A falácia do mito

Cláudia Fusco
Sep 1, 2018 · 3 min read

(Este texto surgiu originalmente como uma thread no Twitter.)

Nenhum deus grego foi ferido neste texto.

Gente, vamos conversar? Acho que precisamos pensar nas implicações de chamar um candidato político de “mito”.

“Mito” vem do grego “mythos”, que basicamente significa “história contada no boca a boca”. Alguém poderia argumentar que foi assim que esse candidato cresceu, mas calma aí.

Essas “histórias” não são histórias comuns. São histórias *bastante* antigas, que fundamentam religiões de povos de milhares de anos e representam a essência de um (ou diversos) povos.

Hoje, temos pelo menos mais dois significados para “mito”. Vemos “mito” como mentira, oposto da “verdade”. E tem o ~jovial~ “mitou”, derivado da carga simbólica do mito, ou seja, fazer algo extraordinário.

Toda palavra pode ganhar camadas de significado com o tempo. Mas a ideia do “mitar” é muito interessante, porque apela a uma necessidade moderna de encontrar heróis dignos de lenda para os nossos tempos.

Quando falamos de mito, estamos falando sobre narrativas transcendentais. Para David Leeming, “o mito é a projeção da alma de uma cultura”. Há muita verdade nisso. Até a brincadeira de que “os gregos inventaram tudo” passa por esse conceito: seus mitos contemplam uma imensidão de pensamentos e conflitos que fazem sentido até hoje.

Mitos sustentam povos, nutrem sociedades com histórias de fundação e origem. E histórias são tudo que a humanidade tem pra passar seu legado adiante. Mitos influenciam a política, a vida em sociedade, as regras de um povo.

(Aliás, aprendemos na escola que os deuses romanos eram iguais aos gregos, porém com outro nome, mas nunca paramos pra pensar na simbologia por trás disso e como isso se deu. Mas talvez mereça outro texto, porque a treta é grandinha. Só vou dizer que ter seus próprios mitos também é essencial para a autenticidade de um povo.)

Mitos não são brincadeira. São histórias que provocam grande impacto emocional, que se revelam num passado sagrado. O mito pode trazer respostas em tempos difíceis.

Não é à toa que Jung dizia que o mito é “a revelação de uma vida divina no homem”. É uma projeção de tudo que sonhamos, desejamos e imaginamos enquanto sociedade organizada.

Chamar um indivíduo de “mito” é, de uma forma ou de outra, depositar nele todos os desejos e esperanças para o futuro. Mas também é sedimentar a essência brasileira. É dizer: é isso que eu sou.

(Existe debate sobre a existência de um mito fundador brasileiro, mas isso também merece outro texto.)

Nenhuma pessoa, sozinha, é capaz de resumir a identidade de um povo. O que ela pode fazer é exprimir necessidades específicas, se inserir em uma mentalidade e usá-la ao seu favor. Inclusive, recomendo muito a série de vídeos de mitos políticos do professor André Azevedo da Fonseca sobre o assunto:

O discurso de ódio é tentador em tempos de crise. Ele parece trazer soluções rápidas a assuntos complexos e delicados. Mas o que está presente em todos os nossos mitos é que somos sociedades complexas, com milênios de trabalho pra chegar até aqui. Sabemos os efeitos da violência desmedida porque a história nos conta. Os mitos nos contam. Não há resposta rápida.

Ursula Le Guin trabalhou muito o conceito de submito para aquilo que parece mitológico, parece ancestral e evoca sensações diversas, mas não é mito. O submito não deve ser substituído pela experiência transcendental real de estar diante dessas histórias milenares. O submito, por mais tentador que seja, é subterfúgio. É confundir mentalidade dos nossos tempos com narrativas sagradas.

Não podemos criar mitos nem tirá-los da cartola. Eles já existem e são ressignificados de tempos em tempos, mas estão lá, como estrutura da sociedade. Não vamos confundir o que é momentâneo (e movido a ódio e terror) com o que é a base do pensamento ocidental.

Bom, é isso. Posso falar desse assunto por mil horas, mas vamos conversando. Thanks for coming to my ted talk sobre etimologia e piras mitológicas. Voltem sempre!

    Cláudia Fusco

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