Quando em fins do século 19 e começo do século 20 o governo neorrepublicano pensou em desenvolver a região Sul do Brasil, especialmente para intimidar os argentinos que por aqui grassavam a fim de reivindicar a propriedade do território entre o Paraná e Santa Catarina, não contava com um inimigo determinado e guerreiro: o próprio povo brasileiro que aqui vivia. Essa é a premissa de um dos maiores conflitos da história do Brasil, que ceifou pelo menos 10 mil vidas e fez brasileiros lutarem contra brasileiros, os mais fortes em favor do capital estrangeiro, configurado na Brazil Railways, empresa do estadunidense Percival Farquhar que viu na estrada de ferro que ligaria São Paulo ao Rio Grande do Sul uma ótima oportunidade de somar grandes lucros.

Conta o escritor Nilson Thomé, em sua obra “Civilizações Primitivas do Contestado”, que há mais de 15 mil anos já havia vestígios de seres humanos pela América do Sul que, muito provavelmente, andaram pelo hoje Planalto Norte Catarinense.

Eram asiáticos que, não se sabe se de forma natural ou mediante algum conflito, se mesclaram com os índios Guarani, do grupo Tupi, Kaigang e Xokleng que, por sua vez, tiveram contato com os bandeirantes paulistas no século 18, resultando no caboclo que faria a defesa da terra durante a guerra iniciada em 1912.

Caboclos durante missa

Esses caboclos viviam da terra e para a terra. Não tinham trabalho fixo e comiam o que colhiam. A negligência do Estado não lhes fazia falta porque simplesmente não sabiam o que o Estado poderia oferecer. Contanto que os deixassem em paz, estava tudo certo.

Na cruzar dos séculos 19 e 20 tudo mudaria com a concessão para construção da estrada de ferro, que veio por meio de uma contrapartida bem interessante. Em 1903, a Companhia Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande recebeu autorização especial do Ministério da Viação e Obras Públicas para explorar a madeira existente na zona privilegiada de 15 quilômetros para cada lado do eixo principal da linha tronco Itararé-Rio Uruguai e seus ramais, além do que pudesse tirar dos terrenos marginais.

Percival Farquhar

Em 1906, a Companhia foi absorvida pela Brazil Railways e, em 1909, Percival Farquhar organizou a Southern Brazil Lumber and Colonization Company para colonizar as terras ao longo da estrada de ferro e devastar os pinhais existentes nos vales dos rios Negro, Iguaçu, Timbó, do Peixe e Canoinhas, dentre os rios que atravessavam a região que, além de cobiçada pela Argentina, era contestada por Paraná e Santa Catarina. Nessa época, Três Barras, por exemplo, pertencia ao Paraná, mas era reivindicada por Santa Catarina. Essa questão, no entanto, pouco teve a ver com a Guerra, que foi, de fato, uma insurreição à entrega de território já habitado ao capital estadunidense. Mas e a Guerra do Contestado?

“ O Contestado em si não teve guerra. Paraná não guerreou com Santa Catarina. E nem Santa Catarina foi guerrear com o Paraná. Eu costumo questionar assim: quantos catarinenses o Paraná matou? Quantos paranaenses os catarinas mataram? Não tivemos isso!”,

afirma o historiador da UnC Mafra, Sandro César Moreira.

Sandro César Moreira, historiador de Mafra

O QUE FOI A QUESTÃO DO CONTESTADO?

Quando souberam da exploração das terras contestadas pelo capital estadunidense, os coronéis que aqui conviviam pacificamente com os caboclos que invariavelmente eram seus funcionários, trataram de, valendo-se dos favores do Estado, legalizar as terras ocupadas por eles e até então sem grande valor. Os mais simplórios que também ocupavam o território mal sabiam o que era um cartório.

Livro Trem de Ferro detalha implementação da ferrovia na região contestada
“Dessa forma, os governos de Santa Catarina e do Paraná não relutaram em expedir indiscriminadamente títulos de posse aos influentes fazendeiros da região, cada qual objetivando firmar domínio administrativo sobre o Contestado”,

conta Nilson Thomé no livro “Trem de Ferro”.

Quando a ferrovia foi construída, boa parte das terras já não eram mais devolutas porque os coronéis tinham posse legal das propriedades. Para aumentar a combustão, dos mais de oito mil homens que trabalharam entre 1908 e 1910 na construção da ferrovia, boa parte ficou por aqui, nas terras que os estadunidenses pretendiam explorar e colonizar.

Em 1911, blindados os coronéis, quem ocupava a área foi expulso sumariamente pela Brazil Railways. A ideia era destruir as florestas e colonizar a área. Para processar a infinidade de pinheiros que por aqui existia, foi justamente em Três Barras que Farqhuar montou a Southern Brazil Lumber & Colonization Company, a maior serraria da América do Sul, nunca igualada em tamanho.

