Para se salvar, o jornalismo deve apostar na credibilidade: tecnologia é obrigação

Uma análise das diferenças entre o texto do jornalismo impresso, televisivo, para o rádio e de internet

“A contingência do jornal moderno, produto industrial que custa enorme esforço, mobiliza grandes equipes, enfeixa considerável poder e, não obstante, vive menos do que uma borboleta.” (Nilson Lage inspirado por Julio Cortázar)
Montagem representando as mudanças dos meios e sua atual tendência à convergência (Clóvis Pedrini Jr.)

O jornalismo parece sofrer as dores do parto. Ainda se estuda os dilemas que os novos meios tecnológicos empreenderam em sua prática. Porém, para uma nova geração de estudantes esses conflitos já não fazem tanto sentido, ficando a discussão relegada a uma velha guarda saudosista e que recalcitra em abrir mão de ficar com as pontas dos dedos pretas por terem que manusear o obsoleto e ecologicamente incorreto papel.

Essa nova geração nasceu empunhando smartphones. Para eles, imprimir folhas de papel diariamente é tão antiquado quanto ter que locar um VHS para assistir em casa; e ao devolver ter que rebobiná-lo sob risco de multa.

Há uma década atrás, quando terminava a escola de Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda na Universidade Estadual do Centro Oeste (UNICENTRO), já estudávamos os então “novos formados”, como banners para internet, game advertising, revistas eletrônicas, transmídia, fotografia digital, peças digitais, portais, hotsites e por aí vai.

Mientras tanto, nossos colegas do jornalismo batiam-se no escuro do laboratório fotográfico, inalando químicos e brigavam para ver quem estamparia a capa do jornal laboratório do curso (cujo nome e primeira logomarca fui um dos criadores: "Ágora"), impresso na gráfica da universidade religiosamente a cada bimestre em seu formato standart. Publicar a notícia online, sequer era uma possibilidade.

Talvez por essa teimosia e demora em perceber e depois em aceitar as mudanças exigidas pelas tecnologias, é que hoje a publicidade nada de braçadas em termos de dinamismo e formatação de conteúdo. Haja vista o trauma e o escândalo que está sendo a adoção de uma nova roupagem por parte da Gazeta do Povo. Uma verdadeira vergonha e o decreto de início do fim para alguns ou uma atitude retardatária que já deveria ter sido tomada há muito tempo para outros — cuja opinião comparto — e não o foi, devido a esse inexplicável conservadorismo quanto aos novos formatos e às novas possibilidades de comunicar.

Veículos que implementaram essas mudanças antes estão em uma inegável vantagem em relação aos seus concorrentes. Isso explica o sucesso que o espanhol El País está tendo no Brasil. Horizontalizou sua redação, não despendeu investimentos na enorme estrutura gráfica, abriu seu acervo, migrou totalmente para a o virtual e não cobra nada do leitor.

Além disso, enquanto os jornais brasileiros estão na primeira — e mais traumática — fase de transição do impresso para o digital, o El País pensa nas próximas etapas.

“Estou começando a ter a impressão de que a passagem do papel para o digital é apenas um e não o maior dos muitos passos que os jornais terão de dar até alcançar o nosso verdadeiro espaço futuro”, disse o diretor Antonio Caño. “Este novo tempo é também um grande desafio para todos nós. E uma grave ameaça para aqueles que duvidam ou resistam ao avanço incontido da transformação do nosso trabalho e do negócio que o mantém”, completa.

O espaço cuidadosamente delimitado em número de toques do jornal impresso, perdeu sentido na Web, onde espaço não é problema. Ao contrário, só o texto jornalisticamente bem escrito não basta por si só. Surge o hipertexto e a leitura up-down transforma-se em uma viagem de várias direções onde a rede pode ser entendida como um emaranhado informativo com infinitas possibilidades ou uma rede que aprisiona como alertou Dominique Wolton.

Diante de um computador conectado à Internet e ao acessar um produto jornalístico, o usuário estabelece relações: a) com a máquina; b) com a própria publicação, através do hipertexto; e c) com outras pessoas — autor(es) ou outro(s) leitor(es) — através da máquina (Lemos, 1997; Mielniczuk, 1998). Palacios (1999) ainda argumenta que a acumulação de informações é mais viável técnica e economicamente na Web do que em outras mídias e acrescenta o fato de que na Web a memória torna-se coletiva.

Esse novo hábito de leitura torna-se um desafio para o jornalista. A leitura horizontalizada que o jornal impresso trazia em suas várias editorias dá espaço ao consumo de conteúdo cada vez mais segmentado. Para Angéle Murad,

“a possibilidade de uma leitura multilinear, transformando os dados espaciais e temporais da produção e da exploração da informação, permite saltar de um documento a outro e fazer tanto a leitura linear clássica como um percurso individual.”

Mas se o leitor pode despender mais tempo em um assunto de seu interesse, as redes sociais trarão à tona um novo tipo de leitor, o especialista em tudo, que comenta, se expressa e forma sua opinião com a leitura das chamadas e títulos das matérias, sem nunca se aprofundar em nenhum assunto.

O idiota e o doutor terão o mesmo espaço, a internet dará voz ao imbecil decretaria Umberto Eco. Um leitor impaciente e raivoso que além de não ler as reportagens também será impaciente para assistir os vídeos, o que afetará os telejornais.

Pequenos drops de vídeos curtos, alto explicáveis e de fácil assimilação são os que melhor servem ao eflúvio informacional das redes sociais. O imediatismo está na ordem do dia e o furo de notícia não dura. O âncora, o talking head, sai detrás da bancada e mostra que pode improvisar e até mesmo, vejam só, sorrir. A linguagem muda.

João Canavilhas explica que no webjornal, o vídeo não é redundante e empresta um carácter legitimador à informação veiculada no texto. Outra diferença entre o vídeo na TV e na Web está relacionada com questões técnicas.

“A imagem televisiva é um excelente vector da emoção (a afetividade, a violência, os sentimentos, as sensações) (…)” (Jespers, 1998). No webjornal este “vector de emoção” perde-se.

Enquanto isso, o rádio incrivelmente se mantém de pé. Do radiofone aos portáteis, para os carros e para os celulares, o rádio apresenta a maior resiliência dentre todos os meios e continua relevante. Rudolf Arnhein já afirmava na década de 80 que o rádio

“está na posse, não só do maior estímulo que o ser humano conhece, a música, a harmonia e o ritmo, como também é capaz de oferecer uma descrição da realidade através de ruídos e com o maior e mais abstrato meio de divulgação de que a humanidade é dono: a palavra.”

Estariam os pensadores da comunicação se preocupando à toa? Não seria hora se jogar os sacos de areia no mar para deixar o barco seguir mais leve e livre? Pensar em um veículo essencialmente impresso, ou unicamente sonoro, ou televisivo ficou no passado. A saída será uma integração de suportes, linguagem e equipes multitarefas cada vez maior.

Porém, a grande saída para o jornalismo não consiste em estar na crista da onda das tecnologias de ponta, isso é a obrigação. O trunfo do jornalismo, e o que vai determinar seu sucesso é apostar na credibilidade.

Quando uma eleição americana é influenciada pelas pós-verdades, possibilitado pelo feito de que cada qual pode ser um meio de comunicação em si, é necessário resgatar a tão almejada informação confiável. O próprio conceito de jornalismo, acrescenta Murad, encontrasse relacionado com o

“suporte técnico e com o meio que permite a difusão das notícias. Daí derivam conceitos como jornalismo impresso, telejornalismo e radio jornalismo.”

Seja no impresso, no rádio, na TV ou na internet o jornalismo precisa apostar as fichas nos seus processos de produção, baseados na apuração aguçada de dados e fontes, no enfrentamento descarado com a realidade, no relato mais fidedigno e justo possível dos fatos, no contraponto de visões divergentes e, principalmente, não renunciar aos valores de liberdade e independência que os trouxeram até aqui.


Resenha:

A linguagem jornalística a partir de Nilson Lage

A importância das normas e estilos de redação jornalística nos diferentes meios

Linguagem Jornalística’, (Ed. Ática, São Paulo, 2006)

No livro ‘Linguagem Jornalística’ (Ed. Ática, São Paulo, 2006), o jornalista e professor doutor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Nilson Lage, trata da importância e das diferenças das normas de redação jornalística nos diferentes meios.

Na primeira parte, são tratadas as linguagens não-digitais. Ele versará sobre a condição da informação perecível, as linhas mestras da linguagem gráfica, a linguagem dos tipos e das cores, a linguagem analógica do rádio e da fotografia e sobre as imagens no telejornalismo.

No capítulo intitulado ‘o texto jornalístico’, Lage definirá a linguagem jornalística, os fait-divers e a antítese, discorrerá a respeito da retórica no jornalismo e terminará abordando as normas de redação em veículos impressos, no rádio e no telejornalismo.

Linguagens não-digitais

As leis mais gerais da linguagem jornalística são comuns a muito idiomas, por ser o jornalismo uma prática social transfronteiras. A linguagem jornalística mobiliza outros sistemas simbólicos, além da comunicação linguística.

O projeto gráfico deve ser capaz de fazer com que o jornal seja reconhecido pelo consumidor antes de lê-lo. Ele deve dar sentido a todo o conjunto, com os brancos entre as colunas, títulos maiores, fontes, títulos parangonados, retângulos próximos à proporção áurea e valorização das imagens.

Os sistemas analógicos — fotografias, ilustrações, quadrinhos — são unidades semânticas autônomas, referenciais e que devem, por meio das legendas, contextualizações e disposições, terem sua ambiguidade conceitual reduzida.

O sistema linguístico — manchetes, títulos, textos, ou seja, a redação jornalística no impresso — deve formalizar-se e enriquecer sua sintaxe para suprir a ausência de outros elementos comunicativos como o som, os gestos e a entonação.

Apesar de a produção de um jornal só ser possível quando o objetivo do trabalho se desloca da obra para o consumidor, ou seja, quando o objetivo é levar a informação ao público, a sua condição efêmera parece prevalecer como critério do que deve ou não ser publicado.

No rádio a entonação, pausas, dicção, boa linguagem e o locutor mais ‘amigo’ buscam transmitir credibilidade e propicia à imaginação do ouvinte.

Já a fotografia passou de mera ilustração e ornamento da página para ser, muitas vezes, a principal informação da notícia.

Com o telejornalismo o locutor agora é âncora e está face a face com o telespectador. As reportagens passam a contar a vida de personagens, fatos históricos, realizações artísticas, costumes, etc., utilizando-se da demonstração crua da realidade com uma edição que formará um novo discurso. A ficção compete com o real e o ao vivo confunde-se com a pós-produção.

O texto jornalístico

No telejornalismo, as sinopses, roteiros, scripts, cenário, enquadramento, deslocamento de equipes, temas, estratégias de entrevistas, “cabeças” de repórteres, são textos que se transformam em produto midiático.

A redução dos léxicos e de regras operacionais na língua facilita o trabalho e permite o controle de qualidade uma vez que o jornalismo se propõe a processar informação em escala industrial e para consumo imediato

O conceito de ‘linguagem jornalística’ define-se pelos ‘registros de linguagem’, por meio do ‘processo de comunicação’ e dos ‘compromissos ideológicos’. Vejamos:

Do ponto de vista da eficiência da comunicação, o registro coloquial seria sempre preferível por ser mais acessível, permitir maior fruição e expressividade. Porém, o registro formal é uma imposição de ordem política. Por isso, a linguagem jornalística utiliza-se de regras combinatórias que são possíveis no registro coloquial e aceitas no registro formal.

A comunicação jornalística é referencial e isso implica no uso da terceira pessoa — com raras exceções, como no jornalismo gonzo, por exemplo— pois trata-se de um emissor falando para um grande número de receptores.

Indica-se utilizar comparações para ajudar com as interpretações numéricas e de dimensões e prezar para que os números, que têm alta confiabilidade, não sirvam a uma argumentação falaciosa. Do mesmo modo, anunciados concretos ajudam a empregar um efeito de verossimilhança à notícias.

Grandes e pequenas questões ideológicas estão presentes na linguagem jornalística, sendo o poder o gerador de conceitos que dominam o diálogo social, enquanto o cúmulo e o absurdo guiam as notícias fait-divers, aquela que não se encaixam diretamente em nenhuma editoria específica, mas ganha relevância pelo inusitado e pela improbidade. Já a retórica jornalística se utilizará de critérios como atualidade e proximidade para fazer-se relevante.

As normas de redação em veículos impressos, servem para generalizar procedimentos e técnicas, adotando critérios que resolvem muitos dos problemas linguísticos. Desde a apresentação de originais —prática brutalmente modificada com a tecnologia — até o uso de aspas, siglas, maiúsculas, números, unidades, destaque gráfico, pontuação e estrangeirismo.

O texto em radiojornalismo deve primar pela legibilidade. Marcar pausas e simplificar a grafia facilitam a leitura. Já as normas de redação direcionada ao telejornalismo com a abertura das notícias, inserção de imagens, comentários, ponto de deixa, tornarão o produto final crível e facilmente assimilável.