Sasha e as TVs Educativas: 18 anos depois

Ilustração de Son Salvador — Estado de Minas, Seção de Opinião, p. 9–9, 31 jul. 1998

Há exatos 18 anos, publiquei uma coluna no Estado de Minas com o título Sasha: a esperança das TVs Educativas. Era um artigo comemorando o nascimento da filha da Xuxa, na ocasião um momento mega midiático, com direito há 10 minutos de cobertura no Jornal Nacional e milhões de páginas impressas. Na ocasião, manifestei a esperança de que, quando chegasse na adolescência, ela se tornasse uma rebelde ao enfrentar o clássico momento de negar os pais e sua cultura. Aí, Sasha seria aquela que resgataria a TV educativa de sua marginalidade e seria nossa Joana D’Arc na defesa dos pobres radiodifusores desprezados. Como, ao que parece com a postagem da semana passada, estou em uma fase revisionista, fui dar uma olhada no que eu mesmo previa e ver como está o panorama na semana em que a Sasha completou sua maioridade (desta vez, ainda bem, sem o mesmo estardalhaço).
 
 Bem, como sabemos, Sasha não foi a mártir que esperávamos. Queimou sim, na fogueira das vaidades, mas também menos do que esperavam seus detratores. Não fugiu dos holofotes, mas também não foi ao encontro deles de forma acintosa. Claro, a perda de relevância midiática de seus próprios pais, somada a uma brusca necessidade do mercado de celebridades de estrelas de brilho efêmero (haja vista termos mais Big Brothers que oceanógrafos no país), ajudou na suas passagens discretas pela Contigo e TV Fama. Com isso, ao que parece, sua sanidade foi salva e não se tornou mais um filho de celebridade que não aguentou o peso dos pais. Parabéns a todos os envolvidos.
 
 Com isso, no entanto, necas para a minha revolução das TVs Educativas. Ainda são raros os que olham para essas emissoras com o carinho que sonhava. O movimento de criação da EBC — a utópica TV pública brasileira — até que criou um certo alvoroço, mas estagnou na velha prática de fazer dela mais uma cabeça de rede autocrática, sem levar em conta as centenas de emissoras educativas e suas singularidades locais. Quiseram fazer da TV Brasil uma competidora da TV Globo e superamigas, ao invés de oferecer uma alternativa a esse modelo que sonhávamos que a Sasha poderia combater, com os seus milhões de seguidores de uma internet que prometia (e essa cumpriu!).
 
 Portanto, 18 anos depois continuamos buscando quem nos lidere para uma ampla legislação de comunicação de massa, que as TVEs deixem de ser um reduto de políticos amigos, sem fiscalização e que as que verdadeiramente cumprem sua missão pública o façam com um mínimo de condição de manutenção digna. Houve, não nego, avanços nos critérios de escolha das instituições que teriam as novas outorgas, mas também desconfio do timing de quando isso aconteceu, justamente quando a relevância da TV aberta e o avanço da produção audiovisual na internet se tornam, muitas vezes, antagônicos.
 
 Vamos libertá-la de nossas expectativas. Sabemos que Sasha não estrelou, como desejávamos, programas que dessem continuidade a boa safra daqueles tempos, como a franquia ‘Ra-Tim-Bum’, mas quem pode culpá-la se nem a TV Cultura, que a criou, o fez? Também não foi ao teatro encenar o Sítio do Pica-Pau Amarelo (iria ser uma ótima Emília), mas para quê teatro se os pais têm Cartoon Network e Gloob para enfiar nos filhos? 
 
 
 Fico feliz, no entanto, que a Paula Saldanha (do antigo TV Globinho) continua fazendo jus à sua essência e ainda produz ótimos programas educativos, voltados para a ecologia. Por outro lado, se a Sasha insiste ainda ter cabelos de uma cor não natural, como sua mãe, ainda bem que, como eu previa, não se casou com o filho do Michael Jackson.
 
 
 “SASHA: A ESPERANÇA DAS TVs EDUCATIVAS” — Estado de Minas — Seção de Opinião, p. 9–9, 31 jul. 1998
 
Seja bem-vinda, Sasha! Não vou lhe aborrecer com mais uma das discussões que, certamente, irão fazer em torno de seu surgimento. Afinal, vários intelectuais vão prever as consequencias de ser criada no mundo da fantasia onde sua mãe, salva do mundano universo das revistas masculinas e dos filmes eróticos é, hoje, uma das principais representantes (e prisioneira!). Mas não os leve a mal. Afinal, seu nascimento é um acontecimento filosófico, uma espécie de mito ao contrário, onde é necessário acontecer a vida para se alcançar a idolatria.
 
 O que eu tenho é um sonho! Um sonho onde você, Sasha, fosse uma daquelas adolescentes rebeldes, que querem ir contra tudo o que os pais representam. E liderasse uma revolução em torno de uma televisão educativa, voltada para as necessidades reais de uma criança, que buscasse apoiá-la em seu desenvolvimento como cidadão. Fico até imaginando você na porta do Congresso Nacional, com cartaz na mão, pedido para que, finalmente, alguém olhasse para as televisões educativas com mais carinho.
 
 Afinal, em uma de suas fugas pela Internet, você iria descobrir que, mesmo em 1998, quando se discutia sobre uma ampla legislação de comunicação de massa uma vez mais as TVEs continuam sendo objetos de barganha política, moeda eleitoreira, sem fiscalização e condições de sobrevivência digna. Iríamos todos nós, que acreditamos na potencialidade e na importância das TVEs no Brasil, seguir sua liderança jovem, invadir o Parlamento e obrigar a todos os políticos a devolverem suas concessões e entregarem às verdadeiras instituições preocupadas com o desenvolvimento educacional do país.
 
 Imagino você, Sasha, de cabelos naturais e, portanto, escuros, brandindo em entrevistas coletivas que o domínio das “louras” sobre as crianças brasileiras tinha que acabar! Claro, como uma internauta rebelde, saberia que houve louras que tratavam as crianças como indivíduos, com suas particularidades, e não como um idiota consumidor. Gostou do que viu da Paula Saldanha, nos anos 70 do século passado, embora você não desprezasse a Eliana na virada do século.
 
 De graça, para desespero da Vovó Marlene, trabalharia no novo “Estação Espacial Rá-Tim-Bum”. No teatro, interpretaria a Emília, do Sítio do Pica Pau Amarelo e seu cachê doaria em ambulâncias para instituições que cuidasse de crianças carentes, sem receber comissão por isso.
 
 Claro, Sasha, isso é um devaneio meu! Obviamente, quem está lendo isso agora é sua tutora Marlene Matos, já com o isqueiro na mão. A esperança é seu pai. Quem sabe, daqui a alguns anos, entre uma visita controlada por seguranças e uma mensagem cifrada, ele consiga lhe dizer que há uma pequena horda esperando sua liderança. Isso, claro, se não tiverem casado você com o filho do Michael Jackson! “

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