Vista parcial da serraria da Lumber, em Três Barras

Poupando apenas os coronéis e políticos influentes que tinham fazendas às margens da ferrovia, cumprindo, vez ou outra, o “favor” de “limpar” os terrenos dos ricos, derrubando árvores nativas, abrindo espaço para pastagem, a Lumber avançou expulsando os “posseiros” de suas terras. Depois de expulsá-los das terras adquiridas e de extrair a parte mais valiosa, a madeireira executaria a segunda etapa de sua finalidade, vendendo gradativamente os terrenos a imigrantes.

LUTA SANGRENTA

Muitos “posseiros” reclamavam ao governo o direito à usucapião e a concessão era sumariamente negada. Aos que resistissem, era enviado o Corpo de Segurança, “que nunca falhava em suas missões assassinas”, pontua Thomé no livro “Trem de Ferro”.

O capitão do Exército Matos Costa fez importantes declarações na imprensa mostrando que a história oficial não estava muito comprometida com a verdade.

Matos Costa
“Os jagunços queixam-se que os coronéis e outros chefes políticos lhe tomaram as terras que habitavam e agora lhes impedem de recorrer às terras devolutas do Governo por se terem também delas se apossado pessoas conhecidas e quem tem facilidade de obter dos governos grandes territórios nos dois Estados”,

disse o capitão que em setembro de 1914 foi morto pelos rebeldes que defendeu durante um dos vários conflitos na cidade que hoje leva seu nome.

Nos primeiros dias de setembro de 1914 foram assaltadas as fazendas dos Araújo e dos Gordos, nos campos de São Roque, nas primeiras ações ofensivas dos rebeldes. No dia 5 foi a vez das instalações da Lumber em Calmon. Os rebeldes surpreenderam os funcionários da empresa, provocando uma verdadeira chacina e transformando a serraria em cinzas.

Segundo Demerval Peixoto, uma espécie de cronista da expedição militar liderada por Setembrino de Carvalho, “o céu cor de brasa anunciava a calamidade. Estava começando a guerra!”.

O professor Moreira contextualiza:

“onde eles puderam destruir foi destruído. Foi uma tentativa de se manter nas terras, na área onde a família desse povo sempre esteve. E lutando contra quem, para eles, eram os invasores. Os invasores coronéis, os invasores da estrada de ferro, a invasora Lumber, que derrubava 1.200 árvores por dia”.

A dificuldade com que João Alves escuta, aos 96 anos, contrasta com a atenção que dedicava ao pai e a um vizinho, quando criança.

João Alves, aposentado que vive em Canoinhas

Sentado em um banquinho ao lado dos dois, ouviu as mais impressionantes histórias da Guerra do Contestado na melhor versão possível: a de quem viveu o conflito. As histórias que ouviu falam tanto das atrocidades do governo e da guarda da Lumber como de rebeldes que usaram o conflito para cometer as mais diversas atrocidades.

O último ato da Guerra do Contestado foi em julho de 1916. Adeodato Ramos havia passado boa parte do inverno catarinense daquele ano embrenhado na mata, fugindo de seus perseguidores. Depois de uma noite de geada, o último líder rebelde estava exausto. Ao sair da mata e sentar-se à beira da estrada para se aquecer ao sol, foi flagrado por uma patrulha. O “temido facínora”, o “sanguinário chefe dos fanáticos”, o “flagelo de Deus”, como o descreviam os jornais, entregou-se sem nem sequer esboçar resistência.

Adeodato Manoel Ramos, preso em Desterro

A captura dele, na virada de julho para agosto, marcaria o fim da guerra que se arrastou por quatro anos e transformou a região no palco da revolta mais sangrenta do século 20 no Brasil. O capítulo derradeiro, que encerrou a última questão pendente do Contestado, foi o acordo de limites entre Paraná e Santa Catarina, assinado em 20 de outubro de 1916. Pressionados pelo presidente Wenceslau Braz, cada um dos dois estados teve de ceder um pouco. A partilha, porém, foi vista como favorável aos catarinenses, que ficaram com 28 mil, dos 48 mil quilômetros quadrados da área contestada.

Na assinatura do acordo, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, o governador de Santa Catarina, Felipe Schmidt, comemorou a paz, encerrando um “passado amargo” que fazia os dois estados se olharem com desconfiança, como “dois povos estranhos que aguardassem, de arma em punho, a hora da peleja”.

O governador do Paraná, Affonso Camargo, também exaltou a paz, mas deixou claro o ressentimento com um desfecho que considerava injusto. Ele justificou sua decisão de assinar o acordo mesmo assim citando a necessidade urgente de encerrar uma “luta fratricida sem precedentes”.

