Momentos de Burrice

Estava matutando, enquanto olhava para os fios elétricos que se misturavam as folhas e aos galhos de umas plantas de minha casa, sobre Sun Tzu (ou Sunzi) e as suas estratégias que diziam para conhecer a si mesmo e o inimigo. Após isso fui levado a pensar em outro estrategista do extremo oriente, o Myamoto Musashi, que também falava algo parecido, como conhecer o ritmo do inimigo e se antecipar a ele, dominá-lo; para tanto é preciso, antes, dominar a si mesmo — manter o espírito parado enquanto o corpo se move. Musashi também falava de um modo de olhar, ou melhor, de enxergar, que deveria ser aplicado em muitos — senão em todos — momentos da vida cotidiana; dizia o mesmo quanto a postura de combate. Tudo deveria ser natural, ser normal, como o que se faz habitualmente no dia-a-dia. Lao-Tsé (ou Laozi) dizia que o homem realmente conectado à realidade do mundo vai sempre estar ciente dos fenômenos que ocorrem ou irão acorrer, das variações do mundo concreto, e até do mundo interno das pessoas, pois vive sua vida em sintonia com o fluxo do universo.
É como se o olhar do sábio estivesse ligado em todas as circunstâncias. O sábio sabe com perfeição, ou algo próximo disto, o modo como se sucede os eventos, pois é um só com a força que está em tudo. Você aí, que assistiu ao menos a trilogia original de Star Wars, vai sentir alguma facilidade de entender a frase anterior.
Destes pensamentos, logo voltou em minha mente uma antiga pergunta: é possível que os sábios, ou os grandes intelectuais de nossa história, fossem elevados, perfeitos ou próximos de serem perfeitos, em todos os momentos de sua existência? Esses seres iluminados foram jovens, isso é certo, e todos os jovens cometem burrices. E eu suponho que ninguém pode começar a procurar sabedoria sem antes ter cometido uma burrice muito grave. Portanto, é apropriado estreitar mais a questão: será que esses seres iluminados nunca cometeram nenhuma burrice, mesmo após terem alcançado o que consideramos sabedoria? Uso o termo “sabedoria”, aqui, de um modo bem amplo e vago — tem gente que diz que nem todo sábio é intelectual e que nem todo intelectual é sábio, e eu considero que sabedoria vai muito além da quantidade de informação que alguém tem no espaçoso — e bota espaçoso nisso! — arquivo chamado mente.
Penso que Sócrates, Platão, Aristóteles, Confúcio, os estoicos, os epicuristas e outras muitas pessoas que nós podemos chamar, muito merecidamente, de sábios, tiveram momentos de burrice, ou momentos bobos, durante toda a vida e até o fim de seus dias. Com os mestres da estratégia é possível dizer o mesmo. Quem acusa os genitores do pensamento ocidental não vai ter vergonha de acusar Sun Tzu e Musashi, não é mesmo? Estes últimos eram excelentes em se tratando de artes belicosas, porém, quem sabe se eles não eram péssimos em assar um peixe até o ponto certo na fogueira? Não duvido muito que todos esses já tenham dado aquela famigerada tropicada na pedra, ou pior, nas próprias sandálias. “Só sei que nada sei” é aquela frase famosa do Sócrates, e acho que ela pode ser interpretada como “só sei que durante a minha breve existência nesse corpo de carne sempre serei imperfeito e nunca saberei plenamente de tudo, pois o universo é gigantesco e eu sou quase nada na perspectiva dele, menos que nanico, tão baixo quanto uma barata”. Se você sabe de filosofia e acha que minha interpretação é equivocada ou absurda, provavelmente você está certo. Agora eu assumo minha imperfeição e lhe digo “foda-se”, eu não quero (agora) ser assim tão correto.
O mesmo Sócrates, em seu diálogo “Fédon”, diz que só após a morte é possível desfrutar sem inconvenientes do verdadeiro saber; durante nossa existência material, este processo teria sempre o entrave do corpo — e no meio disso entra toda a teoria do mundo das ideias e a tese de como deve ser o viver do filósofo.
A imagem — repito: IMAGEM — desses sábios e/ou ditos sábios estão em geral envoltas numa aura de infalibilidade que meu ceticismo não me permite aceitar. Minha conclusão é que todo mundo, sem exceção, por mais perfeito, erudito e sábio que seja ou pareça, deve ter momentos de idiotice em suas andanças. Momentos em que a sapiência se vai inteira pelo ralo, momentos em que… enfim, momentos bestas, como aquele em que você deixa a pasta de dente cair em sua nova calça ou em sua nova camisa. Momentos talvez até constrangedores, como aquele que você dá um “oi” para uma pessoa, pensando que ela tinha falando “oi” para você antes, mas, na verdade, ela estava falando com outro alguém, e você se sente como um ninguém para ela — se a pessoa lhe tiver relevância. É por essas e outras que eu repito para mim, e não vejo problema em repetir quantas vezes for preciso para qualquer pessoa, que ninguém devia idolatrar nenhum ser na faça desta terra. E digo “idolatria” no sentido mais visceral da palavra. Ninguém devia achar um ser-humano perfeito. E pode ser que perfeito nada seja.
Vai que… como é que eu posso dizer… ah, sim! Vai que a perfeição esteja exatamente no imperfeito?
