Obituário: Bourdieu e os cavalos de tróia

Um acaso infeliz fez quase coincidirem, no calendário, as datas da morte do sociólogo francês Pierre Bourdieu, em janeiro de 2002, e da decretação da falência da megaempresa norte-americana de energia elétrica Enron, em dezembro de 2001. Ambos os fatos surpreenderam a opinião pública internacional pelo inesperado.

O primeiro pela súbita perda de um dos últimos remanescentes do que se convencionou chamar de ‘intelectual público’. O segundo pela incredulidade dos leitores que haviam se acostumado a ver na mídia americana informes bastante otimistas sobre a situação da companhia, publicados por jornalistas econômicos que, de uma forma ou de outra, desfrutavam das suas benesses. Relatos grandiloqüentes de ‘especialistas renomados da mídia’ sobre o desempenho da Enron levaram a uma sobrevalorização fraudulenta das ações da companhia. A unir os dois lastimáveis episódios, a denúncia sistemática feita pelo sociólogo da cooptação dos profissionais da mídia pelo poder econômico e os impactos disso na salubridade da civilização e sobre o bem público.

Homem afável e simples no trato pessoal com este jornalista, Bourdieu transmutava-se em demônio aos olhos de seus adversários quando o assunto era o desvelamento da dominação. Via o sociólogo como o profissional mais adequado a desempenhar a tarefa de intelectual público, guardião das conquistas sociais de nossos antepassados, agora dilapidadas pela lógica econômica contemporânea.

“Não é mais possível se omitir. Penso que o sociólogo, por conta de seu trabalho, pode ver as coisas com alguma antecipação. Pode ver as conseqüências a longo prazo de decisões políticas atuais, seja em termos de saúde, de delinqüência, de mortalidade e outras. Se eles não falam do que prevêem, são culpados de não assistência a pessoas em perigo, muito gravemente responsáveis”, afirmou Bourdieu em uma entrevista dada a este repórter em dezembro de 2000, em Paris, no anexo do College de France..

Bourdieu concebia a sociologia como uma arte marcial. “Se você olha a televisão com um certa cultura sociológica, você será menos inoculado. Se você escuta os discursos políticos com a ajuda da sociologia, você estará mais protegido. O que não quer dizer que se fique cético ou se transforme em uma espécie de cínico ou indiferente”, ensinou a este repórter. Mais precisamente seria uma técnica de defesa pessoal contra a ‘violência simbólica’, “aquela ‘violência doce, invisível, desconhecida como tal’ que se exerce sobre um ator social com a sua cumplicidade”.

Não é mais possível se omitir. Penso que o sociólogo, por conta de seu trabalho, pode ver as coisas com alguma antecipação. Pode ver as conseqüências a longo prazo de decisões políticas atuais, seja em termos de saúde, de delinqüência, de mortalidade e outras. Se eles não falam do que prevêem, são culpados de não assistência a pessoas em perigo, muito gravemente responsáveis.

A dominação masculina para ele era a forma paradigmática de violência simbólica. ‘A vulgata planetária’ que acompanhava os peremptórios discursos sobre a globalização repercutidos pelas mídias, sobre a suposta inevitabilidade deste processo, sobre a discutível necessidade de se flexibilizar ao máximo a economia, ou sobre a saúde financeira das empresas, como no caso da Enron, seria para ele outra forma de violência simbólica.

No caso da Enron, o que atrapalhou os jornalistas talvez tenha sido sua cobiça pecuniária e sua ignorância sociológica. Esqueceram que jamais serão capazes de retratar “a realidade”, como querem nos fazer crer nos programas de análise da cobertura da imprensa para os quais são convidados. Terão, na melhor das hipóteses, acesso a representações destas, adocicadas por rega-bofes, bocas-livres, viagens e biscates como palestrantes, poderosos amaciantes de convicções. Afinal nenhum executivo seria bobo de abrir as contas de sua empresa para um repórter. No entanto, ainda com esta limitação elementar à boa prática, os jornalistas econômicos pretendem nos apresentar ‘a verdade dos fatos’. “De toda as formas de ‘persuasão clandestina’, a mais implacável é aquela que é exercida pela pura e simples ordem dos fatos’’, já afirmara certa vez o sociólogo.

O que incomodava Bourdieu eram “os efeitos de imposição produzidos por um discurso repleto de eufemismos e codificado por termos econômicos que mal escondem, sob as aparências da neutralidade técnica, a ilegitimidade de um interesse particular, o dos investidores”, lembra Pierre Mounier. Um trabalho sobre as palavras para desatar seus grilhões: esta era a primeira missão do intelectual para o sociólogo francês.

O interesse de Bourdieu pelo campo jornalístico estava, entre outras coisas, ligado à capacidade dos jornalistas de divulgar produções de campos alheios aos seus (filosofia, literatura, produção científica, economia (?) nivelando-os por baixo, usando critérios pessoais de julgamento, muitas vezes atrelados ao sucesso comercial. Daí a promoção de escritores, artistas e celebridades de talento discutível. Daí as tensões entre realizadores culturais e a crítica, em muitos casos. Daí nossa pobreza intelectual. Assim, os jornalistas seriam cavalos de tróia a amesquinhar a autonomia do pensamento duramente conquistada por outros campos culturais.

O legado de Bourdieu é tentador e estimulante. Mas peçamos a Deus que esteja enganado. Seriam os jornalistas os cavalos de tróia da ruína social que experimentamos? Em caso afirmativo, sem Bourdieu o mundo fica mais cínico.