Pacificada a questão, a Lumber voltaria a montar a serraria em Calmon.

Casa de madeira, em Calmon, nas proximidades de onde ficava a serraria da Lumber

Em 1940 venceu o prazo de 50 anos dado pelo Governo para que a empresa devolvesse as terras exploradas. Getúlio Vargas promoveu, então, a encampação de todos os bens da Lumber. Parte foi vendida, outra parte doada e a maior serraria da empresa, em Três Barras, foi entregue ao Exército, que tem, até hoje, um campo de instruções na área.

MESSIANISMO

Um dos aspectos mais marcantes da Guerra do Contestado foi o messianismo. Dos três líderes religiosos que passaram pela região, o que teve ligação direta com a guerra foi José Maria, que seguia a tradição de outros dois curandeiros que haviam passado por aqui anos antes e eram considerados “monges” pelos sertanejos. Ele também fazia profecias. Contra a República, que segundo ele havia entregue a terra do seu povo ao capital estrangeiro, anunciava uma monarquia celestial em que todos viveriam em comunhão, dividindo bens.

Esta foto, embora muitos atribuam a João Maria, o primeiro monge, é, na verdade, do segundo monge a aparecer por aqui, conhecido como João Maria de Jesus. Do primeiro, não há fotos

Os seguidores do monge haviam sido expulsos de suas terras. A partir daí, José Maria e os fiéis se instalaram em Taquarussu, nos arredores de Curitibanos, hoje território catarinense. Temendo que o grupo fosse usado por inimigos políticos, um poderoso coronel da cidade pediu ao governo catarinense tropas para dispersar um “ajuntamento de fanáticos” que supostamente queria proclamar a Monarquia no Sul do Brasil.

Ao saber que a força policial havia sido chamada, os fiéis fugiram para Irani, localidade que à época pertencia ao Paraná, mas que hoje é cidade catarinense. A chegada do grupo foi vista equivocadamente pelo Paraná como uma investida de Santa Catarina para forçar a posse do território contestado. Em resposta, o Paraná enviou um destacamento policial para expulsar os supostos invasores. Em outubro de 1912, a ação terminou de forma trágica, com 21 mortos. Entre eles, o monge José Maria e o comandante das forças de segurança do Paraná, coronel João Gualberto.

Depois da morte do monge, os devotos se dispersaram. Esse foi o único episódio da guerra que confundiu a luta pela terra dominada pelos estadunidenses com a questão de limites entre Paraná e Santa Catarina. Apesar de Irani ter um monumento construído pelo Governo catarinense como marco da Guerra do Contestado, esse conflito inaugural foi o primeiro e único dos quatro anos da Guerra ocorrido na cidade. Todos os demais conflitos aconteceram em maior intensidade no território hoje pertencente a Canoinhas, Porto União, Irineópolis, Caçador, Calmon, Matos Costa, Curitibanos, Timbó Grande e Lebon Régis.

O messianismo, porém, permaneceu. Em 1913, difundiu-se a crença de que José Maria voltaria do céu, acompanhado do “Exército Encantado de São Sebastião”. Uma criança de 11 anos dizia ver o monge em sonhos pedindo aos fiéis que se preparassem para uma guerra santa. O grupo rebelde voltou a se reunir em Taquarussu, formando o “Exército Encantado”. Cansados de tantas injustiças, os caboclos decidiram agir pela força. O Natal de 1913 iniciaria a fase mais violenta da guerra que vai até agosto de 1914, quando o movimento perde as características típicas do messianismo que carregava como bandeira a monarquia por ideal, o divino por bandeira e São João Maria como guia espiritual. Nesse período, o Governo fez várias tentativas de dispersar os rebeldes, todas sem sucesso. Só conseguiu exterminar os revoltosos quando elegeu Setembrino de Carvalho como comandante das tropas em setembro de 1914.

De agosto a dezembro daquele ano, os revoltosos empregaram os atos mais violentos. Com pouca comida e abrigando todo o tipo de gente nos seus redutos, muitos deles criminosos que se aproveitaram da situação para saquear e matar, novos líderes e novos motivos para lutar surgiram então. Desde julho daquele ano, quando Canoinhas foi invadida, intensificaram-se os assaltos às fazendas e povoados.

“Caboclos, fanáticos, bandidos, eram todos considerados jagunços pelos que não aderiram ao movimento”,

pontua Nilson Thomé no livro “Trem de Ferro”. Foi então que, sob o comando de Carvalho, o Exército Brasileiro mobilizou quase todo seu efetivo para reprimir a insurreição. Em um primeiro momento, a chegava de Carvalho não intimidou os rebeldes, que promoveram vários ataques, inclusive à serraria da Lumber em Três Barras.

