10 fatos sobre Carmen Miranda que não merecem morrer numa quarta-feira de cinzas
Hoje é terça-feira de Carnaval. Hoje Carmen Miranda completaria 107 anos, mas provavelmente poucas pessoas da minha geração de trinta e poucos anos ou menos saibam disso. Aliás, poucas pessoas da minha geração devem conhecer Carmen Miranda além das roupas espalhafatosas e do Tico-Tico no Fubá. Mas isso é palpite meu. Na verdade, me espanta pensar que Carmen morreu há apenas 60 anos e não faz mais parte da história recente do Brasil. E que ela é muito importante para a história recente do Brasil para ser esquecida.

Carmen Miranda foi uma das mulheres mais copiadas e copiáveis do mundo. Suas roupas, seus turbantes, seu rebolado, suas caretas, suas marchinhas foram regravadas e cantadas à exaustão nos carnavais. Mas talvez as pessoas não saibam nada além dessa personagem que falava um inglês macarrônico em filmes de Hollywood. E que trocou o Brasil pelos Estados Unidos. Por isso, resolvi compartilhar 10 fatos sobre sua história que não merecem morrer numa quarta-feira de cinzas. Apenas porque ela toca meu coração e deveria ser lembrada por muitos e muitos séculos.
- Maria do Carmo Miranda da Cunha chegou ao Brasil aos 10 meses de idade. Nasceu, sim, em terras portuguesas, mas foi no Rio de Janeiro que cresceu e se tornou Carmen. E considerava-se, assim, brasileira. Coisa nossa, saca? Brasileiríssima e carioquíssima da Lapa. E foi muito amada pelos brasileiros. Se você duvida, veja aqui.
- Ela tinha uma imensa alegria e um humor afiado e provocador, que eram dela. “Não precisa me ensinar, não, que, na hora da bossa, eu entro com a boçalidade”. Ela era a cara do nosso Carnaval, e graças a ele ganhou popularidade. Mas Carmen foi além do Carnaval e das marchinhas. Ela se tornou uma das mais importantes cantoras do rádio nos anos 1930, e tornou conhecidos vários compositores muito valiosos numa época em que o samba estava nascendo — como Assis Valente (Camisa Listrada) e Dorival Caymmi (O que é que a baiana tem?).
- Carmen já era uma cantora muito importante no Brasil quando foi para os Estados Unidos. É um equívoco pensar que ela abandonou o Brasil e foi para a América mostrar o nosso país de um jeito caricato. As coisas mudaram quando ela deixou de ser uma voz de rádio pra se tornar uma artista que tinha uma grande presença em frente às câmeras (apesar de seus 1,43m). Ela tinha carisma, beleza e um tufão nos quadris. Fez muito sucesso por aqui antes de se tornar uma artista de Hollywood.
- Não é à toa que Carmen Miranda é um dos maiores símbolos dos transformistas mundo afora. Ela criou seu próprio estilo, e foi copiada no mundo inteiro. Antes da fama, era balconista de uma loja de trajes masculinos no Rio de Janeiro e gostava de desenhar seus próprios chapéus e turbantes. As roupas com que ela aparece na gravação de O que é que a baiana tem? foram criadas por ela mesma. Carmem foi uma das primeiras mulheres a exibir a barriga e as pernas no cinema. Usava batom vermelho e unhas longas e pintadas, coisa tão natural para os dias de hoje (mas não para aquela época). Achava graça e zoava de quem dizia que ela era careca (não mostrava os cabelos por causa dos turbantes). Tinha atitude e ousadia. Simples assim.
- A voz de Carmen pode não ser considerada a melhor de seu tempo, mas atraía pelo jeito de cantar, espontaneidade e, principalmente, pela bossa. Carmen foi a primeira artista multimídia do showbiz brasileiro, aquilo que vemos hoje Ivete Sangalo e outras fazendo com muito mais estrutura (entenda-se dinheiro). E como todo precursor de alguma coisa nesse mundo, ela passou por tempos difíceis e foi duramente criticada pela imprensa brasileira por se vender aos Estados Unidos para ser uma caricatura tupiniquim. Sua biografia, no entanto, revela o que havia por trás da Brazilian Bombshell: uma frágil vítima da fama.
