VOCÊ JÁ PAROU PRA PENSAR EM QUANTO TEMPO DA SUA VIDA VOCÊ PASSOU ODIANDO OUTRAS MULHERES?

Hoje eu li o comentário de uma amiga no facebook ( Dafne Braga) e parei pra refletir sobre como eu passei a maior parte da minha vida odiando outras mulheres.

Eu tentei buscar minha memória mais antiga, o que me lembrou de uma época que eu tinha não mais do que cinco anos. Ia ter um teatro na escola, eu fui a primeira sorteada pra escolher qual personagem eu queria ser. Eu escolhi ser a morte. Em todos os teatros antes desse, que não era por sorteio, as meninas mais bonitas e mais populares da escola eram escolhidas pra princesas ou pras personagens principais. Eu achei que ser a morte ia chocar. Eu tinha raiva de todas as princesas. Eu não podia brincar com elas. Eu era feia e gorda. Elas me odiavam por isso. E eu já odiava elas, e quis mostrar isso publicamente ao ser a morte.

Quando eu fiz sete anos, e formei no pré fizeram um teatrinho, as meninas bonitas e magras eram bailarinas e princesas. Eu e mais quatro amiguinhas gordas éramos as damas de companhia da princesa. Eu odiei minha melhor amiga porque ela era bailarina. Eu sabia, a partir daquele momento que o mundo era dividido entre as mulheres bailarinas e as mulheres damas de companhia. E que era o meu peso e minha aparência que determinava isso. Eu, aos sete anos, fui ensinada que as mulheres devem de agrupar segundo sua aparência física. Que eu não devia me misturar. Então, só me restou o desprezo em relação à amiga que eu mais gostava.

Depois, um pouco mais velha, com cerca de oito anos, teve outro sorteio para outro teatro da Escola. Fui sorteada pra ser a princesa. Dessa vez eu realmente queria ser a princesa. E as meninas bonitas da escola ainda não brincavam comigo, ainda não me deixavam participar dos jogos delas, ainda riam de mim na Educação Física. Mas dessa vez, eu é que seria a princesa. Eu me imaginei naquele vestido. Mas uma menina, das que nunca me deixaram brincar com elas, me pediu para ser a princesa, o pai dela havia morrido há pouco tempo. Eu fiquei comovida, com a história do pai, e troquei com ela. Ela não foi a princesa, uma outra menina, do grupo das populares acabou sendo. Eu odiei as duas, me roubaram minha chance de mostrar que eu tinha valor. Eu demorei alguns anos para voltar a gostar delas, ainda que nós estudássemos juntas.

Aos onze anos, eu tinha um grupo de amigas que eu gostava muito, mas eu era muito carente e ciumenta, e tinha ciúmes em particular de uma delas que eu achava mais bonita que eu. Lembrando que eu sempre fui uma criança gordinha, o que era motivo de zuação na escola e sempre ser a última a ser escolhida na Educação Física. Não me lembro bem, mas acho que eu tinha ficado sabendo de uma fofoca que ela tinha dito que eu era gorda, ou talvez não. Eu chamei ela de feia e disse que ela não tinha bunda — sim, eu tinha onze anos e já achava que as meninas precisavam ter bundas. Ela ficou muito magoada e chorou. A mãe dela conversou comigo. Eu me senti muito mal, porque quando a mãe dela falou da tristeza dela eu sabia que aquilo era real, eu sabia como doía ser julgada pela minha aparência. Eu tinha onze anos e já sabia disso. E já machucava outras mulheres propositalmente por causa da aparência delas.

O tempo passou e eu comecei a andar muito com uma prima minha que era muito bonita, cabelos loiros e magra. A gente se gostava muito, ela era minha melhor amiga. As amigas dela todas eram mais bonitas do que eu. Alisavam os cabelos, pintavam as unhas. Elas atraíam a atenção dos meninos. Elas ficaram com meninos primeiro do que eu. Elas me julgavam porque eu nunca tinha ficado com ninguém e me falavam isso. Eu dei meu primeiro beijo num garoto que eu não queria porque me disseram que se eu não fizesse aquilo, ninguém ia me querer. Eu me comparava a elas o tempo todo, eu queria ser elas. Eu precisava me afirmar como mais inteligente do que elas para me defender. Eu adorava aquelas meninas, e odiava elas ao mesmo tempo. Eu me odiava, e fazia de tudo pra me encaixar, dietas, exercícios, salão. Eu tinha uns 13 anos.

