Não é porque

Não é porque tenho um nome incomum. Não é porque gosto do meu nome. Não é porque não moro com meus pais. Não é porque sou homem. Não é porque sou jornalista. Não é porque ouço Rita Lee. Não é porque sou tatuado. Não é porque sou chato. Não é porque amo gatos. Não é porque tomo café. Não é porque tenho dificuldades com a gramática. Não é porque tuito. Não é porque não vejo televisão. Não é porque te admiro. Não é porque sou distraído. Não é porque já sofri por amor. Não é porque gosto de novelas. Não é porque morei na praia. Não é porque tive bronquite. Não é porque eu minto. Não é porque sou feliz. Não é porque sou impaciente. Não é porque tenho inveja. Não é porque amo meus livros. Não é porque vou adotar uma filha. Não é porque bebo cerveja. Não é porque sou gordo. Não é porque faz frio. Não é porque amo pizza. Não é porque amo séries. Não é porque não tenho dinheiro. Não é porque sou contente. Não é porque sou gay. Não é porque me chamo Cléverton. Não é porque meu sobrenome é Santana. Não é porque sou libriano. Não é porque te devo. Não é porque quis ser um rockstar. Não é porque sou bipolar. Não é porque nasci em Mauá. Não é porque eu nasci no dia trinta de setembro de mil novecentos e noventa. Não é porque sou indeciso.

Não é porque bebo cerveja. Não é porque durmo tarde. Não é porque tenho uma empresa. Não é porque tenho piercing. Não é porque tenho depressão. Não é porque assinei a Capricho. Não é porque já quis ser VJ. Não é porque tenho medo da violência. Não é porque tenho sonhos. Não é porque fumo cigarros. Não é porque amo a noite. Não é porque sou péssimo em matemática. Não é porque penso em publicar um livro. Não é porque me atraso. Não é porque amo São Paulo. Não é porque amo entrevistas. Não é porque só tenho um tênis. Não é porque sou desapegado. Não é porque amo teatro. Não é porque sou tranquilo. Não é porque amo botecos. Não é porque que temo. Não é porque já fiz minha mãe sofrer. Não é porque te amo. Não é porque tive o cu comido. Não é porque sou lerdo. Não é porque amo cartas. Não é porque já surtei e fiquei internado. Não é porque amo responder e-mails. Não é porque tive criptorquidia. Não é porque cuido dos meus amigos. Não é porque gosto de cinema. Não é porque sigo poucos nas redes. Não é porque tenho vinte e seis anos. Não é porque já quis ser professor. Não é porque ontem fiz talharim. Não é porque fui emo. Não é porque odeio vodca. Não é porque odeio acordar cedo. Não é porque amo viajar. Não é porque fui católico. Não é porque tomo remédio controlado. Não é porque já fumei maconha. Não é porque já usei aparelhos ortodônticos. Não é porque quero me tatuar mais. Não é porque hoje é segunda. Não é porque essa semana tem feriado. Não é porque leio Fernanda Young. Não é porque você é meu menino. Não é porque sou desastrado. Não é porque ouço Legião Urbana. Não é porque escreveria mil e uma coisas. Não é porque sou eu.

(Postagem inspirada no poema “Não é porque sou punk”,
publicado no livro A mão esquerda de Vênus, de Fernanda Young)

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