Salvador e a Mãe do Salvador — A nova religião de Fátima

Todos os povos elegeram um mito com o qual se identificam. O mais vulgar é o mito do Criador, mas em Portugal o eleito foi o do Salvador. O concurso para o maior português da história deu como resultado Salazar, que salvou Portugal da II Guerra Mundial. Apenas por graça, o recente vencedor do concurso de canções da Eurovisão chama-se Salvador e foi sagrado a 13 de Maio, no dia em que o Papa de Roma validou a importância de Fátima para a salvação do mundo!

O português interiorizou que o Criador do mundo não criou grande coisa em Portugal, por isso os portugueses necessitam tanto de emigrar como de um Salvador. Opõem o Salvador ao Criador, a peregrinação à instalação.

Das peregrinações, os portugueses recuperaram a figura da “mulher grande”, a mãe ou a tia do chefe, a mais decisiva entidade das culturas ditas primitivas de África na recolha e distribuição dos benefícios do poder. Mais do que a aventura de darem novos mundos ao mundo, o génio dos portugueses manifestou-se na escolha da mãe do Salvador para os proteger. O Criador expulsou os homens do Paraíso, dizendo-lhes: “Desenrasquem-se!” Abandonados à sua sorte, os portugueses procuraram uma aliada para a tarefa de se salvarem, ou safarem!

Os portugueses não acreditam no regresso ao Paraíso, nem na regeneração dos humanos, nem numa segunda vida. Os cemitérios são a última morada. Ir para os anjinhos é morrer. Por isso desenvolveram uma religião adequada à sua descrença. Fátima é, porventura, a grande religião dos descrentes! A descrença num deus criador é a causa do sucesso de Fátima. Fátima é a religião dos que, sabendo como o mundo é, pedem à deusa mãe que os preserve das desgraças, que elas caiam sobre outros!

Fátima, ao contrário da mentira posterior à sua consagração como altar da descrença do mundo, não nasceu da necessidade de reconversão da Rússia ao capitalismo (em 1917 o capitalismo não chegara à Serra de Aire, nem sequer à universidade de Coimbra), mas do facto de Portugal se ter metido na I Grande Guerra, quando teria sido possível ficar de fora (Tancos, o campo de mobilização de tropas para a Flandres, fica perto). Salazar, um cínico, comungava da religião dos descrentes, daqueles que, como ele, desejavam sobreviver imitando as perdizes, imobilizando-se para os predadores não as verem.

Em Roma, o Cristo judeu agitador da Palestina, crucificado em Jerusalém, foi substituído pelo Cristo romano e imperial de Constantino. Em Fátima, este Cristo Rei exuberante do catolicismo de Roma foi, por sua vez, substituído pela modéstia da sua mãe e de três rústicas crianças, instaladas à volta de uma raquítica azinheira. Com esta mudança emergiu uma nova religião, a dos sem fé na justiça dos deuses e dos homens, a dos que pedem o milagre da salvação enquanto vítimas do egoísmo, do individualismo, da sujeição ao mais forte, ao mais crápula, ao saque e à agiotagem.

O culto mariano, que atrai a Fátima milhões de demandantes de milagres, resulta da entranhada desconfiança dos portugueses na justiça. Para os fiéis da religião de Fátima, as iníquas leis do Mundo não podem ser alteradas, mas os portugueses encontraram na Cova da Iria a melhor “cunha” para escaparem à irremediável injustiça através de três pobres crianças. Estas são, justamente, os primeiros santos a subir aos altares da nova religião. A intensidade do culto à “mamã grande” em Portugal, à “Nossa Senhora”, é a resposta dos portugueses ao sentimento de impotência dos homens perante o seu Criador.

A gigantesca promoção da vinda deste Papa — lavagem ao cérebro sem precedentes — revela que a Igreja Católica entendeu os riscos da concorrência que a mensagem dos descrentes faz à Roma imperial. Quer manter Fátima no seu portfolio de fontes de receita e de instrumentos de manutenção da ordem. Mas não só.

Os cardeais de Roma sabem que uma civilização e uma época mudam quando mudam os deuses. Os sacerdotes do deus de Roma sabem que se aproxima um corte civilizacional, com novos senhores do mundo, redistribuição de poderes e de injustiças; não querem ser o lixo da velha ordem. Anteciparam-se trocando um papa dos deuses antigos por um exótico Francisco. Perceberam a possibilidade de Fátima ser a sede da nova grande religião do Ocidente, que destronará o imaginário da velha Roma e arruinará o casino da Roma de Wall Street. Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa ofereceram-lhes um novo altar, um grande palco para apresentarem o seu novo espectáculo!

Em Fátima houve mais do que o folclore exibido pelas televisões. O 13 de Maio de 2017 foi uma impressionante manifestação de medo e de súplica a um salvador para que realize o milagre de afastar a tempestade. Portugal é o local certo para pedir a vinda de um Desejado salvador. Os portugueses levam meio milénio de avanço e de experiência à espera de um!

Publicado em http://www.incomunidade.com/v56/

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