Vivências de uma Infância que estimularam uma Profissão

Cozinhar, verbo que conheci no curso primário (assim era chamado o fundamental I em 1968) pertencia a categoria dos da primeira conjugação terminados em ar. Nessa época, eu só ia na cozinha para fazer as refeições e lamber a tigela dos bolos que minha tia fazia.
Ela era parteira na maternidade da cidade e nos seus dias de folga sempre fazia faxina na cozinha e depois, sessão de gostosuras.Colocava os ingredientes na mesa e começava o bolo de puba, era o seu principal, mas fazia também de ovos, de milho, tapioca e eu acompanhava todos os seus movimentos com os olhos enquanto ela ia mexendo com a colher de pau na tigela de porcelana branca com florzinhas negras na borda (sim, naquela época nem se ouvia falar de batedeira — era tudo manual)
Ficava sentada num banquinho, esperando a hora que minha tia derramava na forma aquele manjar dos deuses,e aí era chegada a hora de raspar a tigela, tudo o que eu mais queria.
Quando você quer algo, mas não é encorajada o suficiente…

É certo que minha tia foi quem me influenciou primeiramente na arte que hoje domino,mas naquele tempo eu era proibida de ir na cozinha fazer qualquer coisa.
“Eu não fui criada para cozinhar, nem bordar, nem fazer crochê” — coisas que adoraria ter aprendido. Minha mãe dizia que minha única obrigação era estudar, diferente dela, que aprendeu o mínimo na escola e o máximo de prendas do lar.
Quando terminei o ensino médio (1979), e queria estudar na capital, me tornar enfermeira como minha tia, época que moça longe dos pais ficava falada,só ia pro internato das freiras e isso eu não queria.
E então o que fazer?

Impelida a aprender artesanato na infância, de começar uma formação profissional na adolescência, senti-me uma jovem sem muitas escolhas. Estudei um curso das Exatas, sugestionado por outros, e trabalhei como auxiliar administrativo numa empresa particular.
Sempre gostei de aprender, mas o que fazia não me gerava prazer. No escritório eram contas, contas, na faculdade Estatística, Matemática, após dois anos tentando resistir, cansei, desisti, da faculdade e, do trabalho, eu saí.
E as coisas acontecem naturalmente…

Era início de dezembro de 1982 e encontrei três colegas do ginásio (Fundamental II), conversamos e combinamos passar o veraneio juntas num paraíso da Bahia. Assim o fizemos.
Aí tudo começou… Fiquei mais próximas de uma das colegas,viramos muito amigas. Ela era filha de fazendeiro e tive a grata surpresa de saber que ela gostava de cozinhar. Para ganhar a mesada, cozinhava para seu pai e os trabalhadores da fazenda que comiam juntos, e além disso acumulava um dinheirinho fazendo doces em festas infantis.
Fiquei impressionada com uma pessoa que tinha tudo, sabia cozinhar e eu que pouco tinha, não sabia? Comecei a ter curiosidade e perguntar como se faziam as coisas e ela resolveu me ensinar.
Eu a ajudava sempre quando preparava o almoço e ia percebendo a beleza no jogo das cores dos temperos, dos legumes, as misturas possíveis de serem feitas e tudo aquilo me fascinou.Descobri que eu queria muito saber cozinhar,aquele mundo me conquistou
Íamos na praia todos os dias pela manhãzinha e voltávamos para fazer o almoço, as outras amigas ,comiam em casa de vez em quando, não gostavam de cozinha, pagavam para comer na pensão de D. Maria.
O Primeiro Prato nunca se esquece

Até que chegou o dia que ela disse que eu estava preparada para fazer o meu primeiro prato. Fomos à praia, encontramos com um pescador que tinha saído do mar e trazia uma corda com muitos peixes ,dourados e vermelhos. Eles pescavam e vendiam metade para o próprio sustento, então compramos dois quilos de vermelho e levamos para casa. Lá havia um coqueiro com cacho de cocos secos também.
Com ingredientes frescos, tudo favorável

Pedimos ao proprietário para tirar alguns para fazermos a moqueca com leite fresco.Ele assim o fez e retirou a casca mais fibrosa e nos entregou o coco com a casca grossa,que descasquei, lavei, ralei no ralador feito de lata, bem artesanal, coloquei o coco ralado no pano de prato limpo, envolvi e espremi e retirei o leite grosso para fazer o caldo da moqueca que em tantos momentos esperei.
Tinha uma panela de barro redonda entre as outras panelas. Comecei forrando o fundo com rodelas de tomates, cebolas, pimentões e intercalei com as postas de peixe que foram tratadas e lavadas com água e limão.e temperadas com alho socado misturado ao sal e coentro nativo do quintal. Acendi a boca do fogão bem baixinho para cozinhar quase no vapor apenas com a água do peixe que foi lavado com limões e acrescido de todos os temperos básicos. Finalizei a moqueca colocando um copo de leite de coco fresco e bem grosso mais cinco colheres cheias de azeite de dendê e 5 minutos depois desliguei o fogo.Estava pronta a primeira moqueca de peixe eita na minha existência..
Um ano que influenciou toda uma vida

O veraneio de 1983 marcou a minha estréia na cozinha.Ao chegar em minha casa queria mostrar a minha mãe que aprendera a cozinhar, Que desastre! O arroz neste dia virou uma papa.Mas não desisti. Tinha uma amiga professora que morava próximo a minha casa e sempre que ia lá , fazia alguma comida para ela,abria a geladeira via o que tinha de ingredientes e criava um prato. Descobri que as tentativas que fazia, sempre davam muito certo e que cozinhar era um dom escondido, e se não tentasse não teria descoberto.
E Você?
Qual sua experiencia com o mundo da culinária?
Se sente livre para criar ou segue receitas ao pé da letra?
Para você cozinhar é um hobby ou profissão?
Originally published at menudaclau.wordpress.com on February 12, 2016.