O imperialismo e a lógica de destruição massiva. A morte dos frangos

A ordem dos factores devia ser alterada. A destruição massiva resulta da lógica do imperialismo. O imperialismo é, sob qualquer ponto de vista e em qualquer época, antes ou pós-revolução industrial, um sistema predador de recursos. Um sistema de destruição massiva de recursos, do qual os privilegiados do império aproveitam o sumo, a nata. (Os ricos sempre mais ricos, dizem as estatísticas.) Nada de novo, portanto, sob o ponto de vista de destruição massiva de recursos. Os grandes impérios agrícolas do Egito, ou da China praticaram-no, os grandes impérios coloniais da Espanha, ou da Inglaterra também, os impérios de comércio esclavagista como o português e o árabe igualmente. Os impérios industriais e pós-industriais, como os Estados Unidos seguiram a História conhecida dos impérios.

A grande novidade do império sob Trump é que este já não promove apenas a destruição massiva de recursos exteriores para se fortalecer e para enfraquecer os inimigos reais ou potenciais, mas destrói os recursos internos. O império, na versão administração Trump, começou a comer-se a si próprio. Fez sentido, num determinado momento histórico, que o império americano utilizasse armas nucleares, fez sentido promover a fome e epidemias em largas zonas do planeta — por ação ou omissão — do paludismo à cólera, do HIV ao Ebola. O elemento novo que a corte Trump traz à História dos impérios é a do império autofágico.

O império Trump é autofágico. Até agora, quando um império alterava o seu paradigma de produção — isto é, quando passava a ter mais seres humanos do que aqueles que necessitava para produzir e consumir, promovia uma guerra para eliminar os excedentes. A industrialização do norte dos Estados Unidos provocou a guerra civil, a tal de que Trump ouviu falar. A máquina a vapor provocou o fim da escravatura, o colonialismo e a I Grande Guerra. O motor de combustão interna e a electricidade provocaram a II Guerra Mundial….

A automatação, a cibernética, a miniaturização, a democratização tecnologica estão a provocar as várias formas de eliminar pessoas que vemos sem ver. O irreversível desemprego europeu e americano (que Trump e Le Pen escamoteiam), os milhões de mortos em África, com as vagas de migrantes, o caos do Médio Oriente… Até agora nada de radicalmente novo. De facto. De facto, radicalmente nova é a atitude de Trump relativamente ao Obamacare!. Pela primeira vez um imperador (ou alguém que trata dos assuntos pelo símio loiro) decidiu eliminar cidadãos do centro do império. Nenhum imperador impediu os cidadãos de Roma, mesmo os pobres de tomarem banho nas termas públicas!

Dos 24 milhões de americanos que ficarão excluídos dos cuidados primários de saúde, muitos deles morrerão por ordem expressa do imperador. Morrerão não porque este imperador seja mais perverso que outros anteriores, ou mais criminoso, ou ainda menos dado a sentimentos do que antecessores, mas porque o império chegou ao ponto de ter de destruir os seus filhos, os seus recursos para manter o lucro da minoria de senadores e multimilionários. O fim do Obamacare é semelhante ao acto das grandes cadeias de aviários que, num dado momento, decidem matar milhões de frangos, ou de pintos para manter os preços e as taxas de lucro.

A morte da percentagem de americanos que morrerá sem assistência é apenas um preço que todos terão de pagar para viverem no tão incensado sistema que é o capitalismo. Dir-lhes-ão que os outros sistemas também têm os seus custos humanos, das câmara de gás aos gulagues, pois têm,.. mas a morte com uma pneumonia é uma morte com uma pneumonia, seja na Sibéria onde não há antibióticos, seja numa rua de Nova Iorque para quem não tenha um seguro de saúde.