Parábola

Era uma vez um príncipe de um reino muito distante. Realmente distante. Chamaremos-no de Felício. Nosso protagonista, no entanto, não é o Príncipe Felício, e sim o Rei de Colinas.

O Rei havia conhecido o Príncipe em outras épocas. Épocas mais felizes, com o alívio de duas doenças sendo erradicadas; a do próprio Rei e a do grande amor de Felício. O Príncipe havia sido muito prestativo e gentil com o Rei, ganhando sua afeição. Esta não é uma história com final feliz. Felício perdeu seu grande amor. O Rei, com sua alta sensibilidade, aproximou-se do jovem príncipe. Era como se ele pudesse sentir sua dor. Queria que ele dividisse sua dor. Num sonho, o Rei prometia para o amor perdido de Felício que o acolheria e protegeria de todos os males. Mesmo sabendo tratar-se de apenas um sonho, o Rei despertou disposto a cumprir esta promessa e decidido que, a partir daquele dia, amaria o Príncipe.

O Rei estava envolvido em um ambicioso projeto artístico, que acabaria cancelado. Ele fez questão da presença de Felício e se desentendeu com um dos integrantes de sua corte apenas para que o Príncipe pudesse participar. Mas o Príncipe, subitamente, passou a ignorar o Rei de Colinas. Estaria Felício desconfiado de suas segundas intenções? De fato, o Rei de Colinas amava o Príncipe. Um amor puro, genuíno, como o de uma criança apaixonada pela primeira vez. Talvez o Príncipe não estivesse em condições de compreender este amor; o Rei, angustiado pelas perdas recentes, não soube como lidar com a indiferença do Príncipe e, impulsivamente, ofendeu-o.

O tempo passou e o Rei necessitou de novos cuidados médicos. Acreditando ter cometido um grande erro, retratou-se com o Príncipe. Acreditou que havia sido perdoado. Ao saber, por meio de seus informantes, que o Príncipe necessitava de ajuda, não hesitou em criar um plano para salvá-lo. Ingênuo, o Rei pensou que aquele momento simbolizaria o recomeço de algo que se tornaria uma grande amizade. Ledo engano. O Príncipe isolou o Rei e o baniu de seu reino. O Rei estava deprimido e não tomava seus medicamentos corretamente. Cometeu um erro contra si mesmo. A Rainha-mãe e o irmão do Rei interviram para salvá-lo. Acreditando que o Príncipe teria sua parcela da culpa, tentaram defender o Rei. No dia do aniversário do Rei, um de seus melhores amigos estava sendo velado. O Príncipe estava lá. Ele também conhecia o amigo em questão, mas ignorou solenemente o Rei que, em prantos, só necessitava de um ombro amigo.

O tempo passou e a Rainha-mãe, vendo o Rei tanto se culpar, tentou reverter a situação entre o Rei e o Príncipe, aproveitando que estava numa viagem a negócios no local em que o Príncipe atuava como artista visual. Um tiro pela culatra; o Príncipe se recusou a cumprimentá-la e foi prontamente ofendido. O Rei condenou a atitude da Rainha-mãe e recusou-se a dialogar com ela por uma semana.

Mais um tempo passou e o Rei teve um pesadelo. Neste pesadelo, Felício estava psicologicamente abalado e ferido. O Rei não acredita na premonição dos sonhos, mas implorou pela chance de um novo contato, visando uma nova oportunidade de ajudá-lo. Com a ajuda do irmão, tentou aproximar-se mais uma vez, num misto de tristeza, aflição e esperança. Foi quando o Príncipe Felício revelou-se um verdadeiro plebeu: destratou, magoou e humilhou o Rei diante de seu irmão. “Não o conheço e nem quero conhecer”, ele dizia. Alguém que só queria o melhor para ele, mesmo com todos os erros que cometera outrora. Alguém que nunca deixou de se importar e nunca teve um pensamento maligno a seu respeito até então, tendo ofendido somente da boca para fora em outra ocasião. Desta vez, diante de tanto descaso, o Rei quase o agrediu. Ênfase no quase. Ele nunca encostaria um dedo no Príncipe, agora um plebeu. Ele jamais se permitiria machucá-lo de qualquer forma. O plebeu ameaçou chamar os guardas para quem só queria um diálogo. O Rei novamente foi embora, com o coração totalmente partido, desejando quebrar um espelho ao enxergar seu próprio reflexo e com a total incerteza de um futuro, imaginando apenas que ele será bastante sombrio. Esta não é uma história com final feliz.