iCarly é um manifesto anti-autoritário e aqui está o porquê

É comum ouvirmos que tudo é político, assim como discursos variados sobre como nenhum conhecimento é mais importante que outro. Porém, na prática, isso só é usado quando se convém. É difícil convencer pessoas que um livro do Foucault e uma música de funk podem ter conhecimentos muito grandes e igualmente importantes dentro de suas áreas de atuação. Levando isso em conta, consideremos iCarly, antes de tudo, como um grito contra vários tipos de autoridade: escolar, parental, estatal, policial, capital. As mensagens que encontramos na série de TV são as mesmas que podemos encontrar em obras de Paulo Freire ou Ivan Illich. Toda forma de comunicação, seja ela música, filme, série, livro ou pintura passa uma mensagem sobre tudo: sobre o estado, poder, dinheiro, autoridade, macarrão com almôndegas liquidificado, diversidade e arte. Nesse texto irei focar nas perguntas: O que iCarly está tentando passar? O que os criadores da série estão tentando dizer? Por que não devemos tocar trompete enquanto pulamos em um pula-pula?
Antes de tudo, o que é iCarly e por que é tão importante? iCarly é uma das séries criada por Dan Schneider para o canal de televisão Nickelodeon. Schneider, além de iCarly, também foi responsável por outras séries de sucesso do canal como Zoey 101, Brilhante Victória, Drake & Josh e Kenan & Kel. A série durou de 2007 à 2012 e é uma dos shows mais marcantes a Geração Z. A série se passa em Seattle e foca na autonomia criativa e identitária dos jovens. Bom ressaltar que deixei os episódios aqui colocados seguindo a numeração da Netflix, que pode ser diferente da numeração original.
Quando digo que iCarly é um manifesto contra autoridade, digo por que esse é exatamente o tema central da série. O primeiro episódio, iPilot, conta a história da formação do iCarly como show. Tudo começou com um castigo: a professora Senhorita Briggs obriga Carly e, consequentemente, Sam a gravar os candidatos ao Show de Talentos da escola. Eles pedem ajuda com equipamentos e vídeo ao vizinho apaixonado de Carly, Freddie. No show de talentos, entre espetáculos entediantes e criativos, eles percebem uma coisa que Ivan Illich, anarquista escritor do livro Sociedade Sem Escolas, descobre na década de 70. A escola valoriza conhecimentos específicos e castra a criatividade dos alunos. Os espetáculos relacionados aos conhecimentos apreciados na escola, como atuação de clássicos ou música erudita, é filmado como piada e feito de piada pelas próprias protagonistas. Elas fazem uma lista dos espetáculos mais criativos que mostravam conhecimento bem longe do campo escolar, como, por exemplo, tocar trombeta enquanto pula em um pula-pula, a professora em questão simplesmente ignora. Isso representa que o show quer mostrar como a escola, como sistema, exemplificado pela Senhorita Briggs, ignora esses conhecimentos que vem a ser bem mais interessantes do que monólogos com dois personagens (?). Revoltados, Carly, Sam e Freddie criam o próprio programa de talentos, em que convidam e praticam esses conhecimentos ignorados pela escola. Assim que o iCarly nasce: é um manifesto contra a opressão e invisibilidade desses conhecimentos, é um manifesto contra a autoridade escolar. E isso vai se exemplificando ao longo da série, de maneira explicita ou simbólica.
A autoridade parental é diretamente confrontada no episódio iWant Stay With Spencer, quinto episódio da série. A mãe da Carly é ausente, talvez morta (não é explicado na série), e o pai é militar e está ausente por serviço. Carly vive com seu irmão mais velho, o artista escultor surrealista Spencer, que tem métodos de educação que variam da norma. Sua relação com Carly é baseado em igualdade e sinceridade. Quando seu avô visita a casa de Carly, fica horrorizado com isso. Ele repete, durante o episódio, que a Carly precisa de disciplina e uma educação autoritária, e decide levar Carly com ele. O episódio gira em torno dessa decisão e Carly rejeita a ideia várias vezes. Spencer, apesar de oferecer uma educação igualitária, acompanha a Carly em suas manifestações criativas, acompanha seus estudos, alimentação, segurança, saúde. A série nos tenta mostrar que dá sim para ter uma educação sem hierarquia e ao mesmo tempo funcional. No final, o avô de Spencer e Carly desiste de sua decisão ao perceber isso também. Em contrapartida, o show nos mostra também uma educação autoritária e hierarquia, centrada na figura maternal, que é disfuncional e abusiva. Freddie se sente incomodado com sua mãe supercontroladora. Apesar de amar ela, seus atos de controle são abusivos, e o show nos insiste em mostrar isso, a colocando, muitas vezes, em posição de antagonista.
Há muito tempo, o antagonismo nos serviu pra mostrar atitudes que os criadores consideram errado. É uma ferramenta pra simbolizar o imoral e o personificar em um vilão. Nos filmes antigos do James Bond e da Disney, por exemplo, os vilões eram codificados como queer a fim de personificar o mal. O protagonista geralmente era codificado como hetero e representava os valores estadunidense. Um dos exemplos de como o antagonismo era usado para representar uma ideia moral são os filmes de Rocky. O protagonista representa os valores americanos e meritocráticos durante todo o filme. Entre os antagonistas da franquia, há um Russo, e acho que não preciso falar mais sobre isso. A autoridade de iCarly, além de ridicularizada, é colocada sempre como antagonista. Os problemas da semana sempre giram em torno de alguma atitude autoritária e os jovens tentando superar isso.
