Ao meu irmão caçula

Hoje é aniversário do Cleiton e relembrei um poucos dos 24 anos desse menino bom

Tinha 12 anos, quando a mãe engravidou de você. Nessa época, ela trabalhava como empregada doméstica numa nobre região da capital. Nós morávamos em um barraco onde eu morria de medo da chuva, no Munhoz Junior, em Oz. Isso porque durante um temporal, o vento destelhou parte da casa e fez a gente sair correndo numa noite assustadora. Era só os pingos baterem nas telhas de lata anunciando qualquer chuva que eu já corria. Ficávamos só eu e o Cris em casa, enquanto nossos pais trabalhavam fora.

Foi uma grande surpresa sua vinda. Bota grande nisso! A mãe descobriu um mioma, que cresceu dividindo espaço contigo na barriga dela, a deixando enorme, inchada pra caramba numa gravidez de risco que ela não hesitou em levar até o fim. Chegaram ainda a diagnosticar precocemente que você tinha hidrocefalia. Erro de diagnóstico grave. Isso tudo não impediu a nossa geniosa mãe trabalhar até quase te parir, pegando não sei quantos ônibus por dia. Se arrastando…

Lembro que no sábado, do dia 13 de novembro de 1993, eu estava na igreja, acho que cuidando da horta, quando cheguei em casa e soube que ela tinha ido para o hospital dar à luz. Comecei a rezar e fazer umas promessas, que nem lembro se cumpri, para que tudo desse certo no parto e, sobretudo, ela sobrevivesse. Eu me cagava todo de acontecer algo a ela. Quando fui ao orelhão ligar para o hospital e soube que você já havia nascido, e tudo estava bem, chorei feliz e aliviado. Daquelas emoções que socam o peito quando a gente relembra.

Só te conheci dois dias depois, na sua saída, com uma marca estranha na cabeça, como a de um arquinho de cabelo. Foi do parto, que esses dias ela me contou ter sido o mais trabalhoso dos seus três partos naturais. Você era um bebê fofo. Gordinho e grande. Bonito e cheio de saúde.

Eu trocava suas fraldas DE PANO e te assustava muito com personagens imaginários que eu inventava. Lembra do bebê maldito que eu fazia pra tu me obedecer? Só apagava a luz e você até chorava com medo, coitado (rs). Deve ter medo do escuro até hoje, fala aí? Desculpa rs.

Mas também te botava pra dormir cantando minhas canções autorais, como uma que falava “E a vó dela, chorou, chorou, chorou…” Não lembro de uma criança mais paparicada. E, apesar dos cuidados redobrados, você vivia aprontando e caindo. Um dia, por um rápido descuido, te encontramos no meio da escada de casa, quando nem engatinhava.

Logo após ele nascer em Osasco / Anos depois quando moramos em Pirituba depois de chegar do Ceará / Cleber, Cris e Cleiton — os CCCs

E assim tu foi crescendo rodeado de carinho e artes. Como era legal acompanhar isso do irmão caçula. Mas não sei que salto se deu no tempo e, de repente, tu já era um adolescente teimoso. Ah, esses escorpianos que não aceitam muito a opinião alheia e fazem o que dá na telha. Em uma viagem ao Ceará, voltou despirocado (rs). Virou um namorador. Pouco tempo depois, assumiu responsabilidades. Se tornou pai e com isso me deu o melhor presente de aniversário de todos os tempos, aquela sua xerox linda.

Pulou fases importantes. Arriscou-se. Cada um de nós foi para um lado e, hoje em dia, nos vemos poucas e rápidas vezes até. Esse distanciamento é estranho e, talvez, por ele, não sei o que acontece, mas de vez em quando sonho contigo, e o bizarro é que você sempre aparece criança nesses sonhos, com uns 4 ou 5 anos. Talvez seja pelo fato de que ainda te vejo um menino. Um menino grande do coração bom. Um menino forte, tímido, teimoso, valente e destemido. Um menino trabalhador, até demais. E também um menino que dá um trabalho ainda…rs

Não adianta; isso de me preocupar contigo nunca mudou. Nem vai mudar. Estou precisando puxar sua orelha, aliás. Não quero ver você caindo como fazia com tanta frequência ainda bebê. Mas, pô, para de ser tão levado. Não quero te ver mal. Me sinto até em falta como irmão. Outro dia você me mandou um áudio em um dia importante da minha vida que me faz chorar bastante. Foi tão simples, bem como você é, mas de um companheirismo marcante. Algo de irmão. E irmãos são assim; são esses apoios naturais em momentos alegres ou difíceis.

São ligações intrínsecas desde o caminho que percorreram para chegar ao mundo. Como frutos do mesmo pé, com mesma raiz. No nosso caso Arruda. É… brisei agora. No fim, só queria demonstrar um pouco da importância da tua história e da tua existência para mim nesses 24 anos. Desejo tanto para você hoje, meu irmão. Acima de tudo, um ano novo de saúde, de muita paz, de evolução pessoal, espiritual, mental. Prosperidade, porque sei que gosta de dinheiro (rs). E quem não gosta? Que você tenha força, supere todas as adversidades e seja muito feliz. Te amo!