Enem e um Colégio Militar

Edição que traz resultado de uma pesquisa sobre o ENEM e o impacto em um colégio militar.

O Enem é uma prova de que o inferno está recheado de boas intenções. O Exame Nacional do Ensino Médio surgiu cheio de boas ideais. Primeiro, criar uma métrica no país que pudesse servir para substituir os defasados vestibulares. Como uma consequência positiva, servir também de parâmetro para outros processos de seleção, como bolsas e estágios. E o melhor de tudo, aproveitar que se vai mudar o paradigma de entrada no ensino superior, mudar também o paradigma de avaliação: que tal cobrar menos conteúdo estanque de apostila e mais raciocínio, conexões entre o conhecimento e a realidade, aplicação real daquilo que é dado em sala de aula?
 
 A ideia era ótima, mas, ao que parece, uma boa parte deu errado. O que era para revolucionar o ensino virou cartilha para sobreviver a uma corrida maluca para uma vaga em uma universidade, preferencialmente pública. Se antes do ENEM só víamos nos cursinhos pré-vestibulares aquelas superestimulantes aulas com fórmulas para se acertar as questões, pouco se lixando se aquele conteúdo faz sentido na vida daquele jovem, tal metodologia do absurdo da educação contaminou boa parte das escolas, independente se pública ou privada, se antes boas ou ruins. Com a divulgação de rankings, aí sim virou uma gincana nacional de quem consegue mais pontos no ENEM, sendo os alunos os pilotos involuntários de equipes mecânicas de Fórmula 1 do ensino.
 
 A provas iniciais do ENEM até que tentaram manter o projeto inicial, menos decoreba e mais raciocínio. Durou pouco. Sob pressão, já que as escolas e os pais não estavam preparados para (e, desconfio, que nem queriam) pensar a Educação como desenvolvimento do pensamento, da análise crítica e da postura cidadã de seu jovem, parte significativa das questões voltaram a representar aquela velha cantilena de lembrar de conteúdo com pouca serventia na vida prática. 
 
 E a Educação, com letra maiúscula, que visa o crescimento e adaptação do jovem em sua sociedade através do conhecimento científico herdado da humanidade fica para depois, ou torcendo que seja um efeito colateral positivo desta corrida.
 
 As consequências para as escolas foram nefastas e, admito, nem sempre elas poderiam fazer muito diferente, haja vista que a cobrança pelos pais de um bom resultado dos filhos no ENEM também virou prerrogativa (e dane-se se a decoreba não está fazendo o seu filho ficar preparado para a vida!). Já imaginaram isso em um colégio militar? Onde a ‘disciplina’ tem um conceito diferente daquelas descrições na grade escolar? Mas que também é considerada, já há algumas décadas, referência em ensino de qualidade? Como essas escolas encararam o ENEM? Mantiveram-se altivas em sua posição ou também entraram na corrida maluca?
 
 Não dá para saber de todas as escolas, mas dá para, através de uma, imaginar como deve ter ocorrido com as outras. E, se houve o impacto em escolas conhecidas pela qualidade do egresso e pela sua orgulhosa autonomia perante o segmento de ensino, pode-se temer pelas demais. Foi esse o objetivo da pedagoga Celina Maria Barbosa Palhares ao desenvolver a sua pesquisa O ENEM e as mudanças nos métodos de avaliação da aprendizagem: um estudo sobre a influência no Ensino Médio de uma escola mineira. Além da dissertação, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local, do Centro Universitário UNA/MG, o resultado pode ser conferido no artigo O ENEM e o Colégio Tiradentes da Polícia Militar de Patos de Minas, publicado pela Revista Alpha, no seu volume 17, no. 2, de ago/dez de 2016.
 
 Infelizmente, Celina nos deixou muito, muito, muito cedo. Uma querida educadora pelos seus estudantes, uma carinhosa mãe e esposa, uma afetuosa irmã, e uma excelente mestranda que tive o prazer e a honra de compartilhar sua investigação.
 
 Partiu nosso coração com sua partida no ano passado. Sua contribuição científica é apenas uma pequena parte do que nos deixou, afortunados que tiveram o privilégio de compartilhar de sua companhia.
 
 Aqui, as palavras de Celina que resumem seu texto:
 
 Este artigo resulta de uma investigação específica em uma unidade escolar pública, o Colégio Tiradentes, da Polícia Militar de Minas Gerais, da cidade de Patos de Minas/MG. A pesquisa foi desenvolvida por meio de um estudo de caso descritivo, com abordagem qualitativa, realizando levantamento e análise dos documentos referentes às diretrizes da avaliação (crenças, valores e princípios) no Regimento Escolar e o Programa de Avaliação do Ensino Médio (ENEM). No estudo dos documentos, como material primordial, foi extraída a análise, organizando-os e interpretando-os segundo os objetivos da investigação, para identificar a influência do ENEM, adotado como forma de seleção unificada nos processos seletivos das universidades públicas federais, na prática avaliativa do ensino médio, especificamente, no caso estudado. Também foram realizadas entrevistas semiestruturadas, ouvindo diretoria, supervisores, pedagogos e professores, que revelaram sua compreensão sobre o ENEM, a avaliação da aprendizagem e os momentos desta avaliação dentro do processo de ensino. Essas categorias ainda foram subdivididas em outras subcategorias na tentativa de construção de um quadro de compreensão que pudesse retratar as relações e as impressões dos educadores com o ENEM, e o impacto deste conjunto nas salas de aula.

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