Sete erros sobre depressão e suicídio que as pessoas cometem por aí

Cláudia Flores
Jul 22, 2017 · 5 min read
Arte de Banksy

Infelizmente, quando a depressão volta a ser assunto nas redes sociais, é porque alguém se matou. Não é uma regra, mas é constante. Também é constante que seja alguém famoso, como é o caso do vocalista do Linkin Park, Chester Bennington, porque se torna uma espécie de exceção para a imprensa noticiar.

Bennington tinha 41 anos e cometeu suicídio na última quinta-feira, 20 de julho. Os médicos legistas indicaram a causa da morte: enforcamento. A depressão, claro, nunca vai aparecer num atestado de óbito. Mas quem for tentar entender o que o levou a fazer isso talvez encontre sinais de que ela estava lá. O obituário escrito pela BBC vai direto ao ponto: “a dor de Chester Bennington deu vida a lindas canções”.


Uma outra notícia circulou nessa semana, mas acho que muita gente não viu: a polícia deflagrou uma operação em nove estados do país para cumprir mandados de prisão e busca e apreensão relacionadas ao jogo da Baleia Azul. Um jovem de 23 anos foi preso na região da Baixada Fluminense. Era “curador” do jogo, enviando, pelo Whatsapp, tarefas a jovens e crianças que solicitavam participar. Entre as tarefas, estavam realizar mutilações na pele, assistir a determinados filmes de terror, ouvir certas músicas, subir em lugares altos.

O jogo, que virou notícia há alguns meses, mas ainda sem informações muito precisas sobre vítimas, gerou memes, piadas e muito deboche nas redes sociais. Como se fosse algo totalmente absurdo ou impossível de acontecer uma criança ou adolescente se envolver no jogo. Agora, a polícia confirmou: crianças chegavam à delegacia mutiladas. E eu fico aqui pensando se essas pessoas que riram antes têm filhos, e se realmente sabem se está tudo bem com eles.


Desde a primeira vez que eu escrevi sobre a minha depressão, muitas pessoas vieram falar comigo. Sou muito grata a todas elas, porque esses amigos me incentivam a compartilhar o que eu penso, mesmo que não exista nada de científico ou de especialista no que eu escrevo. Se quando comecei a tocar no assunto a ideia era escrever como uma forma de me ajudar, hoje sinto que talvez o que eu escreva sirva para mais alguém.

Apesar de não ser uma profissional da área da saúde mental, eu leio sobre depressão, pesquiso sobre ela, tento entender o que se fala. Mas sempre que alguém comete suicídio e o assunto volta à pauta, ressurgem alguns comentários equivocados.

1. “Suicídio é um ato covarde.”

Basta estar vivo nesse mundo para ser julgado pelos outros por qualquer motivo. Estando morto, mais fácil ainda de ser julgado. Mas quem somos nós pra dizer se é covarde ou não? Como podemos saber o tamanho da dor de outra pessoa? Uma coisa é não glamourizar o suicídio para não incentivá-lo. Outra é tratar o suicida como alguém em perfeitas condições de perceber que está abdicando de algo tão valioso como a vida.

2. “Quem vai se suicidar não fica avisando. Vai lá e faz.”

Li essa frase nos comentários de um post de um amigo do Facebook. Ele criou uma publicação restrita a uma amiga dele para pedir ajuda, porque ela parecia muito deprimida, e estava se ferindo fisicamente. Aí surgiu esse comentário, entre outros semelhantes: “se querem mesmo se matar, não ficam ameaçando”. Só que muita gente avisa que vai fazer isso, e de várias formas. Eu participo de um grupo de apoio na internet em que já vi pelo menos dez vezes pessoas anunciarem que vão se suicidar. Elas dão adeus, postam foto de dúzias de comprimidos, dizem que chegaram ao limite. Muitas vezes, o grupo consegue agir e acionar a família da pessoa, ou conseguem convencê-la a pelo menos bater um papo. “Calma, não faz isso, vamos conversar”. Vidas já foram salvas assim.

