Por que todo mundo quer me convencer a não ser escritora? (Ou: stop cartilhas nocivas sobre escrita 2017)

Cláudia Fusco
Jul 27, 2017 · 6 min read
Aqui pensando em todas as cartilhas aleatórias que já me disseram para não ser escritora

Gosto muito de ler textos voltados para escritores iniciantes — e não apenas pelo fato de ser uma. O escritor deve ser o único profissional que exerce o próprio ofício enquanto fala sobre ele; afinal, quanto mais bem elaboradas as ideias do autor ou autora, mais confiamos em sua técnica. Queremos ler seus livros, saber o que fazem nos seus dias, suas rotinas. Professores, advogados e arquitetos não passam por isso. Acho.

Mas tem um troço que vem me incomodando bastante, e infelizmente é comum até naquele blog ultra alternativo sobre escrita criativa biosteampunk oriental: em um dado momento, o autor sente a liberdade de dizer que ~certos tipos~ de pessoas não deveriam ser escritores.

A lista varia. Gente que quer ganhar dinheiro com literatura? Não presta pra ser escritor profissional. Não escreve todos os dias? Fora. Escrever sem método, sem ordem, sem disciplina?! Como assim?! E o planejamento? Como assim não gosta de falar da obra antes de terminar?! Como assim não sente a urgência de colocar as palavras no papel, como todo bom autor nasceu para sentir?!

Gente, existem listas. Sério. O Telegraph, a Forbes e o ThoughtCatalog fizeram LISTAS de motivos para não ser um escritor (embora uma delas inclua uma tentativa ~meiga~ de apaziguar as broncas ao fim do texto). Isso é um absurdo apenas para mim ou estou pirando? A gente tem noção do quanto isso é… nocivo?

Por que sentimos a necessidade de testar constantemente a força de vontade do escritor? Certamente não é por se tratar de uma profissão difícil, embora isso seja absolutamente verdade; há muitas outras profissões tão ou mais desafiadoras do que o ofício do escritor, e não por isso saímos dando pitaco e escrevendo listas sobre elas, desencorajando cirurgiões ou engenheiras mecatrônicas.

Me parece que, por ser arte, existe uma tentação muito maior ao pitaco (eu inclusa, como vocês podem ver, né mesmo?). A vontade de ser uma voz de autoridade é irresistível demais.

Naturalmente, essas “dicas amigáveis” estão encharcadas em Boa Intenção — e algumas dicas são bastante úteis de fato. Ontem mesmo li sobre a “misteriosa geração que quer ser escritora, mas não lê”. Bem, ler me parece essencial a quem tem aspirações literárias por uma série de razões. Mas por trás de cada sugestão dessas cartilhas, ouço uma voz um tanto quanto autoritária, crítica e julgadora. E nessa autoridade, me parece haver mais do que o espírito de ajudar.

Vejamos o texto sobre a geração que não lê. Meu questionamento é imediato: de onde vem a convicção que este é um comportamento geracional? Qual o comparativo, a base, o contexto de mercado e sociedade de hoje e do passado? E uma vez que estabelecemos que isso não é exatamente fácil de mensurar: temos mesmo o dever de quantificar e qualificar a leitura do outro, os hábitos, aspirações? A quem estamos servindo com essa patrulha bem intencionada, exatamente?

A soberba que eu encontro nesses textos me parece um eco confuso de um ideal romantizado sobre o ofício do escritor. Aquela famosa figura atormentada, dedicada terrivelmente a seu manuscrito, um Edgar Allan Poe pelos cantos. Nesse eco distorcido, o que sobrevive da mensagem principal é há uma expectativa sobre o que devo pensar da profissão. Mas no que é baseada esta expectativa?

Não sei, mas sei que é muitas vezes nociva para escritores aspirantes e experientes. Escrever já é bastante difícil sem a cobrança de autores de cartilhas; quando me apontam que não escrever todos os dias, por exemplo, é um fracasso, é fácil se questionar se deveria estar tentando, para início de conversa.

Certa vez, eu desisti mesmo. Por alguns anos, tive a plena convicção de que escrever não era para mim. Era até irônico: quanto mais procurava informações sobre como me tornar uma escritora melhor, mais motivos encontrava para desistir totalmente. Para todos os efeitos, eu não me encaixo e não deveria nem tentar. Sou leitora voraz, mas zero disciplinada. Quero escrever, mas nem sempre. Às vezes, colocar ideias no papel é a coisa mais difícil que podem exigir de mim. Às vezes é fácil e fluido. Não posso falar pelos autores profissionais que tenho a sorte de ter em meu círculo de amizades e conhecidos, mas… esses sentimentos não são completamente normais? E que deveriam ser contemplados nessas cartilhas, muito mais do que -pardon my french- cagação de regra sobre tudo o que você está fazendo de errado?

Não acho que ser escritor é fazer parte de um clubinho especial que tem tesão industrial pela escrita. Acho que a humanidade é interessante o suficiente para contemplar os mais diversos tipos de escritores, com suas respectivas motivações e ambições. Não, não é feio ambicionar. Não é feio sonhar com esse ofício. Talvez você descubra que não há um jeito de ser escritor, mas vários — e alguns dos autores que você mais ama, em um ou outro momento da vida, já fizeram coisas que contrariam todos os manuais de escrita criativa.

Sempre penso em Louisa May Alcott, autora de Mulherzinhas. Seu livro mais famoso, sucesso estrondoso de vendas para a época, só foi finalizado por conta de um contrato firmado entre seu pai e uma editora que sabia que uma história como aquela venderia que nem água. Alcott adorava histórias de sangue e mistério, mas acabou sendo conhecida por aquilo que chamava de “papinha moral para jovens”. Sem romantismo, sem cerimônia. Ela escreveu puramente para vender e pagar as contas, sim — e suas obras ocupam espaços de debate entre os clássicos. A qualidade é evidente.

Existem boas práticas para o autor, como em qualquer profissão. Há excelentes livros-texto sobre o ofício de escrever, ótimos professores desse ofício. Mas da mesma forma que não espero que um guia de medicina geral faça pouco das minhas habilidades com um bisturi, e sim me ensine a manuseá-lo corretamente, eu não aceito qualquer manual “bem intencionado” sobre a escrita que tenha a humilhação do escritor iniciante como ponto de partida. Não tolero e não vou mais perder meu tempo com quem quer sabatinar minhas motivações para escrever.

STOP RIGHT NOW, THANK YOU VERY MUCH.

Se você sabe mais, se você tem experiência, ensine verdadeiramente. Não faça menos de quem está chegando agora. Explique. Mande a real, se quer mesmo ajudar. Você não tem obrigação de ensinar — mas se escolheu dar dicas para escritores, gentileza não mata. Humor não mata. Este texto foi inspirado neste textão do Dan Belmont sobre os erros e dificuldades no processo de escrita. Funcionou incrivelmente para mim: 100% honesto, divertido e um pouco autodepreciativo. THAT’S THE STUFF.

E também: se você é um autor iniciante, OUÇA. Não fique na defensiva. Aprenda. Você não vai se livrar de estudar apenas porque é iniciante. Ninguém deve passar a mão na sua cabeça. Mas também não se deixe machucar por todo mundo que vai tentar te convencer a desistir. Enfie essa teimosia na cabeça e trabalhe.

Não ganhamos nada com a soberba, mas o mundo se beneficia com mais escritores de talento, que podem estar sendo continuamente afastados do ofício ao se sentirem humilhados. Queremos escrever — e isso deveria bastar. Nos ajudem a ser melhores.

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