The Circle, Black Mirror, e a crítica de uma sociedade anunciada

(Atenção: aqui tem spoiler! Não vou contar filme nem episódio, mas faço referência a eles.)

Segredos são mentiras.

Essa frase não é minha. É do filme The Circle, que eu assisti esses dias e me deixou primeiro, perplexa. Depois, bem reflexiva.

Na perspectiva do filme, tudo o que não é público, o que não é compartilhado, é segredo. E, por consequência, seria uma mentira (to bem simplificando a ideia aqui, mas em resumo é isso). No filme, da forma como isso se apresenta, eu quase achei que fazia sentido. Eu, nessa minha crença profunda de que um mundo mais colaborativo, aberto e compartilhado seria melhor pra todo mundo, por alguns instantes achei que uma tecnologia que trouxesse tudo à tona poderia ser realmente algo bom. Mas aí pensei na privacidade — na falta dela. Me lembrei que me incomodou muito saber que a Siri do meu telefone ouve tudo que eu falo — mesmo quando eu não estou falando com ela. Que todos esses assistentes virtuais fazem isso. Que a minha TV escuta o que eu falo dentro da minha casa e pode usar essas informações como bem entender. E que quanto mais a inteligência artificial evoluir, pior ainda (ou melhor ainda, vamos saber mais pra frente) essa coisa vai ficar. É bom ter um Netflix inteligente, mas eu não quero ter ouvintes registrando a minha vida dentro da minha própria casa. O que eu não mostro na rede não é necessariamente uma mentira, mas é, simplesmente, algo particular, privado, que eu não quero mostrar.

Mas refletindo mais um pouco nisso, pensei na nossa realidade política (e podre): aí talvez não fosse tão ruim assim uma exposição mais reality show — já que, nesse caso, a grande maioria de tudo o que eles fazem é segredo porque de fato são mentiras que eles não querem mostrar porque ninguém aprovaria. Já pensou se todo político estivesse num Big Brother o tempo todo? Os corruptos estariam expostos… Os não corruptos, também — o que ajudaria muito pra colocar as pessoas certas nos lugares certos. (Ou talvez os corruptos fossem menos corruptos, se é que isso é possível.)

Essa coisa de pessoal e privado me lembrou também o episódio NoseDive do Black Mirror (ó o spoiler que eu avisei).

Começa parecendo uma coisa super futurista, quase meio sem noção, mas de repente começa a ter um quê de familiar… e é aí que incomoda…. A história é tipo assim: a vida gira em torno do que você mostra nas redes sociais e das notas que as pessoas dão a você — tipo feedback instantâneo, só que público. E isso te dá uma nota e dessa nota depende qualquer coisa que você queira fazer — desde conseguir um emprego a alugar um apartamento. Tudo, absolutamente tudo, depende de você ter uma reputação bem aceita socialmente.

Uma sociedade inteira baseada nas impressões e percepções que os outros têm de você, a partir do que você mostra e de como você se comporta em relação aos outros.

Sorria, meu amigo. Seja gentil e educado. O TEMPO TODO. Se fizer cara feia, vai cair sua reputação.

Futurista, nem tanto. Tá mais pra uma crítica escancarada, e assim como o filme, uma bela provocação para nos fazer pensar sobre um futuro até que bem provável que estamos criando.

Mas essa é a vida líquida numa sociedade líquida em que já estamos vivendo, como diria Zygmunt Bauman. Do céu ao inferno num segundo. Tão raso, tão efêmero. A eterna insatisfação. A busca constante por algo que nem se sabe exatamente o que é, porque muda o tempo todo. Nada se consolida profundamente, nem relações, nem realizações. E dessa coisa efêmera vem junto o medo de ficar pra trás, de não acompanhar a velocidade da mudança, de se tornar dispensável, de não pertencer. Caímos aí em algo que não tem nada de novo: a necessidade de pertencimento, de “se adaptar” para se “encaixar” nos padrões “normais”, aceitos pela sociedade, numa sociedade cheia de indivíduos nada individuais, senão totalmente iguais e repetitivos, cheios de pré-conceitos.

É evidente que uma sociedade feita somente de aparências e primeiras-impressões não pode ser um bom lugar pra se viver, nada cresceria muito forte a partir disso. Mas se a tecnologia tá aí pra melhorar a vida da gente, há que ter algo de bom nisso tudo. E olhando por outra perspectiva, até que tem.

Se olharmos o copo meio cheio, faz sentido pensar que uma sociedade assim, que num primeiro momento meio que choca a gente (e choca porque a gente se reconhece nela), pode ser um sinal de uma mudança bem grande logo ali na frente, que impacte em profundas transformações no comportamento humano.

Pensa comigo: se todo mundo for educado e gentil, tratar os outros com respeito, der bom dia pro vizinho no elevador, ceder a vez no trânsito, parar na faixa de pedestres, não furar fila, não jogar lixo no chão, ajudar alguém a atravessar uma rua, não discriminar, não roubar, não usar a vaga de deficientes e idosos quando não for nenhuma dessas coisas, não passar a perna em ninguém, não deixar o carrinho de supermercado largado em uma vaga de veículo, não fechar um contrato pra levar vantagem, sorrir simplesmente, oferecer ajuda, ensinar algo a alguém, e um monte de outras dessas coisinhas básicas que muita gente não faz só porque não tem ninguém olhando…começassem a ser feitas de forma diferente, só porque tem alguém olhando…e avaliando…e disso depende a sua reputação, o seu emprego, a casa que você quer comprar, a viagem que você quer fazer, os lugares onde desejar ir…. Tudo depende, simplesmente, de você ser ético e “legal” com os outros. Nem parece tão ruim né?

E aí, pensando assim, será que não chega um momento em que isso passa a ser incorporado e vira o próprio jeito de ser das pessoas? Se uma geração inteira fizer isso só pra “parecer” que é legal e ser bem rankeado por isso, as próximas gerações não conhecerão outra forma de ser, de se relacionar e de conviver em sociedade. A referência será essa. É assim que eles aprenderão. E, consequentemente, é assim que eles irão replicar esses comportamentos, porque não aprenderam de outro jeito (e isso vale para os políticos também!!!)

Faz sentido? É meio utópico, mas talvez não seja impossível.

Concluindo o raciocínio aqui: quando vi o filme, e depois lembrei do episódio, fiquei triste por me dar conta de que essa alta exposição, essa valorização da imagem construída em perfis sociais e essa superficialidade das relações já traduzem, de certa forma, o que estamos fazendo com as nossas próprias relações. Mas me alivia também pensar que talvez o ápice disso possa ser justamente a catarse que nos devolverá o verdadeiro sentido das relações humanas que estamos perdendo.

E aí, se isso tudo se propagar pelo mundo inteiro, talvez tenhamos um equilíbrio saudável nisso tudo. Talvez a gente não vire uma sociedade de idiotas. Talvez a gente não perca o valor do olho no olho, das conversas reais, dos abraços de verdade, dos sentimentos sinceros, das relações que se constroem nas experiências compartilhadas da vida, e se fortalecem com o tempo. Só com o tempo.

Aí talvez tenhamos de fato uma sociedade melhor…e mais humana…genuinamente mais humana.

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