Clubes de leitura viram moda entre leitores brasileiros

Ler é um exercício solitário. Para os participantes dos clubes de leituras, entretanto, o hábito ganha mais sentido ao ser compartilhado. Não à toa, um número cada vez maior de leitores se reúne para discutir sobre um livro, dividindo suas opiniões e visões a respeito de obras literárias.

O funcionamento dos clubes é simples: a cada mês, uma obra é escolhida para ser devorada ao longo das quatro semanas e comentada no encontro seguinte, que provavelmente será na casa de algum membro, em livrarias ou cafés. Reunidos, eles dão início a um processo de “degustação” das leituras que geralmente é dividido entre relembrar a obra, trocar opiniões e avaliar a leitura por horas a fio.

Quando os leitores não são de uma mesma cidade, o clube é virtual. Cada vez mais comuns, os clubes on-line usam plataformas de fóruns para reunir pessoas de diferentes lugares do mundo a respeito de grandes obras e, principalmente, literaturas políticas ou religiosas. As conversas acontecem por meio de videoconferências, com discussões que impressionam pela diplomacia dos debates, geralmente muito sensatos e cordiais.

Mas afinal, quem participa?

Sabendo que esta é uma maneira de estar em contato direto com seu público, o mercado editorial tem acompanhado de perto o crescimento dos clubes de literatura. O perfil dos participantes interessa a pequenas e grandes editoras: 44% têm ensino superior e 35% são pós-graduados.

Segundo uma pesquisa realizada pela Companhia das Letras, a imensa maioria do público é formado por mulheres (76%) de 30 a 59 anos (38%). A mesma pesquisa indica que esses leitores consomem de 16 a 24 livros por ano e boa parte deles (36%) dedica pelo menos 1 hora por dia aos livros.

Atentas a esses dados, as editoras apoiam diversos clubes com doações e empréstimos de exemplares. Algumas, como a Companhia das Letras, leva os seus principais autores até os fãs, rentabilizando as reuniões com venda de ingressos e produtos licenciados.

Uma cultura impulsionada pelas celebridades

No início de 2016 a atriz Emma Watson, a Hermione Granger de Harry Potter, lançou o “Our Shared Shelf”, um clube de livros para discutir leituras feministas. A iniciativa surgiu após seu trabalho como Embaixadora da Boa Vontade da ONU, quando a atriz sentiu a necessidade de compartilhar e discutir os livros e ensaios sobre sobre feminismo e igualdade de gêneros que estava lendo. As discussões são organizadas no site Goodreads (basta criar uma conta no site e acompanhar o grupo) e também nas redes sociais através da #oursharedshelf.

O grupo que hoje conta com mais de 100 mil membros de diversos países, tem discussões que vão muito além do conteúdo dos livros indicados e já transcendem as questões de igualdade de gênero.

A atriz sempre que possível conversa com as autoras indicadas e proporciona um espaço de trocas entre autores e leitores (os Q&A — Questions and Answers).

Mark Zuckerberg, cofundador e CEO do Facebook, mobiliza mais de 700 mil pessoas por meio do seu clube de leitura. A cada 15 dias o americano escolhe uma obra, informa o título aos participantes do clube, chamado A Year of Books, e duas semanas depois realiza um debate público com o autor da obra.

Além de atrair mais de 1 milhão de pessoas, o clube de Zuckerberg impacta diretamente na venda de livros. Somente nos Estados Unidos, a primeira obra debatida no clube vendeu mais de 20 mil cópias em apenas dois dias. O número, maior do que toda a venda dessa obra desde 2013, resultou em uma nova edição do livro, com um selo que remete à indicação literária do CEO do Facebook.

Os principais benefícios dos clubes, segundo os participantes:

  1. É uma forma barata de se divertir;

2. Para os introspectivos, é uma forma excelente de socializar;

3. As leituras ganham outras visões, e o leitor descobre novos significados das histórias;

4. Nos clubes, temas polêmicos ganham discussões inteligentes e cordiais.