A VIDA IMITA A ARTE, em cinco atos de Oscar Wilde — Ato II

Quando Sartre afirma que o inferno são os outros, acredito referir-se que os outros nos incomodam ou atrapalham, e não podemos evitar sua convivência, certo? E existe:

“O ministério da impaciência adverte: não nos responsabilizamos pelos nossos atos de extrema raiva e intolerância para com os outros”.

Seria engraçado se intolerantes de plantão colocassem uma plaquinha no pescoço, escrita “cuidado: eu mordo”, assim, naquele dia evitaríamos esbarrar sem querer, nestes pobres coitados sem dono e canil. Ou seria mais fácil se aquelas pessoas falcatruas, mentirosas compulsivas vestissem uma camiseta com a estampa “Pinóquio é meu pastor e nada me faltará, enquanto eu der calote nos outros, amém!”. E se colocássemos um aviso nos elevadores de “Proibido comentar sobre o tempo para puxar assunto ou para quebrar o silêncio constrangedor, e sorria, você está sendo filmado”.

Porém, é através da convivência, fácil ou difícil, que enxergamos o que somos, as similaridades e as diferenças com os outros, mas que, sem estes outros, nossos próprios projetos de vida não fariam sentido fundamental. Segundo essa mesma filosofia, só a convivência é capaz de dar a certeza de que estamos fazendo as escolhas que desejamos; seja como queremos andar, comer, falar, vestir, sentir, viver e até com quem queremos conviver. Então, porque não tentamos fazer esta convivência saudável para todos?!?

Enfim, não existe exatamente essa culpa jogada para os outros, esse inferno seria apenas uma criação de um cenário desastroso do grande estúdio cinematográfico de nossa própria vida. Dependendo de como são as falas e atitudes, geralmente sem script — baseadas no hábito do impulso de dizer e reagir — esse cenário ruim vai se encaixando perfeitamente à tal cena da vida, sendo nosso filme sem sentido e um verdadeiro Deus-nos-acuda, um trem descarrilhado.

E assim, a Terra gira em torno do nosso próprio umbigo, estando Galileu REDONDAMENTE enganado. É cada um por si e desrespeitando todos, levando a vida “na flauta” demais ou a sério demais. E que, às vezes ou na maioria das vezes, tudo perturba; nem o barulho do periquito, do gato, do cachorro do vizinho escapam do mau-humor alheio. Mal interpretamos o que a própria vida quer nos dizer: estamos somente dividindo um grande palco com as pessoas e a natureza, o sol nasce pra todos e estamos no mesmo planetinha remando juntos, para a mesma direção, a evolução.


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