Facebook — alguém que quer ganhar muito dinheiro está a jogar à vermelhinha connosco. Isto é a roubar-nos e nós a ver, sem ver.

As campanhas com escândalos repentinos são por norma de desconfiar. Querem apenas significar que alguém está a utilizar uma cortina de fumo para fazer uma negociata enquanto nos distrai.

Quando a comunicação social faz eco e se junta em coro a gritar por ou contra um qualquer crime ou desgraça está apenas a ganhar dinheiro à custa da nossa ignorância e a dar dinheiro a ganhar a um novo pretendente a mamar numa qualquer teta. Está apenas a encobrir uma vigarice de grande dimensão.

Quando um político surge de rosto congestionado e voz embargada a apontar uma maldade que os outros nos estão a fazer, está apenas a sacar-nos o voto — o recente caso dos incêndios e respectivo relatório é típico. Quando um sindicalista afirma que está em greve para melhorar os serviços e beneficiar os ditos “utentes” está apenas a querer um aumento de salário. São exemplos em escala reduzida do que se passa com o recente ataque ao FB, ou à mais antiga manipulação a que fomos sujeitos com o perigo das armas de destruição em massa de Saddam antes da invasão do Iraque.

Não há preocupações grátis. Estamos sempre a ser enganados e a pagar para sê-lo.

O que vale para os políticos quanto às preocupações com os incêndios, ou os sindicalistas com o bem dos utentes, vale para a mais recente campanha em defesa da nossa privacidade pela utilização dos nossos dados pessoais pelo Facebook. A causa imediata para a campanha foi a venda de dados feita por uma companhia inglesa — Cambridge Analytica (CA) — uma empresa de análise de dados vinculada ao Partido Republicano dos Estados Unidos, que está a ser acusada de ter reunido os dados de 50 milhões de utilizadores do Facebook.

Sabendo o que sabemos hoje da matilha que dirige a empresa Cambridge Analyica é fácil concluir que estamos na presença de um bando de tipos capazes de tudo:

- Aleksandr Kogan, moldavo, o cérebro. Por intermédio da sua empresa Global Science Research (GSR), desenvolveu a aplicação “ThisIsYourDigitalLife” e adquiriu dados pessoais no Facebook, que foram posteriormente disponibilizados e entregues à Cambridge Analytica. Tudo dentro da legalidade e de acordo com os termos de utilização daquela rede social. Ainda assim, reconhece Kogan que deveria colocado mais questões sobre o assunto.

- Alexander Nix, o CEO, desempenhou um papel importante na eleição de Donald Trump, na pesquisa de dados e nas análises em que se baseou toda a estratégia. Nix foi analista financeiro antes de se unir a uma sociedade britânica de marketing.

- Christopher Wylie, o informador, ligou o estudo de personalidade ao do voto político. Trabalhou com Steve Bannon, ex-conselheiro estratégico de Trump.

- Robert Mercer, o financiador, fez fortuna nos fundos de investimento. é dos mais generosos na financiador do Partido Republicano.

- Steve Bannon, o ideólogo da campanha de Trump.

Gente vulgar no meio da política e da finança que nos governa (quem governa os Estados Unidos governa-nos). É gente como esta que está aos comandos da campanha em defesa da nossa privacidade! Missionários em via de santidade!

Porque carga de água surge o escândalo do FB que, pelo vistos, foi apenas a mula” que forneceu os dados de 50 milhões de americanos, de forma legal, ao que parece?

Tipos como estes estão, estiveram, estarão preocupados com a “invasão de privacidade” de quem quer seja? Gente como esta age de acordo com qualquer moral, em nome de qualquer outro princípio que não sejam os seus interesses? As hienas passaram a comer de garfo e faca e a limpar os beiços depois do banquete? Milagre! Mas há quem acredite em milagres.

Parece evidente não existir qualquer preocupação com direitos e garantias por detrás do ataque ao FB. Contudo a comunicação social (vendida ou comprada) não ataca os manipuladores da Cambridge Analytica, mas ataca o FB. Isto é: são os criminosos que utilizaram o FB que o acusam de ser perigoso!

Através da manipulação da comunicação social, a equipa do Steve Bannon coloca-nos a olhar para a ponta do dedo — os segredos que partilhamos no FB — enquanto eles maquinam na sombra para obterem o que pretendem: o controlo do FB e das informações sobre nós que ele agrega!

Este grupo de gângsteres (é de gângsteres que se trata) pretende apoderar-se do FB e utilizá-lo em seu proveito e segundo as suas regras.

Em termos simples: estamos a assistir a uma manobra para substituir Mark Zuckerberg por Steve Bannon, o chefe do Breitbart News, a plataforma da ‘alt-right’”, a “direita alternativa”, a marca mais recente da extrema direita norte-americana e que lidera agora uma estratégia para apresentar rivais nas primárias para escolher senadores republicanos para as eleições de 2018 e os negócios mundiais nos próximos anos.

Este grupo de extrema-direita lançou a campanha para destruir a marca FB e substituí-la por outra (com outro nome e as mesmas funcionalidades), sob a sua direcção, que herde as suas bases de dados e os seus métodos para os utilizar em seu proveito.

A comunicação social embarca e amplia a histeria sobre a privacidade para que os gângsteres realizem o seu golpe.

Quanto a privacidade individual, cidadãos comuns: esqueçam e sorriam. Estão sempre a ser filmados e roubados, tanto quanto passam numa portagem de auto-estrada como quando preenchem um visto de entrada num país, ou entregam o impresso dos impostos.

Este texto não é uma bênção ao FB, mas é um alerta para uma gigantesca operação de manipulação da opinião pública. Mais uma.