Os Deuses não morrem

Quando fama, morte e imaginação cantam juntas formam-se as maiores lendas do Rock

Antes de começar a leitura dê o play na trilha sonora:

François de La Rochefoucauld dizia que para o sol e para a morte não se pode olhar de frente. Nada se sabe da psicologia da morte, afirmou John Carl Flügel. Já para Jorge Luis Borges a morte é uma vida vivida e a vida é uma morte que chega. “A vida não é outra coisa senão a morte que anda brilhando”.

Apesar de ser uma das únicas certezas da nossa existência, a de que morreremos, o tema da morte ainda é um tabu. Edgar Morin em sua obra “O homem e a morte” (Publicações Europa/América, 1997) diz que as ciências do homem não se ocupam da morte. “É necessário revelar as paixões profundas do homem para com a morte, considerar o mito na sua humanidade e considerar o próprio homem como guardião inconsciente do segredo” (p. 19).

Por outro lado, a relação que muitos mantêm com seus ídolos é quase de idolatria. Atores, escritores e músicos são tratados como semideuses, reis e imortais. Mesmo o envelhecimento de figuras públicas parece não ser aceita facilmente. O ídolo deve manter-se igual às capas de discos de décadas atrás e aos filmes que os imortalizaram –figurativamente falando.

Quando essas duas pontas se encontram, o mistério da morte e a relação com ídolos, a imaginação humana é capaz de fantasiar e criar as mais mirabolantes teorias da conspiração. Ou será que não são tão mirabolantes assim?

Paul is Dead

Começamos com a maior de todas as lendas do rock.

O Paul McCartney que roda o mundo até hoje excursionando em turnês milionárias, é na verdade um sósia. O verdadeiro Paul McCartney morreu em 11 de novembro 1966 às 5 da manhã. Pega essa!

Depois de brigar com John Lennon, Paul envolveu-se em um acidente de carro que o decapitou. Os Beatles eram o produto cultural e midiático mais lucrativo que jamais havia pisado na Terra até então. A gravadora decidiu levar o corpo do local às pressas e substituí-lo. Um agente secreto britânico, chamado ‘Maxwell’ teria levado os outros três integrantes ao local e dito: “ele parece uma morsa, não?!”. Entenderás logo.

Um concurso chegou a ser feito por uma revista chamado Teen Beat. Há dois nomes prováveis que ocuparam o lugar de Paul. Willian Campbell ou Billy Shears, ou Billy era o apelido de Willian. Ninguém sabe até hoje quem venceu. O fato desse sósia ter composto centenas de canções depois não quer dizer nada. O substituto impostor acreditou na ideia de que era talentoso e desenvolveu a habilidade de compor, cantar e tocar vários instrumentos, oras.

Depois de gravarem o disco Rubber Soul em 1965, os Beatles pararam de excursionar alegando que aos arranjos estavam cada vez mais complexos e difíceis de serem reproduzidos ao vivo. Além disso, em suas apresentações escutava mais os gritos das fãs do que os instrumentos. Nesse mesmo ano, “Paul” deixa o bigode crescer para esconder uma cicatriz decorrente de um acidente de moto.

Ringo, George e John pressionados pela gravadora não podiam revelar a verdade. Por isso, os três remanescentes resolveram encher os discos e as músicas de pistas para denunciar a morte do companheiro. Para comprovar basta analisar as capas dos discos dos Beatles; Abbey Road, Sargent Peppers Lonely Heart Club Band, Yellom Subarine, Rubber Soul. E é isso que faremos:

Capa do disco 'Abbey Road' (Apple Records, 26 de setembro de 1969)

Na primeira faixa do disco, 'Come Together', Lennon canta: 'one and one and one is three' (um mais um mais um são três).

Parte de trás de 'Abbey Road' (Apple Records, 26 de setembro de 1969)
Capa do disco ‘Rubber Soul’ (Capitol Records, 5 de dezembro de 1965)

Neste discos, as principais pistas estão nas letras das músicas e nos títulos como: 'Drive my car' (dirija meu carro), ', 'You won't see me' (você não me vê), 'Nowhere man' (homem de lugar nenhum), 'Think for yourself' (pense por você mesmo), 'Michelle' (referência à moça que sobreviveu ao acidente), 'What Goes On' (o que acontece), 'Run for you life’ (corra pela sua vida).

