Mudando uma vida de cada vez — parte I
Tem amigo que muda a sua vida. Esse amigo foi daqueles que entram na sua vida para transformar.
Esse ano tenho que pensar sobre o valor de transformar uma vida de cada vez. Exemplos não me faltam.

Este é Paulo Alves, cabeleireiro no pacato bairro de Vila Piedade, Jaboatão dos Guararapes. É daqueles lugares que resiste à inflação e oferece o que seus clientes precisam e não se importa de mudar de nome e lançar moda. Ou seja, um salão que usa o famoso princípio KIS (“keep it simple”, ou “mantenha a coisa simples”).
Pois bem. 1998. Eu tinha 12 anos, pais recém separados, o hábito de ficar o dia inteiro peruando em video game e viajar de graça de ônibus sem destino certo. De coisa boa, um espírito hacker (pobres radiolas de meu pai, seu Manoel Bezerra!). Um dia meu pai me levou para cortar o cabelo nesse salão e ele comentou do meu gosto por hackear as coisas, principalmente equipamentos de som, que meu pai gostava. Paulo então me convidou para ir à igreja dele. Paulo era da banda da igreja e lidava com som também de certa forma. Aceitei o convite e passei a frequentar a igreja naquela época.
Pouco tempo depois, minha família se mudou para Moreno, lugar onde eu estabeleci as mais duradouras amizades da minha vida. Ainda assim, continuei frequentando a casa de Paulo e sua esposa, Lindinalva, e sua igreja. Foi esta amizade, que me levou a tomar um pouco mais de jeito na vida, conhecer um pouco a cultura e da hospitalidade do ser humano simples do campo, tomar cuidado com as coisas que “me são lícitas, mas não convém” e começar no mundo musical por meio de um instrumento que ele mesmo me emprestou para poder praticar em casa, um violão. (Violão este que mais tarde com a ajuda do saudoso Antônio Dalvino e Antonio Oliveira, seu pai, me fariam o músico que sou hoje.)
Hoje eu tenho várias e várias discordâncias com os costumes e princípios religiosos que ele, o próprio Paulo, me ensinou. Mas o que isso importa? Se eu posso discordar é porque eu pude discutir e aprender com ele. Talvez eu nem estivesse vivo para discordar se eu não tivesse conhecido esse cara.
E então penso que tudo que me motiva é pelo exemplo de pessoas como Paulo, que se preocuparam em tirar tempo não para fazer uma “revolução no sistema”, mas para fazer uma microrrevolução com a profundidade e o respeito que ela exige. Para mudar uma vida por vez.
Obrigado, irmão.
