A VIDA IMITA A ARTE, em cinco atos de Oscar Wilde — Ato IV

Voltemos a minha relação com a comédia. Em minha visão, a arte da vida está em sabermos olhar as cenas com uma pitada cômica — não digo que devemos rir de tudo — mas encarar as coisas com uma aceitação gostosa e relaxante do cotidiano, dos próprios loucos-alegres-bobos-chatos que somos. De como nos relacionamos com os animais e os objetos, por exemplo, uma topada na quina da cadeira bem na hora que você está apressado(a) para atender ao telefone ou abrir a porta; uma tropeçada na calçada ou na cachorrinha cega do melhor amigo, e quando alguém vê você tropeçando, olha com aquela cara de: tô louco pra rir, mas não posso agora porque senão perco a amizade, haha. Ou pior, quando caímos mesmo e todo mundo ri, até aquele cara lindo ou aquela gata que passou bem na hora. Tudo isso pode ser chato e doloroso (literalmente) para o(a) protagonista da ação, no entanto, não há nada mais engraçado e infantil, porém o desafio é rir de si mesmo(a) e tente encaixar os outros na ironia da situação, sentindo um gostinho de quero mais, de viver bem, de passar para uma cena seguinte e termos a mesma sensação agradável, a qual uma boa comédia dá na gente, sabe?

Às vezes, assisto a peças de comédia e filmes tão bizarros que penso: cara, eu poderia muito bem passar por aquilo, e não seria tão engraçado como ali, pelo contrário, seria um motivo pra ficar encasquetando e me culpando, ou culpando outra pessoa; na verdade, na minha cabeça seria um drama, praticamente uma catástrofe planetária. Só foi engraçado acontecer no filme ou teatro porque as pessoas que estão assistindo-o foram ali para isto, se propuseram a sentar uma, duas horas, com pessoas que nem conhecem, para apenas rirem um pouco, pois sabem que se trata de um roteiro com uma visão, por vezes polêmica, mas engraçada da vida.

Já em filmes ou peças com conteúdo violento, guerra, maldade, valem a nós (claro) pela beleza da arte de criá-los, mas fundamentalmente para a reflexão e espelho do certo e do errado, da própria crítica interna e externa da vida real.

Na arte do encarar a realidade, pois, viver é uma arte, só não ocorre risada no final dos fatos porque não houve a intenção do viver levemente, só a pretensão da “desgraça da MINHA vida”, ou do “por que só EU passo por isto?!?”. Repito: estamos TODOS no mesmo barco, ou melhor, na mesma arca, passando pelos mesmos testes da vida, então o melhor a fazer é pararmos de pensar no EU,EU, EU e pensarmos mais no NÓS, NÓS, NÓS. E os sons contagiantes que deveríamos ter nas nossas cenas da vida são do aplauso e do hahahahahaha — que em si já é engraçado, porque tem cada um com aquela gargalhada, vou te contar…

Também é uma questão de mudança de foco, e o foco principal não deveria ser a pressa no processar as coisas, a agressividade, ou a intenção de magoar, estas se atraem como um imã e são comandadas pela falta de razão; pesam na balança sobre a organização dos sentimentos e do raciocínio, que se repelem mutuamente nessas condições. Esse foco seria o equilíbrio entre a criança e o velho que nós guardamos, remetendo-me ao senhor Oscar Wilde novamente: “Não quero adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa”.

Podemos apertar no rewind (rebobinar) do nosso DVD mental quantas vezes quisermos e isto faz bem; pois é, temos um DVD exclusivo, cheio de conteúdos que podem ser acessados a qualquer momento, como já havia mencionado no Ato I: nosso MINDFLIX. O que antes era videocassete mental, agora, é o DVD (é a tecnologia do cérebro ao seu favor, hehe).

O que é isso? Pois bem, quando você passa por cenas que não foram lá muito satisfatórias, ou foram levadas muito a sério, ou que o final não foi feliz para os outros, pare, reflita e faça o rewind — rebobine os eventos — é tão proveitoso, pois, você enxerga as cenas por outro ângulo, por uma lente mais apurada, que digamos, estava escondida no local da cena. Mas agora você não é o(a) protagonista, somente um(a) observador(a), até porque não daria para ser o/a ator/atriz principal, afinal o filme já foi rodado. Feito isso, tentemos mudar a intenção do sentir, ou seja, não sentir a situação com a mesma intensidade, não a superestimar tampouco a subestimar. Não a deixe marcada nos neurônios, a memória vai enchendo, até que um dia não cabe mais nada além de bugigangas e cacarecos que você não precisa, isto é, guardar rancor, ódio, tristeza: uma questão de escolha e sabedoria com o que preencher os espaços da prateleira mental.

Preste atenção!

Rebobinar a cena na mente é nada mais do que inverter a direção dos sentimentos, podemos sentir tal coisa de uma forma, mas acabaria de outra; e podemos sentir com menor amplitude e intensidade uma mesma situação, e ela ficar melhor resolvida ou menos ruim. Após, apertemos o eject para retirarmos o filme do DVD mental da categoria de “preferidos”, você ainda o tem, mas ele não ficará programado para rodar automaticamente toda vez, entende?

Ah, sei que em certas coisas guardadas sentimos um calafrio de rebobinar e dar o replay (recordar) então, mentalmente, dá para passar a tal cena e ir pra outra, mas lembrando: desta vez, sem ser o ator ou a atriz principal. Com esse exercício reflita, não se comportando ou não sentindo exatamente o mesmo nas cenas seguintes da vida, é uma reprogramação dos pensamentos através da reinterpretação das nossas próprias atitudes.

