisa mudar — e por isso mobilizam e engajam um monte de gente junto, transformando espaços e fazendo acontecer projetos que melhoram a cidade e a vida das pessoas.

Outros exemplos como Airbnb, Youtube, Zipcar, Uber, e outros tantos que vemos por aí, atuando como plataformas que geram valor justamente por meio da sua própria comunidade, habilitando condições de uso e não de posse de bens. Habilitando condições de valor compartilhado.

O que era escasso e restrito a poucos, de repente vira abundante e acessível a muitos. E todo mundo ganha com isso. Compartilhar, colaborar, circular… Palavrinhas que carregam um poder enorme de mudar comportamentos e que já estão mudando a forma como lidamos com nosso próprio consumo de bens e serviços. As empresas vão sofrer esse impacto se não se adaptarem e encontrarem outra forma de gerar valor.

É, talvez propósito não seja algo tão filosófico assim. Olhando esses exemplos — e têm muuuuitos outros por aí — dá pra concluir que é algo bem concreto. E dá resultado. E tá acontecendo.

Mas enquanto empresas jovens já nascem com esse senso de propósito, grandes empresas, especialmente as indústrias B2B, que construíram negócios de muito sucesso antes da revolução digital, enfrentam o desafio talvez ainda maior de identificar ou construir o seu propósito, a sua razão de existir. Mas como construir a sua própria razão de existir…já existindo? Como essas gigantes se adaptam e encontram a sua mais profunda essência?

A resposta não é uma receita de bolo, obviamente. Envolve uma reflexão profunda sobre cultura, seus modelos mentais, comportamentos e crenças enraizadas há anos sobre uma forma de gerir e fazer negócios que até então funcionava.

É uma mudança de paradigma. E a trajetória não será, certamente, linear ou previsível. Talvez mal se consiga ver o próximo ponto do caminho.

Mas tem luz no fim do túnel. E é pra lá que muitas delas já estão se movendo.

Tem um artigo excelente da Trend Watching, de 2016, que fala justamente da “redenção das grandes marcas” e traz uma forma diferente de olhar o potencial que grandes corporações também têm para impactar positivamente o mundo: “Grandes marcas têm a escala, o alcance, os recursos e o capital humano — além de décadas de conhecimento e habilidades acumuladas — necessários para efetuar uma mudança massiva. Elas podem fazer coisas que ninguém mais — em alguns casos nem mesmo o governo — podem fazer. Elas têm o potencial de ser a força mais poderosa do mundo para o bem.” (para ler o artigo na íntegra, clica aqui)

Propósito. Percebeu como não é tão filosófico assim?

Olhando a partir dessa perspectiva, as empresas podem ser mais do que empresas. Elas podem ser movimentos. Plataformas que conectam pessoas e causas. Já pensou no poder que isso pode ter?

Tem gente vivendo seu propósito. Engajando multidões. Transformando as coisas. Gente que está provocando, quem sabe, as rupturas necessárias para construir um futuro possível. Melhor.

Propósito não é posicionamento. É ação. É razão de existir. É alma.

Termino esse post com uma frase do Paulo Bittencourt, meu professor do Design Estratégico, numa aula sensacional sobre Design e Inovação Social, falando de propósito: “Lucro é oxigênio, mas não é propósito. A gente não vive para respirar, mas a gente precisa de oxigênio para viver. Propósito é mais do que isso. Propósito é…diferente.”

É. Propósito é mesmo, diferente.

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