Carlos Matos Gomes
Nov 8 · 3 min read

A NATO em coma cerebral e a União Europeia a não se sentir nada bem

Numa recente entrevista ao ‘The Economist’, o presidente francês Emmanuel Macron considerou a NATO em coma cerebral e que UE, está à beira do precipício e enfrenta o risco de “desaparecer geopoliticamente”.

No dia 2 de Novembro participei em Sintra no I Congresso de Relações Internacionais, num painel com o título “O Mundo em risco-As relações da China e da Rússia no contexto da NATO e da UE”, tendo como companheiros o doutor João Soares, antigo presidente da Assembleia Parlamentar da OSCE, deputado do Parlamento Europeu e membro da Comissão Parlamentar de Defesa, o general Pinto Ramalho, antigo diretor geral de política do Ministério da Defesa e Chefe do Estado-maior do Exército e o jornalista José Milhazes, antigo correspondente da RTP em Moscovo.

Sobre a NATO o que disse foi, em resumo, o seguinte:

A Europa que saiu da II Guerra Mundial é uma Europa derrotada, subordinada à superpotência ocidental que dela resultou, os Estados Unidos. Um mundo em que as antigas posições europeias no planeta, as suas colónias e impérios coloniais se independentizaram sob ação das duas superpotências, os Estados Unidos e a URSS, que dividiram o mundo em áreas de influência efetiva e em que a Europa deixou de contar.

A NATO é o símbolo da derrota da Europa, de toda a Europa, com o correspondente Pacto de Varsóvia. A NATO e o Pacto de Varsóvia são os despojos que Europa passou a ser para os dois impérios vencedores na II GM. Podemos, para nosso consolo espiritual acreditar na ladainha da defesa do mundo livre, da democracia, dos valores do mercado… A realidade rasga com facilidade esse véu angelical.

Em termos de poder mundial a NATO são os Estados Unidos e o Pacto de Varsóvia eram a URSS. O Terceiro Mundo nunca foi um poder, foi uma intenção que serviu aos dois contendores para guerras por interposta entidade. Todas as guerras do Terceiro Mundo foram guerras de agentes em nome dos impérios, com exceção da guerra do Vietname, o atoleiro onde os EUA se envolveram diretamente por pesporrência, por crença na superioridade do seu arsenal e do homem branco e para marcarem uma posição estratégica.

A NATO, como o Pacto de Varsóvia no seu tempo, constitui um mero instrumento dos EUA para reunião e enquadramento de forças auxiliares em vários campos. Serve, no direito interno dos estados europeus, como cobertura jurídica para a real perda da soberania através da concessão de facilidades para instalação de forças estrangeiras e de fornecimento de forças nacionais. Serviu e serve de justificação perante a opinião pública mundial de ações dos Estados Unidos como respaldadas numa alargada de uma base de apoio. Os membros europeus da NATO, tal como os do Pacto de Varsóvia, desempenham o papel de entidades auxiliares, meios e forças de segunda linha. Milícias locais como as que Portugal utilizou na guerra colonial para as suas ações.

Quer a NATO, quer o Pacto de Varsóvia (durante a sua existência), enquanto entidades que deviam representar os estados aliados em condições de igualdade, foram afastadas dos dois programas centrais do poder das superpotências. A NATO e o Pacto de Varsóvia estiveram fora dos programas espaciais dos EUA e da URSS. A conquista do espaço, essencial para o domínio mundial, foi e continua a ser um programa nacional dos Estados Unidos e agora da Rússia, em que por vezes alguns estrangeiros amigos são levados a passear.

A NATO e o Pacto de Varsóvia estarão também de fora do outro programa essencial para o poder mundial: o programa nuclear, com a sua panóplia de ogivas e de lançadores, com a sua rede de seguimento. A force de frappe francesa foi um mero enfeite no orgulho ferido de De Gaulle e nada mais representa que um vestígio do estado de alma napoleónico que os franceses ainda cultivam.

Isto é, quando se trata do núcleo duro do poder, não existem aliados, nem partilhas. Donald Trump ainda exige aos estados europeus da NATO que paguem mais pela sua segurança contra as ameaças que os EUA levantaram nas suas fronteiras, a técnica dos grupos mafiosos de provocar distúrbios para vender segurança. Aumenta-lhes as taxas de importação de produtos e fecha as fronteiras para que nem um refugiado que os EUA causaram entre no castelo do império!

A NATO nada tem a dizer e nada disse nem fez quanto ao problema gravíssimo dos refugiados, o resultado mais visível das ações dos EUA!

Transcreverei o essencial do que disse sobre a União Europeia num próximo texto.

    Carlos Matos Gomes

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    Born 1946; retired military, historian