Bolsonaro — Deve-se falar ou não?

Depois do que assistimos nos últimos debates e sabatinas, desde o programa Roda Viva na TV Cultura, os debates na Band, Rede TV e o enfrentamento com os Jornalistas da Globo no JN na última semana, temos uma gama de conteúdos o suficiente para arriscar palpites de como se deve abordar a temática daquele que não deve ser nomeado. Ou melhor, deve sim. Estamos falando de Jair Messias Bolsonaro, candidato pelo PSL a presidência.

Bolsonaro na entrevista do JN

A participação do principal nome das eleições de 2018 - em segundo lugar nas pesquisas eleitorais (Oscilando entre 19 a 22% nas últimas pesquisas do Ibope, DataFolha e Poder360) e dono da maior taxa de rejeição (37% no Ibope) - sempre causa alvoroço e muito debate nas redes sociais e no pais como um todo. Mostrando que a TV ainda pode influenciar o debate na internet, sendo comentado entre adeptos e opositores, o candidato capitão da extrema-direita sempre fica em primeiro lugar nos trending topics mundiais do Twitter em todas as suas aparições.

Esquivando-se e contra atacando, o capitão-candidato sabe mobilizar sua retórica parar agradar sua fanbase com um discurso inflamado que torna cada vez mais difícil acompanhar seu raciocínio e suas relações lógicas, que no entanto, apesar da falta de conteúdo e objetividade, estetizam um candidato seguro de si que não tem medo de confrontar e esbravejar contra a figura da mídia tradicional. Apesar de todas as contradições como um político de carreira que vive do erário público a mais de 20 anos e que produziu uma prole que se mantém da mesma fonte, Bolsonaro é visto pela maioria dos seus eleitores como oposição a “tudo isso que está ai”.

A sua última fala em relação ao livro “Aparelho Sexual & Cia”, traduzido e lançado pela editora Companhia das Letras no Brasil, gerou, mais uma vez, polêmica em torno do assunto, chegando a levar a manifestação do MEC, que afirma que o livro nunca foi distribuído como material didático escolar. O livro consta apenas na biblioteca do MinC como mais um material de pesquisadores do assunto, mas jamais chegou as escolas, e muito menos tem uma abordagem “doutrinária” em relação a orientação sexual de qualquer criança. Mais uma vez, é apenas uma questão de estetizar um discurso firme contra as “elites”.

A questão é que tudo isso não tem nada a ver com verdade ou mentira. É isso que o público dele gosta. Estamos falando sobre ódio e intolerância. Não adianta explicar que tal fato histórico não ocorreu, que não foi suicídio, que tinha corrupção na ditadura, que o livro sobre educação sexual não foi lançado como material didático nas escolas, etc. É ficar patinando no mesmo lugar e dar mais tempo pra ele soltar mais um discurso inflamado pro povo aplaudir. Não podemos dar mais tempo pra esse tipo de pensamento. Sim, muitas das suas afirmações são mentiras, fake news, mas isso não importa, o que importa pra o seu eleitorado e ele é ter um campo possível para desclassificar o “outro”, seja quem ele for.

Temas como ditadura, racismo, misogenia e minorias gastam grande parte do tempo das entrevistas e demonstraram um Bolsonaro seguro em seu próprio território. Entretanto, quando questionado sobre mortalidade infantil e seu baixo desempenho parlamentar (Roda Viva), economia (RedeTV), reforma trabalhista e igualdade salarial entre homens e mulheres (JN), temos um candidato acoado, pálido, gaguejante, incapaz de raciocínio e respostas técnicas sobre os problemas que assolam o cotidiano de 12,9 milhões de desempregados, sem contar os 6,6 milhões de subocupados (pessoas que trabalham menos de 40h semanais). Meu argumento principal é que o debate deve mostrar que ele não tem nenhuma proposta lúcida pra temas como saúde, educação e segurança. Temos que ir pra o nível técnico e em temas que tocam o cotidiano do eleitorado médio.