O episódio nono da primeira temporada mostra o encontro de Spencer com seu artista preferido. Tal artista é guiado pelo medo, por achar as obras de Spencer melhores que a dele, e diz que as obras são ruins. Ele representa uma autoridade artística, e mostra as decisões deles guiadas a interesses próprios, aos próprios medos. É constante também durante a série o problema da semana envolver a figura autoritária causando sofrimento ou incomodo por ter suas decisões guiadas por assuntos pessoais. No episódio 25, iHave a Love Sick Teacher, mostra a professora Ackerman, triste pelo termino de seu namoro, descontando a tristeza e raiva em seus alunos. Isso inclui força-los e escrever textos sobre suas decepções com homens, castigos físicos e não abertura para dialogo. Tudo piora quando, ao longo do episódio, ela namora e separa com o irmão de Carly. Os castigos, nesse caso, se tornam específicos para o grupo principal, e Carly se revolta quando recebe um F para uma prova surpresa que ela nem teve oportunidade de fazer. Eles conseguem armar para a professora e prendem ela, e comemoram levando toda a sala para passear.
O episódio mais enigmático que mostra a revolta contra a autoridade escolar é o 16 da primeira temporada, iGot Detention. No episódio, pra variar, Sam é detida na noite do 50° show de iCarly. Carly e Freddie tentam ficar detidos juntos a ela e eles decidem fazer o show dentro da detenção, escondido do professor. Quando o professor descobre, ele é gravado ao vivo pelo programa dizendo que não dá a mínima ao o que o diretor pensa e começa a trazer castigos físicos aos alunos desvalorizados pelo sistema escolar, os alunos rebeldes/detidos. Ele é demitido, pois o diretor assiste o iCarly. O que é mais interessante nesse caso é que o episódio insiste em mostrar o medo que as crianças tem desse professor em particular, e o jeito que o filmam como antagonistas, a la Clube dos Cinco, funciona muito bem para provar esse ponto. O diretor, nesse caso, não é autoritário e tenta barrar comportamentos como esse dentro da escola, mas é raro uma figura escolar que não é colocada como vilã dentro da série.
Há também dois episódios que mostram a autoridade capital. Um de uma indústria de TV e outra de tênis. No episódio do tênis, o 17, conta que uma empresa tenta promover a TechFoot no programa de Carly. Acontece que esse tênis vira um sucesso e ao mesmo tempo é de péssima qualidade. Ele pega fogo fácil, apaga os dados de computadores e faz um barulho horrível ao andar. O iCarly tenta parar de promover o tênis, mas não conseguem, então eles arrumam um jeito icônico de despistar a empresa.
Outra ocasião que isso é mostrado é quando uma empresa de televisão convida as crianças a apresentar o iCarly na TV. Aos poucos, as decisões da empresa tomam conta do programa e tira a visão dos garotos. As atrações e pessoas que eles querem valorizar, como o tecladista e o Freddie, ficam desvalorizados. Eles novamente conseguem sair da TV e conseguir o nome do programa de novo para apresentar online, tendo total e completo controle criativo, sem hierarquia ou fugas da razão central.
Por último, gostaria de ressaltar um episódio da primeira temporada que a Nick quer que esqueçamos, e é o mais emblemático nessa narrativa. O episódio 21 mostra dois policiais ocupando a casa de Carly para investigar um funcionário de uma loja que provavelmente está vendendo filmes piratas. Um deles bulinava Spencer nas férias de verão há muito tempo. Quando o reencontram, além de abusar da hospitalidade da casa, tomando toda comida e bebida de Spencer, ainda o abusa fisicamente. No meio do programa, os policiais, ineficientes em investigar o suspeito desse crime bárbaro de pirataria, trazem o filho para a casa de Spencer, que abusa e agride ainda mais Spencer, destruindo o bolo que ele estava fazendo para seu “amigo” Meião. Por fim, a equipe do iCarly decide investigar por si mesmo o caso para tirar os policiais da casa de uma vez. Eles descobrem que sim, eles estava vendendo filmes piratas. Filmes originais sobre piratas feito pelo funcionário da loja e seus amigos. Quando os policiais estavam saindo da casa, ocorre o momento mais A.C.A.B. da série. Spencer prende o policial que o bulinava em um móvel e usa a legítima defesa para o agredir, que você pode apreciar no minuto 23 desse vídeo.
Em conclusão, todas as formas de arte tem uma mensagem. Nosso trabalho como espectador ou crítico ou militante é identificar essa mensagem através dos mecanismos que arte oferece. Seja o antagonismo, o humor, seja qual for. iCarly marcou uma geração inteira de vloggers, representa o descontentamento da Geração Z com o sistema escolar e a autoridade, que pode vir do estado, escola, capital, policial. A série não é perfeita, tem seus desvios que podem ser prejudiciais como o relacionamento de Sam e Freddie, porém ela foi importante e é sobre isso que é esse texto. Esses personagem com relacionamento disfuncional tem pais absurdamente abusivos e é mostrado no show como o iCarly e a expressão artística é um refúgio dessas figuras autoritárias. Tudo é político, tudo passa uma mensagem específica sobre as coisas. Já dizia a bíblia:
“Nem só de análise de Game of Thrones vive o homem”