Em 'Girl' há a citação 'that a man must break his back to earn his day of leisure will she still believe it when he’s dead', (que um homem deve se arrebentar para ter o seu dia de folga, ela ainda acreditará quando estiver morto).

'I’m Looking through You' diz: 'You don’t look different but you have changed, I’m looking through you, you’re not the same… you don’t sound different… you were above me but not today, the only difference is you’re down there…' (Você não parece diferente mas você mudou, eu olho através de você, você não é mais o mesmo (…) A única diferença é você estar embaixo”, ou seja, enterrado).

A letra de 'In My Life' diz: 'some are dead and some are living'. “Alguns estão mortos e alguns estão vivos."

Capa do álbum 'Revolver' de autoria de Hamburgo Klaus Voormann (Parlaphone, 5 de agosto de 1966)

A capa do álbum 'Revolver' de 1966, é a primeira em gravura. Tudo para disfarçar o sósia. Nas música mais evidências irrefutáveis.

'Taxman' na verdade seria um taxidermista, aquele que dá aspecto vivo a animais mortos. A letra diz: 'if you drive a car, if you get too cold (…) my advice to those who die -taxman..' (se você dirige um carro, se você ficar gelado (…) meu conselho para aqueles que morrem, um taxi…)

Há quem diga que 'Eleanor Rigby' Father McKenzie seria Father McCartney, note pela semelhança entre os nomes. 'Father McKenzie wiping the dirt from his hands as he walks from the grave' (padre McKenzie limpando a sujeira de suas mãos após sair (voltar) do túmulo).

Em 'She Said She Said': 'she said I know what it’s like to be dead' (ela disse que eu sabia como é estar morto).

E por fim aparece 'Doctor Robert' que tentou salvar Paul: 'you’re a new and better man (…) He does everything he can, Dr. Robert' (você é um homem novo e melhor […] Dr. Robert fez tudo o que pode”.

Capa de 'Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band' (Parlaphone, 26 de maio de 1967)
Capa de ‘Magical Mystery Tour’ (Parlaphone, 27 de novembro de 1967)

No disco 'Magical Mystery Tour' não se sabe se John Lennon ou Paul McCartney estão fantasiando de morsa — lembra da frase do agente secreto?— . 'B E A T L E S' ao contrário forma um número, e ao ligar para ele ouvia-se '”You’re getting closer” (você está chegando perto).

No bumbo da bateria de Ringo Starr, a inscrição 'love 3' em referência aos três membros originais da banda vivos.

Na parte interna, apenas Paul aparece com um cravo preto, enquanto os outros estão com um cravo vermelho na lapela.

Foto de Paul McCartney no encarte do 'White Album' (Apple Records, 22 novembro de 1968)

Na música 'I’m so Tired' do 'White Album' ouve-se 'Paul is dead man, miss him miss him'. Em 'Revolution #9', uma referência ao número de letras do sobrenome McCartney: 'My fingers are broken'. E se tocadas ao contrário, 'Getting Better' ouve-se “Paul morreu, ele perdeu sua cabeça” e “eu enterrei Paul” em 'All together now'.

Em 1993, Paul McCartney — ou seu sósia — aproveitou toda essa piada para lançar 'Paul is live':

Capa do disco ao vivo 'Paul is live' (Parlaphone, 8 de novembro de 1993)

Michael dança com o mortos

E quando quem morre é um Rei? Aí a aceitação fica ainda mais difícil. Quando Michael Jackson sofreu uma parada cardíaca em 25 de junho de 2009, o choque foi muito grande. Ele ensaiava um novo show e já havia assinado um contrato para cinquenta apresentações.

Michael Jackson é um daqueles personagens midiáticos mundiais. As várias fases de sua vida foram acompanhadas por milhões de pessoas. Desde sua infância, seu talento para música, dança, relacionamentos e as polêmicas nas quais se envolviam foram televisionadas.

Sua morte não foi diferente, atraiu os holofotes e acabou por se tornar mais um espetáculo. Seu velório foi transmitido ao vivo por vários canais de televisão.

Abaixo uma linha do tempo com um teoria conspiratória que questiona a veracidade de sua morte.


