Lost in Translation em Paris — e a sensação de que sempre falta algo

Caroline Reis
Nov 5 · 4 min read

“Eu não sei o que eu devo ser” — Lost in Translation

Faz uma semana que eu descobri um dos lugares que a minha intuição me diz que vai se tornar um dos meus preferidos em Paris: a Filmothèque du Quartier Latin.

filmoteque du quartier latin paris
filmoteque du quartier latin paris
Filmothéque du Quartier Latin — um cinema de clássicos no coração de Paris

A Filmothèque du Quartier Latin fica no 5e Arrondissement de Paris, na cinéfila rua Champollion (contei ao menos 3 cinemas, um do lado do outro) no mesmo bairro estudantil que abriga a Universidade Sorbonne, o Panthéon, o Jardim de Luxemburgo e o Museu Cluny: o Quartier Latin. O local onde hoje funciona um cinema de rua com uma programação exclusiva de clássicos e contemporâneos aclamados da sétima arte, foi fundado em 1948 como o “Cabaret des Noctambules”. Entre idas e vindas, de cabaré a teatro a, finalmente, um cinema, a Filmothèque tal como eu a conheci na semana passada, funciona e existe desde 2006, com duas salas: Audrey e Marilyn.

No dia 31 de outubro, Paris tinha programação de Halloween para todos os gostos. De Soirées de dia dos mortos em clubes, hotéis e até mesmo em castelos (uma colega de classe participou de uma), ficar em casa, pra muitos, não era uma opção.

No meu caso, meus planos consistiam em: trabalho — academia — casa. Consultei o Google pra ver se algo me agradava. Não lembro bem exatamente o que busquei, mas foi algo parecido com “filmes halloween paris” — pretendia ficar em casa, mas pelo menos que fosse temático! Achei uma sessão especial de Halloween na bendita Filmothèque do Quartier Latin e, qual não foi minha surpresa ao ver que um dos meus filmes favoritos era o da noite. Scream (Pânico), uma homenagem cômica ao gênero de terror/suspense que inundou as salas de cinema dos anos 80/90, era o filme da sessão de 22:00. Ganhei meu Halloween.

Na fila do cinema, a programação do mês de novembro me transportou para outra década. Filmes dos Coppola — pai e filha — em cartaz. No domingo seguinte, Lost in Translation. “Um filme que todo expatriado tem que assistir”, alguém me falou.

Domingo, 13:30 de uma Paris chuvosa de fim de outono, lá estava eu na fila do cinema mais uma vez.

Uma das coisas que mais me impressionou e me encantou neste cinema (e seu público) é o fato de que hoje, com a tecnologia e o acesso aos serviços de streaming, não existe uma real necessidade de se deslocar ao cinema pra assistir a um filme clássico. Em um momento em que diretores, distribuidores e especialistas se preocupam com o futuro da indústria, principalmente para os filmes independentes, existe um cinema em Paris dedicado aos grandes sucessos do cinema. E as pessoas vão.

A sala lotou com uma variedade de pessoas que eu às vezes esqueço que existe em Paris. Diversas gerações: sentei entre uma moça na casa dos 20 e uma senhora na casa dos 70. Nacionalidades: atrás de mim tinha um grupo de asiáticos. Estilos e personalidades: um senhor chegou atrasado meio que reclamando que estava escuro. Parisienses… ;)

Todas essas pessoas, nós, decidimos sair de casa num domingo chuvoso para assistir a um filme disponível no Amazon Prime. 102 minutos depois, mais uma vez a confirmação de que essa experiência coletiva valia a pena. Ela já tinha vindo dois dias antes, na sessão de Halloween, mas foi bom tê-la reafirmada dentro de mim.

Foi diferente.

Talvez pela temática do filme em que dois norte-americanos (Scarlett Johansson e Bill Murray) estão no Japão por diferentes motivos e percebem, um no outro, a falta de algo, que não está em Tokyo e talvez também não esteja em seu país natal.

I just don’t know what I’m supposed to be.

A sensação de que falta algo. Nada em especifico, mas ao mesmo tempo sim, um coletivo de “quereres”.

Falta aprender mais, falta conhecer mais lugares, aprender espanhol, morar em outras cidades, outros países, conhecer novas pessoas, fazer outra faculdade, mudar de área, estudar filosofia, ser garçonete em um bar, conhecer uma cidade ao ponto de não precisar do Google Maps, me perder em uma cidade, fazer novos amigos sem perder os antigos, estudar cinema, estudar teatro, recitar poesias, ver todos os filmes considerados essenciais da sétima arte, me especializar de novo, conhecer outras culturas pelo olhas das pessoas dessas culturas, ir pra Ásia, pra Rússia, assistir todas as peças da Broadway (e off- Broadway), ir pra Cuba, falar mal do entretenimento norte-americano, assistir a saga Vingadores toda de uma vez, assistir aos grandes clássicos do cinema brasileiro, ler todos os clássicos da literatura, ver a Aurora Boreal, voltar pro balé, fazer dança moderna, escrever um livro, aprender a programar.

A lista continua indefinidamente.

Falta muita coisa e eu queria muito poder escrever que sim, tudo bem se continuar faltando, a vida é sobre isso ai mesmo, é muita coisa, claro que vai faltar.

Lost in Translation (2003)

Talvez seja uma coisa de geração, talvez todo mundo passe por isso no meio dos vinte e tantos, talvez todo mundo tenha uma lista de quereres que pretende e planeja fazer, mas no fim não faz porque a própria vida se coloca no meio dos planos e viver talvez não seja sobre planejar e fazer, também seja sobre improvisar pelo caminho.

Eu não sei. Sei que eu cheguei até aqui, em Paris, em busca de coisas na lista da Caroline de dois anos atrás.

Em busca do suficiente.

Caroline Reis

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Escrevo pra lembrar que a vida acontece fora dessa tela.

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