Se ficarmos na polêmica com temas como ditadura, drogas e minorias, vamos dar o prato cheio pra o público dele. É isso que eles querem: ver o mesmo showman que o Trump encarnou nos EUA. Temas como sexualidade, legalização das drogas ou aborto são importantes, mas infelizmente, eles são mais importantes para nós, que somos uma elite intelectual que tem tempo pra pensar sobre isso em vez de correr diariamente atrás do pão pra não morrer de fome, pra nós que não corremos o risco de perder o imóvel recém financiado pelos bancos, pra nós que não sabemos o que é ter um emprestimo negado por ter seu nome sujo no SPC, pra nós que não nos preocupamos diariamente em saber se nossos filhos vão voltar pra casa ou ter a vida ceifada nas favelas pela violência do confronto policial com o tráfico, sem acesso a saúde e educação de qualidade e nenhuma perspectiva de mobilidade social ou qualquer projeto para o futuro.

As poucas perguntas objetivas que foram feitas nos últimos debates fizeram ele gaguejar, soltar coisas completamente sem nexo, ficar vermelho, em pânico, não saber pra onde olhar e o que falar. Renata Vasconcellos e Marina Silva já apontaram para uma das principais fragilidades do candidato: o eleitorado feminino e suas pautas. Quando o assunto é o salário das mulheres, o cuidado com as gestantes ou mesmo o futuro de suas crianças, Bolsonaro tropeça e cai de cara no chão em cheio. É essa brecha que tem que ser explorada. Mostrar que o cara é um charlatão que não entende de bosta nenhuma e só tá galopando nas costas de quem tem a cabeça fraca. Mais do que isso, mostrar que essas pessoas estão sendo feitas de palhaças vão ser igualmente prejudicadas por mais 4 anos de má administração pública.

O fenômeno Bolsonaro pode ser explicado também por uma via mais histórica e cultural, pelo fato de que somos mal resolvidos com nossa herança histórica. Vou enumerar algumas das questões que perpetuam e reverberam o discurso intolerante e autoritário do candidato no imaginário da população:

1) o escravagismo e a mal digerida abolição, que trocou a liberdade dos escravos para evitar uma possível reforma agrária, abandonando sem rumo milhares de homens e mulheres não-integrados a sociedade de classes, como já foi apontado em A integração do negro na sociedade de classes, de Florestan Fernandes, onde lhes foi negado o direito a moradia, a sua própria língua, a terra ou qualquer benesse do estado, ao contrário de outros modelos de abolição, como o Estadunidense, que posteriormente seria ainda por cima suavizada pelo mito da harmonia racial entre brancos e negros por meio da miscigenação em Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre.

2) Os contantes golpes de estado, incluindo nossa Proclamação da República, feita com o intuito apenas de privilegiar uma classe dominante “liberal” que queria pagar menos impostos ao estado, o Golpe de 1937 de Getúlio Vargas e suas medidas populistas- também como conhecido como Estado Novo - que retirou o papel protagonista do proletariado no que concerne as conquistas de direitos pela CLT, o Golpe de 1964, que silenciou os meios de comunicação e qualquer forma de oposição ou debate intelectual.

3) A anistia aos torturadores e corruptos da era militar em 1979, não produzindo uma reflexão da sociedade sobre nossos erros históricos e deixando que militares reformados e entusiastas ludibriados permanecessem incitando e se vangloriando de atrocidades em público. Todas essas medidas constantemente excluiriam a participação da sociedade como um todo do processos decisórios desde o início do século XX, impedindo o cultivo de uma cultura cívica e democrática no nosso país.

Tá na hora da gente botar o pé no chão e se preocupar com a continuidade da nossa democracia. Nossas instituições nunca estiveram tão débeis desde que voltamos a ter o direito ao voto. O Brasil é um país conhecido por não respeitar esses valores, conhecido por golpes e regimes ditatoriais que privilegiam o lucro de grandes empresas de forma ilícita. Dá pra contar nos dedos quantos presidentes eleitos de forma legitima terminaram seus mandatos. É tudo isso que está em jogo nessas eleições. Então vamos acertar na hora de atacar em vez de dar mais palanque ao fascismo.

    Cleverson Willian Honório

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