Jim abre as portas da percepção

If the doors of perception were cleansed, every thing would appear to man as it is, infinite.
(Se as portas da percepção estiverem limpas, todas as coisas se apresentarão ao homem como são, infinitas

O poema é de autoria poeta e pintor britânico William Blake e inspirou o livro 'Portas da Percepção' (1954) de Audous Huxley. Foi daí que Jim Morrison tirou o nome para sua banda, o The Doors.

Sua morte aconteceu em 3 de julho de 1971 em Paris, dentro de uma banheira, aos emblemáticos 27 anos. Sua persona polêmica, excêntrica e quase mítica fizeram surgir várias lendas em torno de sua breve vida.

O cantor e poeta, foi um dos primeiros a serem enterrados no cemitério Pére-Lachaise. Em sua lápide está escrito “Kata Ton Daimona Eaytoy”, 'queime seu demônio interior'.

Com essa filosofia, muitos acreditam que Jim simplesmente cansou de sua vida de estrelato e resolver imergir-se novamente no mundo dos meros mortais em forma de mendigo que vaga pelas ruas de Nova York.

De acordo com o dono canal do YouTube Brokkenstar, ele teve sete encontros com “Jim”, que hoje atende pelo nome Richard e continua recitando perfeitamente os versos escritos por Morrison, ou seja, por ele mesmo.

Faça a comparação e tire suas conclusões:


Kurt will gonna hurt

Para muitos o estilo grunge advindo de Seattle matou o alegre e colorido rock dos anos 1980. Para outros o ressuscitou com letras mais profundas e ritmo mais sincero e menos superficial. Fato é que os anos 90 viveram uma verdadeira catarse com o surgimento de grupos como Soundgarden, Pearl Jam e principalmente do Nirvana.

Com um discurso avesso ao sucesso e com uma música crua e repetitiva o grunge não se preocupou em fazer virtuosos solos de guitarra nem alcançar agudas notas nos vocais. Apenas verbalizaram e externaram o sentimento de uma geração.

A angústia do líder do Nirvana, Kurt Cobain, o descontentamento com a fama e os constantes problemas de saúde aliados ao abuso de drogas fizeram com quem uma das bandas mais importantes da história tivesse vida curta, mas com um legado inestimável.

Kurt cometeu suicídio em 5 de abril de 1994. Assim como Jim Morrison, Jimi Hendrix, Brian Jones (também há uma teoria que ele foi assassinado), Janis Joplin e Amy Winehouse morreu aos 27 anos.

Logo depois, levantou-se um teoria de que Kurt Cobain na verdade não havia cometido suicídio e sim tinha sido assassinado. A história ganhou força duas décadas depois com o lançamento do filme Soaked in Bleach (Mountain Productions, 2015) que aponta Courtney Love como a principal mandante do crime.

"É melhor queimar de uma vez do que se apagar aos poucos" escreveria Kurt em sua carta de despedida.

Confira no video algumas evidências levantadas pelo documentário:

Nenhuma dessas hipóteses foi confirmada e o caso foi encerrado.


Elvis não morreu

Deixamos por último a teoria que envolve Elvis Presley, por que não há várias teorias que digam que Elvis esteja vivo. Portanto, se você acha que Elvis morreu, dançou.

Alguns dizem que ele apenas se cansou da fama e dos Paparazzi, outros de que o Rei nunca superou a separação com Priscilla Presley, para quem dedicou a música 'Always on my mind'. Talvez ele esteja vivendo na Argentina, se entregou para denunciar o lado sujo do show business ou pode até mesmo que Elvis seja Bill Clinton.

A mais legal de todas histórias, no entanto, é a que afirma que Elvis trabalha como agente secreto do DEA (Drug Enforcement Administration).

Nos Estados Unidos existe a 'Elvis Sighting Society'. Uma organização que se reúne periodicamente para contar histórias de que viram Elvis por aí. Dessas visões, há algumas fotos. E aí, o que você acha, quer entrar para o clube?

A última aparição de Elvis, em janeiro de 2017.
À esquerda Jon Cotner, um cantor de country que jura que não é Elvis.

Lendas não morrem

Uma coisa realmente pode ser considerada verdade em tudo isso. Todos eles continuam vivos. Suas obras ainda ecoam por aí, pelos ouvidos dos mais crentes aos mais céticos. As lendas só servem para deixar suas memórias cada vez mais vivas, pois no final o amor que você recebe é equivalente ao amor que você proporciona.


'The End', The Doors (1967). Cenas do filme 'Apocalipse Now' (1979)