A corrente do mal

Antônio é negro. Passou boa parte de sua infância vendo sua mãe se matando “lavando roupa pra fora” para por sustento em casa, uma vez que seu pai vivia desempregado por causa da bebida. Antônio não vê com bons olhos os movimentos feministas. Acha que muitas mulheres reclamam por nada, que muitas deveriam é agradecer ao que têm. Antônio é casado, embora ganhe pouco, não deixa sua mulher trabalhar. Antônio quer que a esposa cuide da casa e do casal de filhos. Ele não vota em mulher, não sobe em ônibus dirigido por uma motorista, não gosta de ser atendido por médicas. Antônio crê que Deus criou as mulheres para servirem os homens e que todo o pecado que há do mundo, é por culpa delas. Para ele, lugar de mulher ainda é na cozinha.

Ana Lúcia participa de todas as manifestações feministas, compartilha em redes sociais todas as indignações decorrentes da opressão masculina. Ana já levou muita porrada de polícia e de machistas em manifestações, mas mesmo assim, ela sonha com o dia em que as mulheres serão respeitadas e ocuparão, sem nenhum preconceito ou ódio, o lugar que lhes é de direito. Ana Lúcia criou um blog onde ela posta belos textos e poemas que defendem e incitam a igualdade de gêneros. No trabalho de Ana existe uma moça chamada Carla, assumidamente lésbica. Ana Lúcia acha Carla muito estranha, com seus piercings, seu cabelo pintado e sua tatuagem no braço esquerdo. Ana evita ficar sozinha com Carla.

Carla detesta quando precisa utilizar os serviços de algum órgão público. Para ela, todos os funcionários de tais órgãos, são por demais indolentes e só mamam nas tetas dos seus impostos, principalmente os professores, que só sabem reclamar e não dão uma educação adequada aos jovens. Para ela, esse pessoal adora uma “grevinha” só pra ficar em casa, ganhando sem trabalhar ou para ir para as ruas, fazer baderna de atrapalhar o trânsito.

Eduardo é professor. Acorda cedo todos os dias, pega as suas “trocentas” cadernetas e sai, pra voltar só depois das 22. Eduardo corrige provas e prepara aulas durante o fim de semana e feriados. O professor, pega ônibus lotado quase todos os dias e nunca consegue lugar para se sentar, pois as vagas para deficientes tomam boa parte do ônibus. Eduardo acha que eles não deveriam sair de casa e crê que boa parte “dessa gente” tem só frescura. Acha que muitos até inventam certas deficiências só para se aposentarem por invalidez. Eduardo tem uma teoria preocupante sobre isso, pois acredita que a previdência irá estourar e irá prejudicar a sua aposentadoria.

Mariano perdeu a visão aos oito anos de idade, após cair de uma laje quando empinava uma pipa. Apesar de tudo, Mariano não se abateu, estudou muito e hoje trabalha no setor de Recursos Humanos em uma renomada empresa multinacional. Mariano tem a triste frescura de usar as mãos para ler. Também tem os sentidos aguçados, principalmente o olfato. É pelo olfato que ele conheceu Karina, uma prostituta que pega o mesmo ônibus que ele. Quando ele retorna do trabalho, Karina está indo para o seu. Mariano detesta o perfume que ela usa e não se conforma com a existência de pessoas desse tipo. Seu pastor diz que esse povo vai queimar no inferno.

Karina tem 23 anos e desde os 17 se prostitui. O pai de Karina, ao chegar mais cedo do trabalho, pegou ela transando com seu primo na lavanderia. Karina foi espancada e ficou três dias internada, depois foi expulsa de casa. Para sobreviver, ela “caiu na vida” e assim se mantém até hoje. Karina gosta muito de seu corpo e ela malha todos os dias, até porque seu trabalho pede. Karina tem ojeriza por gente gorda, acha que são descuidados, porcos e incompetentes. Karina não atende clientes acima do peso, a não ser que sejam muito ricos, como Orlando, um rico empresário que pagou quase R$ 3.000,00 por um programa com Karina.

Orlando é um self-made man. Com 16 anos, saía pelas ruas vendendo os salgados que sua mãe fazia. Aos vinte, já tinha uma pequena padaria que atendia o bairro. Hoje, aos 37, mantém uma rede de padarias por todo o estado e estuda abrir uma nova filial em Santa Catarina. Orlando acha que ninguém merece o peixe, e sim a vara. Por isso ele se tornou um homem arrogante e ultra conservador (embora adore prostitutas). Orlando sonha em se tornar deputado e já pensa em dar os primeiros passos na direção de Brasília. Orlando só não gosta de pobres, acha que são vagabundos, malemolentes, dados à bandidagem. Orlando acha que só é pobre quem quer. Orlando não compra balas ou salgados dos meninos do semáforo, ele tem nojo.

Silvana ficou viúva com 4 filhos pra criar. Seu marido saiu pra comprar cigarros e foi confundido pela polícia. Nunca mais voltou. Silvana faz balas de coco e salgados para “seus dois mais velhos” venderem nos semáforos da rua do centro da cidade. Silvana passa a noite fazendo seus quitutes e durante o dia vai passar roupas e duas casas e fazer limpeza em outras duas. Silvana estudou pouco, mas acredita que pode dar um futuro melhor para seus filhos. Silvana pede para seus filhos não venderem fiado para os velhinhos da praça. Ela acha que eles são malandros, pois ficam ali sentados o dia todo só observando o movimento. Na verdade, Silvana não gosta de velhos, pois ela tem medo de envelhecer e se tonar um fardo para a sociedade. Silvana pede a Deus para que ele a leve antes.

Alésio está aposentado. Trabalhou a vida inteira e hoje goza do direito adquirido após tantas lutas. Alésio era bancário, atendia todo o tipo de gente no caixa do único banco da cidade, quando a cidade era pequena. Alésio viu a cidade crescer, e por esse motivo, chegou um determinado momento da sua vida, que ele já não conhecia mais os bons moradores da sua cidade nata. Grandes indústrias vieram para a cidade, trazendo com elas, pessoas novas, pessoas diferentes. Alésio nunca gostou de gente estranha, sempre achou que esses só trazem bagunças, bandidagens e doenças para o seu canto. Alésio não gosta estranhos, principalmente dos negros que, antigamente, nunca abriam contas no banco. Para ele, o governo deveria proibir “pessoas de cor” , como Antônio, de abrirem contas, pois assim, acabaria o tráfico de drogas. Seu Alésio passa seus últimos dias num banco de praça.

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