A entrevista a um filósofo de trazer por casa e o Carlos Vale Ferraz em busca infrutífera de saberes sobre o colonialismo, o racismo e o tráfico de escravos. A força da lengalenga.
O DN de 7 de Agosto publicou uma entrevista conduzida por Fernanda Câncio a Pedro Schacht Pereira, nascido no Porto, em 1969, que vive nos EUA desde 1995. Licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra e doutorado em Estudos Portugueses e Brasileiros pela Universidade de Brown. Leciona na The Ohio State University. Autor de “Filósofos de Trazer por Casa: Cenários da Apropriação da Filosofia em Almeida Garrett, Eça de Queirós e Machado de Assis”. Está a trabalhar num livro sobre os discursos que defendem o “excecionalismo do colonialismo luso”.
Eu acabei um romance que tem por título “A última viúva de África”, cujo enredo inclui marcas do colonialismo belga, português e inglês. O assunto interessava-me. Apanhei com um contentor de vulgaridades e de confusões. Ideias lançadas a esmo. Uma colagem de frases apresentadas como verdades bíblicas transmitidas aos pobres de espirito. O filósofo é, de facto, de trazer por casa e as suas opiniões podem ser bem-intencionadas, mas flutuam soltas de qualquer eixo que as ordene.
“Na minha área, na área da literatura, as pessoas que trabalham com questões pós-coloniais fazem-no com o período contemporâneo, pós-colonial.” — parece evidente. (…) “descobri que só se pode falar de questões pós-coloniais se se tiver um conhecimento bastante vasto do colonialismo e da formação do seu discurso.” — pois. “Ora no caso português isso levou séculos.” — é um facto. “O Brasil está muito à frente na investigação sobre essas coisas e os historiadores brasileiros têm publicado obras muito importantes a partir dos nossos arquivos, onde há muita coisa por descobrir mas muita tem sido trabalhada e publicada. Só não sabe quem não quiser.” — é uma afirmação vazia e sem sustentação. De facto, os investigadores portugueses têm publicado muitos trabalhos sobre pós-colonialismo, o Pedro Pereira é que, pelos vistos, não conhece.
A entrevistadora lembra que ele escreveu uma carta, que se transformou em petição, em reação às declarações do Presidente da República no antigo entreposto de escravos de Gorée, (durante a visita de Marcelo Rebelo de Sousa ao Senegal) e ao facto de este ter dito que o marquês de Pombal fez um decreto em 1761 a abolir a escravatura na metrópole por “humanismo”. Na carta Pedro Pereira diz que “se tem de se reconhecer o reflexo da escravatura e do colonialismo no presente” — como é que isso se faz, devia ter perguntado a entrevistadora, em vez disso o entrevistado mistura escravatura, colonialismo e racismo no mesmo saco (digo eu: são fenómenos muito distintos) e afirma que os portugueses acham que é algo que aconteceu há muito tempo, está ultrapassado. Pedro Pereira entende que factos dos séculos XVI a XVIII: “Não, não foi há muito tempo, foi há muito pouco.” — e, vá-se lá saber como, ou baseado em quê, afirma: “São muito poucas as famílias portuguesas que não têm um envolvimento direto ou indireto com o trabalho forçado, por terem tido familiares nas colónias.” Na realidade, nos séculos XVI a XVIII, ou até meados do século XX, eram muito poucas as famílias portuguesas estabelecidas em África e não eram muitas as que se encontravam no Brasil em posição de utilizar o trabalho forçado. Pedro Pereira, à salada de assuntos distintos que são colonialismo, escravatura e racismo, adiciona ainda o trabalho forçado, que é uma realidade diferente de todas as anteriores!
Da análise de fenómenos da história Pedro Pedreira avança para a literatura e revela que está a escrever um livro sobre “o sublime africano em Eça”. E o que é o sublime, pergunta a entrevistadora. A resposta é elucidativa do pensamento de trazer por casa: “Duas coisas: encarar a África como um elemento do sublime (utiliza o conceito para explicar o conceito), que exalta e ao mesmo tempo não permite o discurso, e por outro lado a sublimação. No sentido psicanalítico do termo, aquilo de que não se fala, mas que é motor de discurso, de trauma. E acho que a obra do Eça é um veículo privilegiado para estudar essa dimensão dupla. A África como fonte de maravilhamento, por causa da sua paisagem natural, como desafio enorme ao projeto colonial, que só avançou com a invenção do caminho-de-ferro e os progressos na medicina. Só no século XIX é que os europeus conseguiram penetrar no continente africano. Os portugueses entraram em África no século XV, porque é que só foi subjugada no fim do século XIX? As pessoas esquecem essa parte da história. E Eça de Queirós retrata a burguesia lisboeta como tendo uma má consciência sobre isso e atitudes hipócritas.” — Esclarecidos com este naco literário? Quanto à realidade: Eu só conheço uma referência de Eça de Queiroz a África, em “Uma Campanha Alegre”, quando ele propõe que se vendam as colónias ou, melhor, que as dêem! Fico cheio de curiosidade em conhecer o sublime de África que Pedro Pereira descobriu em Eça, ou que este terá descoberto.
De seguida, Fernanda Câncio quer saber como foi acolhida essa linha de investigação. Pedro Pereira informa que fez uma apresentação num congresso no ano passado “e só tive reações de colegas norte-americanos e brasileiros. Do lado português nada.” — a queixa de Pedro Pereira parece-me sinal de sabedoria e senso do lado dos portugueses. Fernanda Câncio intuiu que as razões da ausência de reacção dos académicos portugueses não é a de se recusarem a correr atrás das canas dos foguetes lançados por Pedro Pereira: Diria que tudo o que remeta para a questão raça é em Portugal… Pedro corta: “Tabu. Perdem a compostura, toca num nervo. E há que ir por ali. É onde está a ferida. E dá para ver pelos artigos de opinião que têm saído a propósito da questão de Gorée: houve artigos que pareciam saídos do século XIX. Há pouco falava de ter acordado nos EUA num país diferente. E acho que os portugueses há muito que andam a viver num filme que não tem nada que ver com a realidade histórica. E obviamente o Estado Novo tem uma responsabilidade muito grande na manufatura desse filme mas ele vem de muito antes. E claro que este filme em que os portugueses vivem é até certo ponto compreensível porque Portugal e em menor grau a Espanha foram objeto de discriminação por parte da Europa do Norte. Aliás o lusotropicalismo, a crença de que somos colonialistas “humanos”, passe o oxímoro, é um discurso defensivo. Gostava de viver num país que tivesse uma forma mais adulta de lidar com a sua história.”
Pedro Peeira, mais uma vez, confunde escravatura, colonialismo e racismo. Mas também não sabe que o lusotropicalismo começou por ser repudiado pelo Estado Novo e que só foi adotado em determinados círculos quando o regime procurou soluções para a questão colonial e o lusotropicalismo lhe serviu para justificar a “nação pluricontinental e plurirracial”. Eu não conheço nenhum investigador português com as habilitações académicas de Pedro Pereira que não reconheça a realidade histórica do trabalho forçado baseado na raça — conceitos que estão plasmados no Estatuto do Indigenato, no Acto Colonial e já anteriormente na legislação colonial da I República. Que o Pedro Pereira ignore ou desconheça esses elementos é da sua responsabilidade e só a ele o compromete. As suas afirmações são apenas uma manifestação de atrevimento devidas à ignorância ou ao vazio do pensamento, nada de grave. Diz que: “Mas ainda se formam pessoas na escola a acreditar que Portugal, o país que mais traficou, foi o primeiro a abolir a escravatura; que em vez de ser o último a acabar com o trabalho forçado é o herói do humanismo.” Nenhuma das afirmações é verdadeira. Portugal não foi o país que mais traficou, não há qualquer prova disso — até por uma razão, o tráfico não foi uma empresa nacional. A abolição da escravatura está estudada em Portugal. E o trabalho forçado manteve-se em várias partes do mundo, sob várias formas legais, após o seu fim oficial nas colónias portuguesas, em 1961.
Ainda dentro das afirmações empíricas de vulgata de barbeiro da entrevista a Pedro Pereira: “As pessoas não sabem que o povoamento intensivo em Angola e Moçambique começou no pós-Segunda Guerra Mundial. Estão convencidas de que os portugueses controlaram todo o continente africano durante 500 anos.” As pessoas que assim pensam em Portugal correspondem às que, nos Estados Unidos, estão convencidas que é o Sol que roda à volta da Terra, por exemplo. A demagogia tem sempre rédeas compridas e Pedro Pereira garante que “A suposta neutralidade em relação à raça é uma ficção, uma ficção muito conveniente para o Estado continuar a exercer discriminação.” Ora, a neutralidade em relação à raça está inscrita, e bem, digo eu, na Constituição, assim como a neutralidade relativa às crenças religiosas e ao género. Continua: “A manutenção deste tipo de discurso só é possível porque a maioria da população é ignorante em relação à história.” — Grande descoberta! A ignorância dos povos relativamente á história das suas nações é um facto comum a todos e nisso os portugueses não são diferentes dos outros. Mais, a própria noção de povo, remete para uma específica leitura da história, que implica a ignorância, ou a desvalorização de certos acontecimentos e factos e a sobrevalorização de outros. A interpretação da história nunca é neutra e, quer o que os povos retêm dela, quer o que dela ignoram, contribui para a formar a sua identidade.
Pedro Pereira, o investigador que está na América termina a entrevista com uma sentença: “Creio que o racismo aqui (em Portugal) não é tão subtil como estamos habituados a pensar. (Ninguém sabe porque que ele entende que é subtil o que estamos habituados a pensar.) As pessoas dizem coisas nas caixas de comentários que não diriam em público até terem uma licença para o fazer. Porque há qualquer coisa nos meios eletrónicos que faz as pessoas pensarem que aquilo não é público, algo as faz sentir à vontade para dizerem as coisas mais escabrosas. E é assustador.”
O que também é assustador é alguém que se apresenta como doutorado em Estudos Portugueses e Brasileiros pela Universidade de Brown e professor na The Ohio State University fazer misturar conceitos não miscigenáveis — caso da escravatura, do colonialismo, do racismo e do trabalho forçado — confundir tempos históricos — a escravatura e o colonialismo não são sobreponíveis no tempo, por exemplo — e não apresentar sequer uma tentativa de delimitação do seu conceito de racismo, que é mais do que, como Pedro Pereira parece querer dizer, brancos escreverem coisas assustadoras sobre negros.
Também me parece que a entrevista e o destaque dado a um cidadão de tão ligeiras e confusas ideias se deve ao facto de ele ser um português que se safou lá fora. Que diz umas coisas sobre racismo: que somos racistas, colonialistas, traficantes de escravos.
São assuntos sérios e uma entrevista destas, que parte do pressuposto do “toda a gente sabe” ou “toda a gente ignora”, que dispara conceitos como tiros de bacamarte, sem lhes delimitar fronteiras, desde a escravatura ao racismo, do colonialismo à colonização, não ajuda a compreender nem a História, nem ajuda a integrar o passado no presente, mas estamos em Agosto… ine.co]]3=�k
