A esquerda inconclusiva

Há algo realmente intrigante na reação de parte da esquerda ao áudio da conversa entre Michel Miguel e Joesley Safadão. Ao que parece, muita gente esperava ouvir uma conversa didática, clara e transparente, com Temer e Batista revelando, em minúcias, como funcionava o esquema montado pelo segundo para obstruir a Lava Jato, com a conivência espalhafatosa do primeiro.

Pois bem, como disse um amigo, isso não é uma charge do Latuff, mas uma conversa entre dois homens poderosos, um deles Presidente da República, outro um grande empresário, ambos envolvidos em grandes esquemas de corrupção, com seus nomes citados em delações, um deles, Joesley, investigado pelo MPF, e outro, Temer, sabedor que o menor deslize pode colocá-lo na alça de mira da Procuradoria Geral.

É ingenuidade, para dizer o mínimo, esperar que uma conversa entre essas duas personagens não se desenvolvesse senão com insinuações, frases pela metade, referências veladas; e é ingenuidade, e um equívoco, acusar quem quer que seja de “mentir” sobre seu conteúdo. E isso porque, mesmo atravessado por insinuações, o diálogo é profundamente revelador.

Michel Temer não apenas recebeu na residência oficial da presidência um empresário acusado e investigado por corrupção, como o ouviu confessar que está a obstruir a justiça, inclusive pagando propina a um Procurador, sem nada dizer a não ser consentir, quase silenciosamente.

E digo “quase”, porque a frase “Tem que manter isso aí” é, ela própria, reveladora de intenções pouco republicanas, principalmente no contexto em que foi proferida. Temer não precisava ter dito, em alto e bom som — e nem o faria — que aprovava a mesada de Batista a Cunha. O diálogo, tal como aparece, já é evidência suficiente de obstrução da justiça e prevaricação, crimes ambos os atos.

Ainda assim e apesar disso, o número de pessoas à esquerda a afirmar o caráter “inconclusivo” dos diálogos, é revelador de nossa dificuldade em compreender algumas coisas quando elas não são exatamente evidentes por si mesmas.

Uma delas é a nossa necessidade de narrativas simplificadoras, que se encaixem sem ambiguidades em nossas expectativas, tal como uma charge do Latuff. Isso aparece, por exemplo, na relação com as mídias tradicionais, que foram as que trouxeram à tona o novo escândalo. Fala-se delas como se fosse novidade, por exemplo, que a Rede Globo tenha intenções com as revelações que vão além da mera informação. Oras, é claro que os interesses da Rede Globo não se resumem ao jornalismo.

Mas é igualmente claro, por exemplo, que eles nunca foram nem de longe ameaçados por três governos petistas, que trataram a família Marinho a pão de ló, inclusive renovando a concessão pública da emissora apesar da dívida milionária com a Receita, e desconsideraram completamente a possibilidade de regulamentação das mídias, projeto encampado solitariamente pelo jornalista Franklin Martins, ministro das Comunicações do governo Lula.

Também é claro que, do ponto de vista da legitimidade narrativa (na falta de melhor expressão), são ainda as mídias ditas tradicionais as que têm um maior alcance e mesmo credibilidade, apesar da qualidade no mínimo claudicante do nosso jornalismo. Em parte graças ao péssimo trabalho de boa parcela das chamadas mídias alternativas, resguardadas as exceções (e penso em experiências como o “Nexo Jornal” ou o “Ponte Jornalismo”). O que esperávamos? Que fontes vazassem as informações ao “Brasil 247”?

Mas o caráter vacilante de parte do campo progressista às gravações revela algo mais, que é a própria dificuldade de encaixá-las na narrativa do golpe, que vem sendo exaustivamente usada desde a deposição de Dilma Rousseff. Graças ao “golpe”, não apenas se esquece do verdadeiro estelionato eleitoral patrocinado pelo PT em 2014, como se finge não perceber que, entre Dilma e Temer, a diferença não é de substância, mas de ritmo, e que há mais continuidade que descontinuidade entre os dois governos.

Um sintoma claro disso: frente aos novos acontecimentos, era o momento da esquerda — partidos, sindicatos, movimentos sociais, etc… –, proporem uma alternativa minimamente viável à crise em um momento de fragilidade de um governo que já nasceu ilegítimo. Mesmo que não desse em nada, trata-se, ou deveria, de questão de sobrevivência política inclusive. “Era o momento”, mas provavelmente não será.

Porque boa parte da esquerda está ocupada demais em suas obsessões com a Globo e temerosa com o quanto a delação de Joesley Batista pode atingir o que sobrou do PT e, principalmente, comprometer a potencial candidatura de Lula em 2018. Em parte por isso, desde a quarta-feira vemos a dificuldade em reagir e a opção por desqualificar, como inconclusivas, as gravações, ou de apontar os riscos de uma eleição direta, preferindo a ela um mais que improvável retorno de Dilma — improvável e, acrescento, indesejável.

É como se, depois de um ano gritando “Fora Temer”, agora que estamos muito perto de que isso de fato aconteça, os possíveis e em grande medida incontroláveis desdobramentos da queda de Michel Miguel force boa parte da esquerda a optar, parafraseando o próprio, a “manter isso aí”.

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