As pequenas coisas

É nada. Quer dizer, pode ser tudo.

A vista da minha janela

Às vezes, eu faço um exercício mental que é pensar no que eu faria se hoje fosse o último dia da história do mundo. Sim, no filme blockbuster da minha imaginação o mundo acabaria em 24 horas, sem que se pudesse fazer nada pra mudar isso. Apenas aceitar, e viver a vida que ainda se tem pela frente. Parece estranho ou até triste pensar assim, mas às vezes faço isso pra lembrar das coisas que realmente importam.

Pois então, se tivéssemos, todos nós, só mais 24 horas pra viver nesse mundo, eu gastaria meus primeiros momentos do meu dia mandando mensagens de Whatsapp, Facebook, Skype, e-mail. Motivo: estou longe de muitas pessoas importantes pra mim, e não teria tempo hábil de viajar até elas. Minha família, meus amigos. Gostaria de, ao menos, dizer a eles o quanto os amo e que sou muito grata por tê-los na minha vida.

Eu veria o verde ao meu redor

Nesse filme imaginário que passa na minha cabeça nenhum asteróide vai colidir com a terra, e o gelo polar não irá derreter totalmente e inundar os continentes. Tudo vai apenas PUF, sumir. Totalmente indolor. Talvez na sua imaginação fosse diferente, tivesse bem mais ação, e você salvasse o mundo de uma grande catástrofe. O fato é que, a essa altura, já fiz a coisa mais importante do meu dia, que era me despedir das pessoas que eu amo e que estão longe, e terei o resto do dia livre para fazer o que quiser.

Coisas que aconteceriam no meu último dia da história do mundo, se ele existisse: por meus pés no mar, tomar um mate nos gramados do bairro Milltown, próximo a um riachinho que elegi como sendo o meu lugar favorito nessa cidade, um almoço feito em casa com muitas comidas e bebidas que eu e o Bito gostamos, a minha playlist favorita, vinho, cerveja, chocolate amargo, um café, um chá, os canteiros enroseirados de Dublin, alguma última foto bonita que eu postasse no meu Instagram, com uma legenda que me deixasse feliz. Certamente reveria algumas fotos pelo celular, meio rápido, pra relembrar alguns momentos e guardar na memória. O dia teria um pouco de sol, um pouco de vento, um pouco de chuva. Talvez fosse primavera. Pra ver aquele por do sol alaranjado da nossa janela. Eu vestiria minha melhor roupa, meus melhores sapatos, e traria meus olhos cheios d’água e de gratidão por tudo.

Eu amaria mais uma vez as rosas

Muitos abraços e beijos no Bito, e nos meus amigos que estivessem por aqui. Talvez eu até cantasse bem alto “Preciso Me Encontrar” pelas ruas. Desejaria um bom dia a vários desconhecidos. Tentaria fazer alguma gentileza por alguém se fosse possível. Leria meu poema favorito. Puxa vida, eu acho que não tenho um poema favorito. Tudo bem. Ainda tenho bem mais que 24 horas pela frente pra descobrir.

Talvez você pense que descobrir o próprio poema favorito (ou quem sabe a cor favorita, o livro, o filme, a comida, a paisagem) seja algo simples demais. Talvez seja pouco. Quase nada. Mas e se fosse mesmo o último dia da história do mundo? O quão próxima a vida real estaria do sonho?

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