3. “Depressão é falta de Deus.”

O problema não está na religião, está nas pessoas. E não estou falando das pessoas com depressão, estou falando das pessoas com religião. Muitas vezes, elas não respeitam o próximo que não tem a mesma fé ou que está passando por alguma dificuldade. Então, para ela, a pessoa com religião, está faltando Deus naquela vida ali. Mas se isso fosse o motivo da depressão, não haveria casos de suicídio dentro da própria Igreja.

4. “Tá depressivo? Isso é falta do que fazer.”

As pessoas têm uma ideia equivocada de que quem tem depressão não trabalha, vive na solidão, não se ocupa. Isso é um estereótipo! As pessoas depressivas trabalham (às vezes até demais), estudam, elas têm família (que inclusive pode ser muito amorosa), elas tem amigos (que podem ser muito presentes), têm vida social. É uma regra isso? Claro que não. Mas muitas vezes, quem está ao redor sequer percebe que aquela pessoa está doente, porque nem sempre o depressivo mostra que está sofrendo. Esse é um dos equívocos que mais me afetam, e não só porque eu sou uma pessoa ativa, mas porque esse julgamento é carregado de preconceito como muitos outros. Mesmo que a pessoa esteja desempregada, ou não estude, isso pode não ser por culpa dela. Não julgue, por favor.

5. “Depressão é doença de gente rica.”

Se fosse assim, por que 75,3 mil pessoas foram afastadas do trabalho em 2016 graças à depressão? Segundo a OMS, o afastamento por motivos de saúde mental (não só depressão, outras doenças também) chega a 37,8% do total de afastamentos. Na minha cabeça, esse pensamento de que só gente rica tem depressão, além do preconceito em si, tem muito a ver com o que a própria imprensa noticia, que são as mortes de pessoas públicas: artistas, políticos, celebridades, etc. Segundo as estatísticas, os índices mais altos de suicídios no Brasil estão entre comunidades indígenas, agricultores, moradores de rua, presidiários. Ou seja, não faz nenhum sentido esse pensamento.

6. “Quem tenta se matar quer aparecer.”

Recentemente, um homem desconhecido se jogou de cima do Viaduto da Borges, em Porto Alegre, e morreu. Uma testemunha que estava no momento em que ele se jogou disse que ele apenas subiu no parapeito e pulou. Não disse nada, olhou pra ninguém ou pediu ajuda. Mas algumas pessoas pedem ajuda. Elas postam no Facebook uma foto com olhar triste, elas se ferem fisicamente, se mutilam deixando cicatrizes, elas recusam convites para sair, elas se afastam, elas ficam agressivas, elas tem o olhar inchado de quem chorou, elas eventualmente falam que estão tristes, que a vida delas tá ruim, elas têm pena de si mesmas. Mas entenda: essas pessoas não estão tentando aparecer, e sim dando sinais de que precisam de ajuda. O que custa perguntar se tá tudo bem? O que custa ouvir, antes que seja tarde?

7. “Qualquer pessoa fica depressiva de vez em quando.”

Talvez o erro mais comum e que qualquer um pode cometer: achar que depressão é a mesma coisa que tristeza. Não é! Recomendo a todos o livro “O Demônio do Meio Dia”, do Andrew Solomon. A série 13 Reasons Why, da Netflix, também é uma referência interessante. Depressão tem muitos sintomas, e a tristeza pode ser um deles. Mas muita gente fica triste de vez em quando e isso é normal. A depressão não é normal, é uma doença, e afeta a nossa vontade de viver. Ela pode trazer desânimo, cansaço, sono excessivo, falta de vontade de fazer sexo, irritabilidade, apatia. Se você conhece alguém que possa estar com esses sintomas, ou dando pequenos sinais de que não tá legal, fale com ele ou ela, ouça, se interesse real por aquela pessoa. Abrace ela apertado, esteja presente. Ou pelo menos não julgue. Não julgue.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade