depressão tropical

naveguei em mar calmo e afundei. a questão é que já naveguei durante tantas tormentas que não tenho prática com mar liso e vento brando. a brisa só me dá a sensação de que a bonança acaba e depois vem ela, minha velha conhecida, encharcar roupas, olhos, convés, cama.
o piloto automático que me navega e rouba o controle quando não estou olhando, me leva pros encontros tortuosos de correntes violentas que prendem e chicoteiam o corpo, sem dó, me surpreendem com grandes ondas. não há saída, mergulho.
submersa, meus movimentos parecem lentos e inúteis, mas a intenção não é essa. dentro do mar grande, pareço imóvel ao olho destreinado. mas tenho prática em chegar à superfície depois da derrubada violenta e feroz de ondas bem maiores que eu jamais serei. não, não preciso ser maior que as ondas, preciso aprender a nadar nelas.
talvez tenha passado anos lá embaixo, tudo é como um transe, eu jamais saberei quanto tempo. a pior forma de morrer é vivendo, o melhor jeito de viver é morrendo.
emerjo com pouca graça, cuspindo água, sugando ar, uma cena nada bonita. a sobrevivência não é bonita. remo e me movo num ensaio de nado, mas sem muita prática depois do afogamento. as coisas demoram a voltar e se ajeitar na cabeça depois de tanto tempo sem ar, mas voltam. levei um caldo, voltei gigante.
piso na areia movediça da praia mais próxima, não é solo firme, mas é o melhor que vou conseguir no momento. ofegante, me arrastando, ensaio os passos, pernas doem, pulmões e coração trabalhando ao máximo, o conjunto consegue seguir. deixei algo lá na água, com certeza, não tá tudo aqui comigo. me reconstruo pra me perder.
já seca, entro novamente no mar, como quem esquece o aperreio, como quem não liga pro impacto das ondas contra a cabeça, o sufoco de não respirar. nado agora com desenvoltura, mestra em ir e vir, aprendi com as ondas. algum dia, breve, volto a navegar.
