Destruindo Afetos

Estamos ficando refinados na ironia. Quando nos convém, repetimos a frase: “Contra fatos não há argumentos”. Mas repito: estamos refinando a ironia. Nessa imensa-diversidade-de-sutilezas-que-somos, amplia-se mais novas formas de manifestar sentimentos, e eles só se multiplicam, com suas incontáveis facetas, e borbulham em profusão, mesmo-naqueles-que-sentem-a-alegria-de-desfrutar-a-vida-em-sua-máxima-potência. Passar a existência acreditando que só existem dois caminhos fortalece uma dicotomia contraditória, dadas às tantas percepções e reações tão pulsantes nesse mundo cão…

Queremos viver nossa vida tranquila com bens básicos e até os luxuosos, mas basta um pequeno entrave para quase nos colocar em cheque-mate, e desesperados em recuperar nossa zona de conforto, apelamos por um ataque ao desafeto. Esquecemos do TODO, da harmonia, da temperança, do real sentido em estarmos aqui… Tornando implícito a negação da melhor experiência: deixar prevalecer o amor.

Na TV, um apresentador confunde o nome de um programa em favor de uma outra apresentadora que está presente no auditório. O expectador hipnotizado pela nave-prata interpreta como um elogio, mas ela, empoderada de suas subliminares, rebate mais tarde para a grande mídia: ele cometeu uma gafe. E um outro, o apresentador associa o ocorrido a uma união de ideias e parcerias remontando ao objetivo maior de pertencerem à mesma equipe de trabalho… Mas isso só fica visível se lermos pelo menos o conteúdo de três links que corroboram o ocorrido, e quanto mais nos inteiramos do assunto, mais informações vão se assomando, tomando um vulto tão contundente, digno de uma tese ou seminário…

Estamos ficando refinados na ironia. Preferimos desafiar o outro pela simples falta de afeto, pelo desentendimento do TODO que somos nós. Precisamos nos defender constantemente de inimigos invisíveis e que nos beijam a face. Mas é possível que tudo não passe de um imbróglio, É tangível nosso desejo de nos afirmarmos como seres buscadores da nossa própria essência, e isso parece não ter fim; nem uma bomba, nem um cataclisma, parece conter as ações desesperadas de sobrevivência, para sairmos “vitoriosos”. Seguimos em frente sempre na expectativa de cultivar nossa posição, mesmo que isso custe o adiamento de encontrar o arco-íris , mesmo que isso custe magoar o outro, mesmo que isso custe impregnar milhões de pessoas com o desafeto.

Precisamos parar com essa ironia.