Tatuagem

A dúvida era simples, quase simplória: fazer ou não uma. Havia prós e contras, ambos os lados defendendo a posição com austeridade militar, limitando-se, contudo, a dizer obviedades: como será quando ficar velho? Você vai se arrepender! O corpo é seu, faça o que quiser! O que importa isso tudo?

O menino saiu arreguido, contrariado. Os pais, mesmo dizendo que não se importavam, fingiam a sua posição, realmente não se importando. Paulo desceu as escadas decidindo o local da tatuagem. Em cima do braço seria comum demais; na panturrilha, cafona; no abdomen, dolorido… Enfim, decidiu-se. Era um local diferente, inusitado, não tão óbvio. Feliz, abriu a porta que dava para a rua.

A certeza de uma decisão trouxe-lhe a paz dos justos. Havia uma felicidade com cor de vermelho-terra, acridoce. Descia pela garganta com o gosto de terra molhada. Chovia fino. Paulo acelerou o passo, temendo o arrependimento. Não da tatuagem, isso estava definido. Temia o arrependimento da felicidade. Ser feliz causa estrago, incomoda os outros. Dá trabalho, ser feliz. É um investimento constante, uma doação a si mesmo que deixa todo mundo com o olhar de lobo, prateado, pronto para o abate. Paulo, temendo o pior, distraiu-se com a camada de vapor que saía da terra, marcada pela chuva. Marcas… Era isso tudo que inventava a felicidade.

Chegou à porta do estranho que o aguardava. Ele sorriu de volta. Todo marcado, estava pronto para marcá-lo também. Valia a pena guardar o acridoce na boca, o cheiro de terra molhada, invadida. Percebeu-se mais certo da sua decisão. Mais feliz. Mais invejado. O moço preparou-se com calma, também militar, porém um pouco sádico, sabendo a dor que ia causar. Ser feliz dói. Paulo preparou-se: veio a primeira picada. Ele chorou, mas sorriu por dentro. Lembrou-se da chuva lá fora e os lobos foram embora.