Pois, nessas cenas seguintes(o futuro) felizmente não podemos apertar a tecla forward (avançar), passando rapidamente o que vem pela frente; nosso DVD não vem com essa tecla, se assim fosse, não aprenderíamos nada com os sentimentos, com momentos ruins e desagradáveis, e não saberíamos diferenciar o perfeito e imperfeito, o belo e feio, o valor e o preço, o bom e mal, o certo e errado. Assim, acredito que nosso objetivo aqui é alcançarmos o autoconhecimento e o valor do belo e do bem, vivendo ordinariamente, porque de extraordinária já basta a gênese da vida, a formação das coisas, a origem do ainda desconhecido. Mas para termos essa consciência, acredito na terapia de racionalizar, falar, colocar pra fora na hora e lugar certos, é uma das melhores maneiras de aprender a rever as cenas para analisá-las melhor e gerar boas atitudes e pensamentos positivos.

- Bem, sobre ontem à noite…

Partindo para uma versão científica dessa filosofia, o Dr. Augusto Jorge Cury escreve em seu livro “Inteligência Multifocal — Análise da Construção dos Pensamentos e da Formação de Pensadores” que há 5 etapas de interpretação dos fatos e pensamentos. Nas 4 primeiras etapas, que o cérebro processa em fração de segundos, o homem é também vítima de sua carga genética e das circunstâncias intrapsíquicas e psicossociais que atuam nos sistemas de variáveis de interpretação, sendo ele definido como Homo interpres. Porém a partir da produção de pensamentos dialéticos (das ideias, análises, sínteses) e antidialéticos (da imaginação, consciência de insegurança, da consciência das expectativas, da consciência das fobias, etc.) ocorre um espetáculo intelectual indescritível (que dura segundos ou minutos) ou seja, a formação do “eu” — Homo intelligens — que tem a liberdade criativa de operacionalizar a leitura da história intrapsíquica, produzir (ainda que inconscientemente) os pensamentos essenciais históricos, fazer a leitura virtual dos mesmos, produzir pensamentos dialéticos e antidialéticos e transformar o homem da condição de vítima histórica em agente modificador de sua história psicossocial.

O “eu” é mais sofisticado do que o simples pensar, é a consciência de que pensa e que pode administrar ou gerenciar a construção de pensamentos, e pensamentos dialéticos e antidialéticos produzem um “ambiente consciente” que propicia ao “eu” ler a história intrapsíquica e produzir pensamentos debaixo dos critérios da maturidade da inteligência. Dependendo da capacidade de liderança do “eu”, ele poderá superar seu dilema, sua solidão da consciência existencial, produzir sentimentos coerentes, produzir arte, racionalizar estímulos estressantes, ou então, viver às raias da destrutividade social, da insensibilidade emocional, da insociabilidade, das doenças psíquicas (CURY, 2006. Págs. 179 e 180).

Na 5ª etapa da interpretação, consciente, o “eu” pode gerenciar a construção de pensamentos e a transformação da energia emocional já iniciada pelas outras etapas anteriores, inconscientes. Podemos ler a história intrapsíquica e questionarmos a natureza de uma ofensa e as repercussões sociais da mesma, e gerenciar a angústia e a construção de pensamentos negativos. Mas o homem só tem condição de gerenciar a inteligência e sair da condição de vítima psicossocial, nesta última etapa de interpretação. Por isso, seria mais fácil ser vítima do que agente modificador da sua história, pois, nas 4 etapas anteriores deixamos os pensamentos no inconsciente, no automático do que fomos acostumados a armazenar e acessar. É fundamental conhecermos nós mesmos, através dessas etapas de interpretação, gerando o autocontrole e consciência existencial.

O filme “Click” fala exatamente sobre nosso DVD mental, como defino, de ter o controle remoto da vida na palma da mão e dar play nas coisas boas, ruins, tristes e felizes, mas com o cuidado de vivermos todas elas sem clicar simplesmente no avançar e pular etapas. O protagonista estava levando sua vida da maneira que lhe convinha, esquecendo-se dos outros por completo, apertando o play só nas coisas prazerosas e felizes para ele. Só aprendeu a dar valor e significado às pessoas e a sua vida quando viu o final que o filme teria se ele continuasse pensando somente em seu bem-estar. Não tendo o fim que gostaria, refletiu, analisou, e voltou nas cenas de sua vida (como observador) entendendo o péssimo papel que escolheu fazer em determinadas situações, tentando não aceitá-lo dali pra frente, produzindo um ambiente consciente e maturidade da inteligência, resumindo, reinterpretou a si, as pessoas, seus pensamentos e suas atitudes perante àquelas mesmas situações, neste caso com a ajuda de Morty, quem lhe concedeu o controle remoto e o fez enxergar além da visão limitada, e que, mais tarde, se revela como sendo a morte em pessoa.

Adivinhe como termina o filme? Ele viveu feliz pra sempre, hahaha…apesar de que a ideia da vida, para mim, não é vivermos felizes pra sempre, e sim, sermos felizes muito mais tempo do que infelizes, porque as adversidades sempre batem na porta. Mas para isso, temos que reconhecer onde estão nossas rachaduras, imperfeições, então podemos reconstruir uma fortaleza que não se rompe tão fácil com o vento, com a chuva ou com as guerras diárias, internas e externas.


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