Prepare-se para erro

Partiu Plano B? Chegou a hora de sair da sala vip do conforto e dar o passo em direção ao novo? Na espinha, aquele frio polar. No estômago, aquele nó de ansiedade e excitação só comparável ao nó dos extremos da paixão. Na cabeça, passam dois filmes. O primeiro é blockbuster. Fila na porta para te ver e te ouvir. Fila na porta para comprar seu produto ou seu serviço. Fila na porta para te aplaudir e no caixa o dinheiro jorrando, feito as Cataratas do Iguaçu. Aplausos em cena. Só falta levar o Oscar.

O segundo documentário é em preto e branco. As cenas são escuras e angustiantes. A trilha sonora lembra enredo de terror. O ritmo é lento como um clássico de Tarkovsky. O seu negócio está vazio. Entregue às moscas. Ninguém chega. Ninguém entra. Os amigos atravessam a rua para nem ver a sua agonia, a sua miséria, a sua vergonha.

Você sacode a cabeça para dissipar a imagem ruim, para acordar do pesadelo e volta a pensar nas imagens coloridas do sucesso. Acalme-se, respire.

A descrição acima não é nada original. Quem começou, lançou ou estreou já passou por todas essas sensações. Tudo pode dar certo. Tudo pode dar errado. Sempre existe um imponderável que abençoa ou maldiçoa um novo empreendimento. Isso não quer dizer, no entanto, que basta entregar para Deus e rezar. Definitivamente, trata-se do oposto. Porque existe esse imponderável, que gosto de chamar de coeficiente de mangue, o pêndulo do Universo tende sempre para o erro, para a falha, para o caos, para o insucesso, para o fracasso.

É dura a vida da bailarina. É dura a vida do empreendedor. É dura a vida dos sem crachá. É linda, desafiadora e livre a vida da bailarina e dos seus colegas de palco. Sonhe, mas não fantasie. Deseje, mas não se iluda. Acredite, mas não minta para si mesmo. Do céu, só cai chuva, avião e sujeira de passarinho. Tudo, tudo pode dar certo mas é preciso trabalhar desavergonhadamente para isso.

Fazer o que? Prevenção. Isso mesmo, previna-se contra o coeficiente de mangue como se ele fosse dengue. Trabalhe em dobro. Planeje. Antecipe, como se embarcasse em uma excursão para Marte, todas as possibilidades de erro, de falha, de defeito e de perda. Acredite no erro e multiplique o seu esforço para transformá-lo em acerto. A prevenção, vale enfatizar, não é filha do pessimismo. Ao contrário, é irmã de sangue do otimismo, porque trabalha para e pelo sucesso absoluto. Ao premeditar tudo o que pode dar errado, revisamos todos os processos, apertamos todas as porcas e parafusos para garantir que o avião vai decolar e aterrissar sem sustos. Só com uma leve turbulência.

A vantagem desse ponto de vista é que mesmo quando dá errado, pode dar certo. Afinal, guarda-se na manga o plano de contingência para fazer o conserto antes de chegar na lua. É o plano B do plano B. Comprou um produto que encalhou? Não conseguiu encher a sala? Não vendeu todos os patrocínios e convites? Enquanto contabiliza o prejuízo, vai pensando como reverter as perdas. Procura um destino para o encalhe. Negocia uma revenda. Corta uma etapa. Economiza um transporte. Renegocia um pagamento. Só a letargia é proibida na vida daqueles que decidiram encarar o voo solo. Quer chorar? Chore, mas enxugue as lágrimas enquanto reage, retrabalha e refaz o planejamento do segundo round.

Quer saber qual é música?

“Chorei, todos viram.

Sentiram pena de mim, não precisava

Ali onde eu chorei qualquer um chorava.

Dar a volta por cima que eu dei

Quero ver quem dava”.

Paulo Vanzolini

Boa sorte. Bom trabalho.

https://www.youtube.com/watch?v=yKZaoUNXzn0