Nossa, um corrião! Todo um exército de formigas corria no entorno de nossa casa e marchava incessantemente antes de tomá-la. Observamos o cerco, consideramos o que fazer — inseticida, fogo, pisoteio — , mas não foi preciso, não chegaram a entrar. Por um princípio orgânico que desconheço, a presença dos donos as afastou. Segundo minha mãe, melhor que qualquer wikipédia e simulando a voz da minha avó, os antigo chamaro corrião quando as formiga cerca u'a casa antes de tomar. Aliás, formigas parecem ser, junto com as abelhas, as vespas e o ser humano, extremamente territorialistas, porém um pouco mais organizadas e talvez respeitosas. Não entraram, dessa vez que foi há mais de dez anos. Elas tinham uns hectares vizinhos para ocupar, justamente a fazenda do meu avô.

Uma única formiguinha, sim, porque não sou doida de pisar em formigueiro pra fazer foto.

Tive que esboçar mentalmente um motivo pra parar de frequentar a sede da fazenda e o melhor que encontrei foi a triste sucessão de locatários desde que meu avô se foi em 1994. Entre meus tios e o velho Sô Pedro, ali era a extensão cercada da roça dos meus pais. A velha gameleira, que em 1964 minha Tia Fia — porque toda filha mais velha nascida até a guerra não tinha nome, era chamada apenas de Fia, e assim surgiram todas as Donas Fias e Fiotas que vocês conheceram — plantou pensando ser um pau-brasil, não teve construída em si uma casa porque de todo desnecessário. Passávamos lá a maior parte do tempo, entre os cipós e a melhor das sombras. Meu avô tinha o hábito de dormir lá debaixo, fazendo uma raiz de travesseiro. Naquela época, a sombra já atingia a casa, o paiol e o curral, mas não alcançava a cerca. Quando meu avô morreu, minha mãe pintou a paisagem na visão de quem passa pela estrada. A casa fechada, o curral vazio, uma vaca solitária pastava debaixo da sombra da velha árvore. Na memória imaginada que guardei cuidadosamente depois que uns vizinhos maus — os que nos invadiram, os que soltavam animais no nosso pasto, os que nos boicotaram a luz e os que coincidentemente atraíram uma onda de furtos à rocinha — tomaram conta do negócio, tudo ali era imenso. Agora posso saber que imensa ali só aquela árvore e a saudade.

Pela ordem de quem parece querer subir: Marcus, Felipe, Giulia, Lucas, Kiko, Lilian e Sofia, Tia Fia.

A ideia, que me pareceu sensacional e gerou uma empolgação danada nas crianças, era fazer um revival de nossas brincadeiras com os meninos, filhos das minhas primas. Subir na árvore, desbravar as desconhecidas fronteiras da roça do Vô Ivair, mostrar como é bom dar uns perdidos no mato. Os meninos não tiveram a mesma sorte, a de brincar de expedição com o meu avô, o melhor evento das férias. Cada um levava um cajado pra se defender de cobra e seguia pelas trilhas com o melhor guia que aquela terra já conheceu. Fomos dessa vez Marcus, Lilian, Tia Fia e eu, e os pequenos Felipe, Lucas, Giulia, Sofia, além do Kiko. Desde a porteira que escalamos, contudo, um formigueiro bem guardado por minúsculos soldados começou a avacalhar o processo. Eu havia pedido pros meninos virem de botinas, o jeito certo de andar na roça, mas botinas sem calças só ajudam a correr de bicho. Depois que Marcus e eu subimos lá, constatamos que a velha gameleira também tornou-se um formigueiro. Dessa vez, de imensas formigas lava-pés ou cabeçudas ou sei lá, não dava pra colocar os meninos lá em cima sem correr o risco de um choque anafilático. Descemos desapontados e, tomados de uma triste ansiedade, começamos um rápido tour pela roça.

O paiol onde os porcos eram mortos.

Deve ter uns cinco anos que uma chuva derrubou o telhado do paiol e ninguém nunca reconstruiu. No paiol, além do milho para as galinhas, guardava-se ração para o gado, e foi lá também que vi pela primeira vez um porco morto ter a pele chamuscada. Você pode ouvir a Matança do Porco, eu asseguro que é muito pior do que parece e é quanto basta. Do paiol e do galinheiro contíguo restou pouco, menos que algumas lembranças e vestígios. No lugar de sempre ficaram somente as bananeiras, o pé de jabuticaba e o de abacate. As escadas que davam acesso à casa foram transformadas em rampas. A porta que levava ao quintal foi fechada a tijolo e cimento, como foram arrancadas as portas da casa dos peões. Não conseguimos alcançar o silo, pois o mato, contra cujo domínio meu avô sempre fora tão cioso, tomou conta de todo o resto.

O mato e o quintal.
Toda vez que meu avô matava uma cobra, dependurava na cerca do curral como um troféu.
Curral coberto de mato e sem bosta de vaca.
Kiko bonito!
Antes da picada.
A picada.
Eu sei que dói. Doeu em todos nós.

Não há mais animais, bosta de vaca, cheiro de bosta de vaca, nem sapo, nem cobra, nem nada. As cercas do curral não fazem mais sentido. Foi no bebedouro, quando quis fazer uma única foto, a da lembrança do que fomos na água turva que criação nenhuma bebe, que uma formiga atacou a mão do Lucas. Foi do choro dolorido daquela picada desastrada que percebemos não haver mais nada a se ver ali, nem a nós mesmos. Não sei se as formigas fizeram corrião antes de se apossarem da fazenda, que é delas agora por direito. O passeio, mais breve que qualquer suposição que eu pudesse ter feito, era claro em dizer que o passado, como todo amor, quanto mais bonito e terno, não se renova. Deixemos lá como foi.

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