A VIDA IMITA A ARTE, em cinco atos de Oscar Wilde — Ato III

Sartre poderia repensar sobre o inferno: os outros não nos incomodam, nós nos incomodamos com os outros. Sentimos coisas ruins de algum fato e queremos que o outro também sinta esse nosso inferno, pra ver como é bom; armamos o barraco, falamos ofensas, editando as cenas tudo errado, e aí, após o release do filme, relaxamos — temporariamente — à espera do próximo papel. Mas, nessa produção ninguém sai rindo ou ganhando prestígio pela ótima atuação prestada do roteiro de “Um dia a tua lagoa seca, jacaré!”.

— Parem de agir como idiotas!

Assim como criamos um inferno, podemos criar o oposto dentro de nós, com respeito e boa conduta, mas que requer treino e prática para se captar as diversidades através da sensibilidade; ou, pelo menos, não apedrejá-las ou inferiorizá-las. Talvez, não estamos treinando diariamente para desempenharmos um bom papel na vida, e isso quer dizer apurar nossos sentidos e sentimentos, sermos bons ouvintes, espectadores, escritores, roteiristas, produtores, atores, diretores, enfim, co-criadores e protagonistas de bons filmes. Taí a importância da arte que Wilde falou. E este treinamento é a cada respiro. A boa convivência com nós mesmos e com nosso entorno pode ser o 1º passo para sermos menos egoístas e egocêntricos. Acima de tudo, ver as coisas com bom humor, leveza e receptividade, para podermos interpretar a linguagem dos humanos, e até a dos animais.

Aliás, a comunicação correta, o tom de voz, a expressão, são essenciais para co-criação de boas cenas do cotidiano, e são três elementos dos quais nos diferenciam dos animais (até daqueles humanos que sempre se negam a usar tais atributos para falarem). Pensemos que levaram-se milênios para conseguirmos criar um vocábulo, frases, mas será que levará milênios para podermos falar estas frases corretamente e fazer com que os outros nos compreendam sem as usarmos como armas? MILÊNIOS se a nossa relação com a natureza não mudar, caso contrário, nem décadas teremos para aprendermos a nos expressar e sermos ouvidos. Quanto a isso, a espécie humana deveria se chamar Homo non-sapiens-se-comunicaris e sua subespécie Homo non-sapiens-ouviris.

Às vezes, adoramos atuar no filme Planeta dos Macacos, mas nesse papel nós somos os macacos per se, somente sons e gritos. Se até o ET conseguiu tal façanha humana com “ET-telefone-minha-casa”, não há desculpas para não querermos falar claramente. Deixemos as desculpas para quem não quer nos ouvir e refletir.

Li uma piada na internet que resume tudo:

— Uhmmrumsms… — deve ter grunhido um primata, certo dia, para o indivíduo que estava ao seu lado, ao redor da fogueira.

— Ramsmans? — perguntou o outro, sem entender.

— Uhmmrumsms! — insistiu o primeiro.

— Ramsmans? — retrucou mais uma vez o segundo.

— Uhmmrumsms! Uhmmrumsms!

— Ramsmans?

— Uhmmrumsms! Uhmmrumsms! Umrumsms!

— Ramsmans?

— TU TÁ SENTADO EM CIMA DA MINHA MÃO, PÔ!


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