1996, American PHOTO cover

E a fotografia? Está mesmo morrendo?

Esta é uma piada que ouvimos há pelo menos duas décadas: a pretensa morte da Fotografia (com “F” maiúsculo) como consequência de sua automatização, de sua massificação, de sua popularização, por culpa dos celulares, das mídias sociais, do Instagram, do bispo, do PT.
Mentira.
A fotografia nunca esteve tão saudável.
A mudança de mecânica para eletrônica para digital não alterou de nenhuma forma o fato de que fazer fotografias, construí-las, pensá-las, imaginá-las, continua sendo prazeroso, necessário, lúdico.
Por outro lado, tecnicamente falando ficou muito mais fácil produzir “boas” fotografias (está bem, fotografias corretamente expostas…), automaticamente ou manualmente, limpas de ruídos, em ISOs inimagináveis há meros cinco anos, e através de literalmente qualquer aparelhinho que tenha uma lente e um processador. Basta apertar o botão (ah, George Eastman, já em 1888, que profeta!) e viralizar na Web.
We do the rest.
Então como se explicam os infindáveis artigos que até hoje eventualmente aparecem decretando a morte definitiva da fotografia (hããã?)?
Em primeira análise, medo e inércia.
Fotógrafos de áreas como a publicidade, editorial e fotojornalismo, estabelecidos e com rotinas já comprovadas, não quiseram entender que a mudança era definitiva.
Procastinaram. Empurraram com a barriga. Acharam que era uma “fase”.
Conheço alguns que levaram uma década para por a mão no mouse, outros que ainda hoje insistem que “filme é que era bom”, e aqueles que, depois de alguns anos ainda afirmavam que tudo iria voltar a ser o que era.
Não, o tempo não volta, colegas.
A indústria, de certa forma, foi também bastante lenta nas reações, e a Kodak, grandalhona, pesadona, se viu bem enrascada por insistir no filme, e isso de certa forma deu apoio aos fotógrafos que não queriam largar do osso. Deu no que deu, a derrocada de Rochester.
O fotojornalismo se ressentiu com o surgimento do fotógrafo-cidadão, presente por acaso nos acontecimentos, e aceito e publicado pelas empresas jornalísticas, apesar da qualidade discutível das imagens assim produzidas.
E depois, o ego.
O fotógrafo-alquimista tinha um certo charme, afinal transmutava papel branco em imagem, dentro de uma gruta escura, iluminada apenas por uma tênue luz âmbar… Vocês entenderam. Magia. A graça da dificuldade do processo nos tornava seres superiores, aqueles que dominavam a física, a química, a mecânica e as gambiarras. Nada a ver com dar dedadas em celulares de plástico colorido, certo?
Errado. A fotografia está vivíssima, nunca se fotografou tanto, nunca se expôs tanta fotografia, nunca se produziu tantos fotolivros, nunca se compartilhou tanta imagem. A consequência é que a fotografia passa a ser a protagonista, evoluiu de dialeto restrito para linguagem universal.
Quem morreu foram os que não souberam se adaptar, Mr.Darwin.
Como sempre foi nesse mundo.