vírgulas

eu só o entendi o amor

quando fui embora

e essa é a ferida mais egoísta que eu carrego no corpo

isso não é sobre toxidade ou abuso ou amor próprio ou falta de resiliência

⠀ ⠀

isso é sobre conhecer o amor

carregá-lo na alma e em cada pêlo do corpo

e ir embora pela porta dos fundos

é sobre procurar o amor em olhos diferentes em querer tateá-lo em dermes ásperas e tentar atingir almas sujas e desesperar por obliterar cada e qualquer sensação

e tentar

mas entender

nunca encontrá-lo

é sobre querer ver o amor em prédios que proíbem as matizes do pôr do sol que desvencilham a partida dos pássaros que assombram a orla das praias que atraem pessoas com decisões na ponta da língua e algum fantasma no fundo da psique

e a gente sabe

o que acontece depois

e não é amor

e é sobre se proibir lembrar que sabe o gosto do amor e sabe que o amor carrega aqueles olhos azuis que memorizam marés esverdeadas e que conhece a sensação o toque a respiração ofegante as unhas as pintinhas que deslizam as costas o cabelo ondulado que lembra raízes de ipê amarelo e o choque da voz

e é sobre conhecer a voz do amor

e assustar a alma

quando perceber que os resquícios da lembrança são vultos rápidos e que se esvaem a cada quilômetro de distância

eu conheci o amor no deslize dos dedos no tato na constelação que tinha acima de nós e

o meu paradoxo ruim

é que eu só percebi o amor depois de tê-lo procurado em janelas estrangeiras e vidraças novas quando eu só queria aquele filete de sol que só as tuas persianas traziam

quando eu só queria ser olhada na meia luz do teu quarto e nada nunca foi como ser admirada por ti

quietinho

como quem me olha e tenta decorar cada traço porque tu também vê amor nesses detalhes pequenos e nessas veias azuis que cê gosta de mapear

e pra falar a verdade

depois de ir embora

eu entendi

pra jamais esquecer

que o amor da minha vida tem olhos maré esverdeada e algumas pintas no nariz que lembram arte e por falar nisso o amor da minha vida parece que foi cautelosamente pintado como aqueles quadros que a gente admira lá no museu de arte de são paulo e não toca porque tem medo de quebrar e nem é pela frustração de dever algo depois

é porque entende-se

que o mundo todo deveria ter a chance de enxergar

assim

de pertinho

o cabelo desarrumado os olhinhos que só se entreabem antes de voltar a dormir a curva que se desenha na boca toda vez que me vê lá de longe e eu penso na sorte que eu tenho

de ser esperada

todos os dias

pelo homem que me viu fechar as janelas

e nunca abriu mão

de me esperar na porta

⠀ ⠀

(p.s: eu nunca mais vou largar tua mão)