- Carmen Miranda foi a primeira mulher brasileira a se tornar realmente popular nos Estados Unidos. E o público da Broadway se apaixonou por seu jeito de cantar, dançar, fazer rir. Isso era totalmente espontâneo de Carmen. As pessoas gostavam até mesmo de seu jeito estranho e recém-chegado de falar inglês, com o qual ela mesmo brincava. O carisma da artista ganhou o coração de Nova York. Mais do que isso: enchia teatros. E rendia muito, mas muito dinheiro. Um dia, ela se tornou a mulher mais bem paga dos Estados Unidos. Apenas pare e pense algo assim acontecendo nos dias de hoje. Mas a América ainda seria pouco. Carmen ganharia o mundo se tornando estrela de cinema em Hollywood.
- É claro que o dinheiro e a popularidade de Carmen chegaram a esse ponto graças ao cinema. Estamos nos anos 1940. Em 1940, os brasileiros iam ao cinema assistir E o Vento Levou. Tevê não havia, só rádio, teatro e cinema, este último quase que 100% americano. E aí tínhamos uma brasileira em Hollywood. Carmen foi uma das estrelas da Fox e atuou em 14 filmes. Mas estamos em 1940, ano de Guerra Mundial e política da boa vizinhança. Carmen estrelava filmes e mais filmes com personagens sempre muito parecidas: com vestes muito coloridas e chamativas, personalidades espalhafatosas e cômicas, sotaques chicanos que ela forçava, a pedido da Fox. É claro que ela queria fazer outras coisas no cinema, mas a indústria a queria para essa única personagem, que era o que fazia sucesso. A essa altura do campeonato, você pode pensar: mas por que Carmen não abandonou tudo e voltou para o Brasil?
- Depois de uma breve visita ao Brasil em 1940, ela só voltaria ao país por mais uma vez, 14 anos depois, em 1954. Era uma celebridade de sucesso, muito criticada pela imprensa por seu longo período longe do país e reservava-se a visitar a família e os amigos. Sua volta era um acontecimento no Rio de Janeiro. Às críticas, ela respondeu com Disseram que Voltei Americanizada. Mas a verdade é que, a essa altura, Carmen estava presa ao lifestyle das estrelas norte-americanas: assinou contratos de trabalho que a obrigavam a fazer uma quantidade insana de shows, tomava estimulantes para cumprir a agenda e depois calmantes para dormir. Isso virou hábito e trouxe ao seu corpo efeitos colaterais irreversíveis. A vinda ao Brasil era por motivos de saúde. Carmen já não era mais a mesma, desgastada pela dura realidade da fama.
- Como muitos famosos que destruíram suas fortunas, Carmen não sabia administrar seu patrimônio. Era uma mulher sensível e fragilizada pelo ritmo de trabalho, pelo uso de medicamentos e pelo desejo de casar e ser mãe. Nunca conseguiu se tornar mãe, mas casou-se com um homem que trouxe a sua vida mais tristeza do que alegria: David Sebastian. Sebastian foi para Carmen mais ou menos o que Blake Fielder foi para Amy Winehouse. Um triste passaporte para o seu fim.
- “A Carmen que guiava as visitas pelo guarda-roupa parecia às vezes cansada, ausente, sonolenta; em outras, insone, acesa, excitada; mas, nos dois casos, era uma sensação artificial.” Embora termine como uma história sem final feliz (próprio não das mocinhas de novela mas de mulheres reais), a biografia de Carmen Miranda escrita por Ruy Castro me fez admirar por alguns momentos a mulher que existia além do mito e conhecer a artista que havia além das roupas e turbantes coloridos. Carmen Miranda é um patrimônio brasileiro que pouca gente conhece, mas que tem forte influência sobre a nossa música popular. E esses 10 fatos são um pedacinho muito pequeno da memória brasileira que teima em não valorizar o que tem de mais valioso. Mas nem tudo precisa se acabar na quarta-feira.
P.S.: Quem puder, assista ao documentário Bananas Is My Business, de Helena Solberg. É uma grande contribuição à obra de Carmen.