Internet das Coisas virou sua secretária!

Não é mais uma questão de se e quando. Mas como a Internet das Coisas já está afetando o seu cotidiano. Hoje, as máquinas já estão tomando decisões por você, em seu nome, sem que você saiba. Até quanto isso é bom ou ruim? Estamos indo para uma distopia onde o ser humano será dispensável?
 
 O Facebook seleciona as postagens de seus amigos que você, supostamente, gostaria de ler, em detrimento daquelas que, supostamente, você consideraria dispensáveis. Seu e-mail recebe mensagens de promoções de lojas que, supostamente, você gostaria de aproveitar. Seu smartphone sugere caminhos e lugares que, supostamente, você prefere ir. Sua assinatura de videos sob demanda lista os filmes e séries que supostamente você quer assistir. Tudo isso sem que você tenha (ou se lembre) de ter autorizado. Mas está tudo bem, né? É para o meu bem, para facilitar minha vida? Então, tá valendo!
 
 De fato, isso tudo ajuda muito. É muita informação para a minha cabeça e que bom que tenho um grupo de ‘funcionários virtuais’ que, com uma espécie de procuração, se transformaram em meu porta-voz, assessor de comunicação, secretária que organiza nossa agenda e barra as ligações inconvenientes. O que temos que discutir, de agora em diante, já que tudo isso apenas começou, são as novas implicações: limites e invasão de privacidade, direitos autorais, e, mais do que direito à diversidade de informação, o nosso dever de tê-la, sob o risco de ficarmos em nosso gueto de opiniões discriminatórias.
 
 A Internet das Coisas é uma espécie de internet 3.0. Pensemos que a internet 1.0 era aquela inicial, para o cidadão comum, onde apenas consultávamos o repositório de informações em algum lugar, algum ‘sítio’, que deu origem ao site. Portanto, dependia inteiramente do usuário que, como na busca em uma enciclopédia, só dava aquilo que a gente buscava, de forma altamente passiva. 
 
 Em seguida, a internet 2.0 fez com que os computadores e seus arquivos conversassem com seus usuários e vice-versa, com contribuições mútuas. A gente também virou produtor de conteúdos, integrados à internet, na forma de blogs, desenvolvimento de sites individuais e de pequenas empresas, contribuições a projetos wiki, como Wikipedia e Firefox. Ou seja, a internet ficou colaborativa entre quem produz e quem usa, se amalgamando de tal maneira que, muitas vezes, não dá para saber se ainda existe essa divisão.
 
 Como uma criança, na internet 1.0 ela dependia de nossa vontade para andar. Daí ela cresceu e a criança, na 2.0, virou nossa companheira em quase tudo, principalmente na diversão. Pois bem, agora ela não quer nem dar a mão para atravessar a rua! Na 3.0, na Internet das Coisas, a gente está excluído. Como uma adolescente, cabe a gente apenas adequar nossa agenda e moldar nosso comportamento para aceitar o piercing, o cabelo colorido e buscar na festa de madrugada. 
 
 Claro, é um pouco de exagero, mas a analogia de efeito é para destacar que as máquinas agora conversam entre si, nos excluindo como os adolescentes, pois acreditam que não temos muito mais a contribuir. Afinal, basta olhar nossos comportamentos virtuais passados para que possamos saber como irá se comportar agora e no futuro. Ok, temos que encerrar a analogia infanto-juvenil. Ou partir direto para a maturidade.
 
 Afinal, será preciso amadurecer as relações com a internet. Como citei anteriormente, pegando gancho nas falas do historiador Yuval Noah Harari, chegou o momento de lembrarmos que inteligência não é a mesma coisa que consciência. E a Internet das Coisas é baseada em inteligência artificial (muito legal!), mas nem um pouco na consciência humana (muito doida!). Significa que ela não prevê que o ser humano é tudo, menos totalmente previsível. E que a história da Humanidade só chegou onde chegou por conta dessa característica, que nos coloca, no reino animal, como o mais caótico e, ao mesmo tempo, o mais criativo e adaptável mamífero do planeta.
 
 Isso significa que nem sempre queremos comprar e ver as mesmas coisas, ir pelos mesmos caminhos e nos mesmos lugares, saber das e conversar com as mesmas pessoas. Descobrir é um dos pilares da motivação humana e, se não dá para achar novas terras desconhecidas, um vestidinho diferente e um filme iraniano podem ser uma surpresa pra lá de agradável. Errar o caminho pode nos fazer descobrir lugares especiais, que irão causar novas emoções. E como é bom receber boas notícias e lembranças de gente querida esquecida na nossa — verdadeira — linha do tempo!
 
 E que é nosso dever, talvez mais do que direito, ouvir o outro, entender outros argumentos, sairmos de nosso canto, nossa turma de torcida de futebol em todas as áreas e, no mínimo, escutar as razões de se torcer por outras agremiações ideológicas, de consumo, de modos e valores de vida. Nem que seja para ratificar nossas próprias visões de mundo, mas, pelo menos, o farei não por escassez de pontos de vista, mas por convicção, justamente por conhecê-las.
 
 E olha que é apenas um dos aspectos que a Internet das Coisas nos traz para repensarmos nossas relações. Que deixemos que a Internet, portanto, relacione nossas coisas e que, para nós, reste os relacionamentos humanos, aqueles imprevisíveis, sedutores, criativos, apaixonantes.

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