desértica

O que me move no deserto eu ainda não sei. Até onde sabia, só era possível viver onde há verde, fartura, flores, ar fresco. É que eu moro no interior.

No deserto só é possível sobreviver, é seco, árido, solitário, não há desejo a não ser de sair. Todas as noites desertas sonho com trilhas que atravessam florestas, cruzam rios, pisadas suaves com pés descalços na folhagem, acompanhando as formigas trabalharem, borboletas se alimentarem em flores tão miúdas e outras plantinhas mais comuns que a gente não presta atenção. Clareiras e vento, ar. Respiro.

Volto meu olhar pro real, invisto em tentar ver na areia e na solidão alguma beleza. A beleza está no interior, e eu moro lá. O vento frio da noite desértica me machuca, me corta a pele, seca os olhos e os põe cheios de lágrimas. O deserto tem seus paradoxos. Já estive aqui antes, e tentei fugir a qualquer custo, forjei um oásis e lá me abriguei. Achei que tinha recriado meu interior verdejante. Mas miragens não são saídas, faço do deserto meu lar, o deserto é agora meu interior. E eu moro lá.

Como criatura habitante do deserto, tenho criado resistências, reticências, outras resiliências. Passo a amar o deserto, porque ele é parte do mundo, parte do fluxo do meu interior que se transforma.