O Lar do Futuro existe desde o passado, mas ainda não está no presente.

Casa Schizzi: Lar do Rafa e da Ju — Projeto da Cluster ArqHub

“Lar”. Essa é uma palavra bem complexa. Pode ser simplesmente um sinônimo para casa. Entretanto, o conceito de lar é muito mais amplo.

Lares eram antigas divindades romanas que protegiam as residências. Os guardiões das casas. Diz-se que protegiam também as estradas, as plantações, as vias marítimas e as cidades. Durante as refeições, estátuas de Lares eram retiradas dos seus altares e postas sobre a mesa romana, simbolizando sua proteção e presença. O comparecimento dos Lares também era requisitado em todos os eventos importantes das famílias, como casamentos, banquetes e nascimentos.

Os Lares romanos.

“Lar” também era o termo utilizado para identificar o lugar onde ficava o fogo.

Hoje, chamamos esse isso de lareira, mas no passado esse espaço geralmente ficava na cozinha.

O fogo sempre teve muita importância para o ser humano. Era ao redor dele que as pessoas se reuniam e se aqueciam. Com ele iluminavam as noites frias de inverno, preparavam alimentos e afastavam animais perigosos. Por isso, ele sempre teve um lugar privilegiado na arquitetura.

Na casa longa viking, o fogo era o elemento central.

É fácil encontrar relação entre os Lares e o fogo e concluir que “lar” pode significar, além de casa, também proteção, calor, carinho, vida ou amor. Ou tudo isso junto e muito mais. Cada pessoa pode sentir seu lar em um lugar diferente. Seja onde cresceu ou onde escolheu viver. Uma casa, um apartamento, dentro de uma mochila que viaja o mundo, ou ao lado de alguém.

O lar é onde está o calor, a proteção e o amor. É onde pode-se sentir bem.

Naturalmente, todo projeto de arquitetura vai muito além das paredes, do teto e do piso. O arquiteto tem um trabalho bastante delicado quando o assunto é arquitetura residencial. Nesse caso, é necessário projetar um lar. Um lugar para guardar o fogo.

E em se tratar de arquitetura, no lar é onde se mora. Esse “morar” sempre foi o mesmo ao longo da história. Mas foi o mesmo de maneiras tão diferentes quanto é possível ser.

Isso porque as necessidades básicas como abrigo, conforto, salubridade ou proteção, sempre precisaram e sempre precisarão ser atendidas. O que mudam são os seus habitantes. Cada um com necessidades individuais específicas, movidas por seu tempo, pela cultura em que estão inseridos e por suas experiências e necessidades pessoais.

Por exemplo, quem é mais introspectivo pode querer um lugar para se isolar do mundo. Quase como um casulo. Silencioso, calmo, privado de interferências externas. Um lugar para cuidar e alimentar o seu próprio fogo e deixar ele queimar longe de olhares curiosos ou julgadores.

Optical Glass House, de Hiroshi Nakamura — Um lar introspectivo.

Já pessoas expansivas podem buscar um lar para abraçar o mundo. Enche-lo de amigos e familiares o tempo todo e dividir experiências e momentos especiais, cuidando de sua chama à muitas mãos.

Uma coisa não anula a outra. O ser humano é complexo e toda sorte de misturas entre introspecção e expansão pode ser esperada dele. Cabe ao arquiteto perceber quais os tons de cinza estão presentes nesse gradiente, que nunca é preto no branco, para chegar em uma solução precisa e única para cada um que o procurar.

No caso de arquitetura multi-familiar (como edifícios residenciais), o arquiteto não saberá que tipo de fogo terá de ser guardado em cada um dos apartamentos. Logo, é necessário que se projete espaços camaleônicos, que podem ser transformados e personalizados das mais variadas formas possíveis.

Entretanto, o que mais se vê são repetições exaustivas de plantas prontas, edifício atrás de edifício, focando na produtividade e rentabilidade de algo tão precioso quanto o lar.

Lares são muito, mas muito mais do que apenas caixas produzidas em série para guardar pessoas. Viver em um lar de verdade enobrece e valoriza o ser humano. Traz qualidade de vida, felicidade e plenitude. Se esse for o foco, não demorará muito até que surjam soluções rentáveis, baratas e de fácil produção para criar lares de qualidade para todas as pessoas.

Arq. Rodrigo Guidini