Homem não chora.

Começa cedo, bem cedo.
“Homem não chora”.
Em seguida, assim que a brincadeira na casa das primas num domingo chuvoso passa a ser de casinha, a continuidade: “Homem não brinca de boneca”. Não dança ballet. Não faz showzinho. Não isso, não aquilo.

Logo chega a fase do sim. “Homem mesmo namora muito”. Tem que gostar de futebol, de dirigir, de beber cerveja, de aprender sexo na zona, de briga de turma, de beijar muitas meninas. Mesmo que elas não queiram.
O que aliás nos leva a acreditar nos mitos: “Mulher quando diz não, está dizendo sim. É charminho.” Ou o melhor, “Mulher gosta de pegada forte, de se sentir dominada.” Quase um convite ao estupro, ainda na adolescência.
Na verdade, os homens da minha geração nunca pararam para penar que na grande maioria das vezes quando uma mulher diz não, é não mesmo, e que a chance de agradar é muito maior quando se é carinhoso, cuidadoso, e não o tipo neanderthal com a clava nas mãos e a mulher arrastada pelos cabelos.

Os filmes das décadas de 50/60 também não ajudavam; me lembro de “7 noivas para 7 irmãos”, onde as meninas eram raptadas (e gostavam); todos os filmes do 007 “meu nome é Bond”, com as mulheres sempre se arrastando atrás do gostosão, e assim vai. Lavagem cerebral.
Por outro lado, estudar em “escolas de padre” (Colégio Santo Inácio no Rio e o São Luís em São Paulo) não foi nada saudável; colégios só de meninos, com professores agressivos, castigos imorais, clausuras luxuosas, e… só meninos. Até que chegaram (por força de lei) as meninas, uma revolução para nós, um horror para aquelas pioneiras com as quais não sabíamos lidar. E como tínhamos sido ensinados desde o berço que a melhor forma de defesa era o ataque…

Hoje sinto que desconstruir o ogro entranhado em meu cérebro é uma tarefa diária, uma luta constante mas necessária. Tive sorte, com pais artistas, primas, apenas filhas, mulheres fortes. Aprendi um pouco por osmose, um pouco por esforço, mas o caminho é longo. O que mais me encanta é ver as minhas meninas brigando por tudo que elas acreditam, com coragem, com ideologia, mesmo (ou principalmente) sendo tudo oposto ao que eu fui.
Sou.
Ou que tento não ser.