Eu cresci um pouco mais, e comecei a andar com a “turma do rock”, comecei a me importar menos com meu peso, com minha aparência. Comecei a adotar propositalmente um visual descolado. Fiz 13 piercings, pintei o cabelo de vermelho, adotei um visual rebelde como forma de me proteger mais uma vez do julgamento sobre o meu peso, sobre meu cabelo cacheado, sobre minha aparência. Radicalizar foi meu modo de ter domínio sobre mim, ao menos era o que eu achava. E eu passei a odiar as “patricinhas”, a falar que elas eram fúteis e criticar o modo de vida delas. Eu comecei a preferir ter amigos homens e ser a “descolada” da turma. Mas, eu ainda queria ser aceita pelos homens. Eu ainda queria ser bem quista, bem amada. Eu passei a odiar todas as mulheres e acreditar que “eu não era como elas”.

Mais ou menos nessa época aconteceu um escândalo no colégio, uma menina fora flagrada nuns amassos um pouco empolgados demais numa festa e todas nós passamos a odiar essa menina. Eu me sentia, na verdade, mal por ela, por ela não ir mais à escola e algo me dizia que aquilo era normal. Mas, eu não tentei me aproximar dela nesse momento difícil porque eu não queria ser vista com a menina que fez um boquete. Eu não fui solidária a ela. Podia ter acontecido comigo. Mas eu fiz o que todo mundo fez, isolei a menina.

Depois, por um tempo eu fiquei bem comigo mesma. Consolidei minha amizade com essas pessoas que não eram do colégio, e com algumas meninas do colégio, um pouco mais velhas. Eu arrumei um namorado que parecia gostar de mim como eu era. E assim, eu vivi os dois últimos anos da adolescência.

Então, eu mudei de cidade, fui para NY, conheci o feminismo, por meio de campanhas de legalização do aborto. E foi aí que eu comecei a desconstruir um pouco a disputa que me ensinaram a ter com outras mulheres. Comecei a perceber a importância de ler autoras mulheres, ver filmes de mulheres e essas coisas. Mas, aprendi um outro ódio, eu passei a julgar e odiar as mulheres que não eram feministas.

E trouxe isso de volta pro Brasil, e pra Faculdade. Eu nunca procurei conhecer as minhas colegas de sala que eu julgava patricinhas de direita. Eu dava mais importância à fala dos companheiros homens no movimento estudantil. Eu odiei a ex-namorada do meu então namorado, eu quis que ela se magoasse, eu queria que ela visse nosso amor e que isso doesse nela. Eu ainda tinha — e tenho — muito a aprender sobre o feminismo. E nisso, eu já era adulta. Eu já tinha meus vinte poucos anos de aprendizado de que as mulheres devem competir entre si.

Ao longo da minha vida, eu vi as outras mulheres como inimigas. Eu jogava nelas a culpa de um sistema que me oprimia porque eu não encaixava num padrão de beleza. Eu achava que as mulheres eram burras, fúteis, fofoqueiras. Mas, eu fui conhecendo o feminismo, e as feministas e fui aprendendo a amar outras mulheres. Sabe o namorado que eu falei, aquele que eu disse que odiei a ex? Então, ele me contou de uma mulher que ele ficou quando nós terminamos e eu ainda amava ele. Ele tentou me contar detalhes da vida dos dois. Eu fui forte o suficiente para dizer a ele que eu não queria que ele expusesse uma mulher, e que eu não queria que ela sofresse o que eu sofri. Eu pedi a ele que não machucasse ela. Eu amei essa mulher sem conhecê-la. E hoje, todos os dias, eu faço um pequeno esforço para acreditar, confiar e amar outras mulheres. Porque foi outras mulheres que me apoiaram e me acolheram quando eu fui agredida. E amar outras mulheres me ensinou a me amar. É uma ruptura difícil, porque eu tinha cinco anos quando me contaram que princesas eram melhores, eu tinha sete quando me disseram que gordas não serviam para bailarinas, eu tinha onze quando me disseram que mulheres tem que ter bunda, eu tinha treze quando fui forçada a beijar alguém porque mulher solteira é feio, e assim por diante. Eu fui ensinada e criada em um sistema em que mulheres são objetos, não são seres humanos, com emoções, experiências e coisas boas a ser compartilhada. Me mandaram competir, não me contaram que nós dividíamos os mesmos dramas. Hoje eu sei, e por isso, peço a todas vocês, pelo menos por hoje, amem outras mulheres, leiam livros de outras mulheres, escutem músicas de outras mulheres, vejam filmes dirigidos por mulheres, peçam informação a uma mulher, confiem em uma mulher. Sua vida vai ser bem melhor!

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