Com uma nova estratégia de guerra e um contingente de oito mil homens, cercando reduto por reduto, se certificando que os rebeldes se enfraqueceriam com a privação de água e comida, Carvalho foi, aos poucos, ganhando batalha por batalha. Em 7 de abril de 1915, as tropas do governo voltaram para casa, deixando para trás os corpos de milhares de rebeldes.

OS BONS TEMPOS DA LUMBER

Se por um lado a Lumber trouxe destruição e tirania, por outro, Três Barras jamais veria tamanho desenvolvimento. A maior serraria de todos os tempos montou um moderno hospital, uma vila com aquecimento elétrico e um cinema na cidade. Tudo o que havia do bom e do melhor em termos de tecnologia nos Estados Unidos aqui estava.

Miriam Madalena Ulba da Silveira, professora aposentada que vive em Três Barras
“Sinto saudades do cinema. Tinha cinema no Rio de Janeiro e em Três Barras no tempo da Lumber. Era muita coisa boa. Tinha o Três Barras Esporte Clube que era muito bacana também. Era o time de Três Barras de futebol. Eu era torcedora fanática”,

conta Miriam Madalena Ulba da Silveira, que ainda hoje mora em uma casa construída próximo da antiga Lumber logo depois do fim da Guerra.

Aos 96 anos, Amélia Euba, tia de Miriam, ainda lembra dos “bons tempos da Lumber”. Conta que o pai veio do Líbano em 1919 e abriu uma pequena loja no centro de Três Barras, onde ela nasceu.

Amélia Euba, comerciante em Três Barras
“Tive uma infância muito alegre. Os americanos faziam muitas festas. Vinham muitas pessoas de fora”,

conta. Nessa época, a estação ferroviária movimentava o então distrito, emancipado em 1963. Era por meio da estação que os chefes da Lumber se locomoviam e muitos materiais da empresa chegavam ao distrito.

“Sinto muita saudade de frequentar o cinema”,

recorda. No terreno onde hoje está o Campo de Instruções Marechal Hermes (CIMH), do Exército Brasileiro, o antigo hospital de madeira virou escritório e o antigo cinema caiu aos pedaços em 2013. Projeto para montar uma réplica já foi inscrito no Instituto Nacional do Patrimônio Histórico (Iphan), mas de concreto nada foi feito.

Depois de 66 anos nas mãos do Exército, a prefeitura de Três Barras reivindica ao menos parte da área entregue por Getúlio visando a expansão do centro do Município. Para o prefeito Elói Quege (PP), o Campo de Instruções atrapalha o desenvolvimento da cidade, opinião compartilhada pelo prefeito eleito Luiz Shimoguiri (PR), que assume em 2017.

Fim de sessão no Cine Lumber

Para Miriam, a extração como única fonte de renda não fez bem para Três Barras:

“ Deixaram de fazer lavoura, essas coisas que o pessoal tinha aqui e deixou de desenvolver a cidade. As cidades que têm agricultura são muito mais desenvolvidas do que a gente. Às vezes cidade menor que a nossa”.

Amélia concorda com a sobrinha:

“(Três Barras, na comparação com a época da Lumber) decaiu muito, principalmente para o nosso comércio aqui na Vila e a sociedade também era muito boa. Vinha gente de fora para as festas aqui. Os estudantes de Curitiba vinham em bailes aqui. Era um tempo muito bom na nossa mocidade”.

PELOS TRILHOS DO TREM

Os olhos de Adair Dittrich passeiam marejados pelo prédio decrépito onde um dia funcionou o Restaurante Gobbi. Anexo à estação ferroviária de Marcílio Dias, o restaurante e o hotel da família Gobbi eram símbolos da prosperidade que a vila de Canoinhas experimentou durante a época de ouro das ferrovias.

Adair Dittrich, médica canoinhense

Quando nasceu, em 1934, a guerra tinha acabado, mas a Lumber seguia extraindo madeira da região e seu rápido progresso refletia nas estações ferroviárias por meio das quais se transportava de um tudo, de gente à madeira. Thereza Gobbi, a nona (ou avó) de Adair, servia refeições para os funcionários da estação dentro dos trens. O movimento era ininterrupto transformando Marcílio Dias — que não tinha sentido efeitos diretos da Guerra, já que as terras eram da poderosa família Olsen e, por isso, a Lumber não ousou tirar ninguém dali –, no verdadeiro centro da cidade.

“Foi com o dinheiro disso aqui que minha mãe pagou meus estudos”.

Adair se formou em Medicina. Para isso teve de estudar fora, assim como muitos outros filhos de gente que sustentava a família trabalhando na ferrovia ou prestando serviços para quem vivia da ferrovia.

A história se repete em várias outras estações, como na de Nova Galícia, em Porto União, onde até o presidente estadunidense Theodore Roosevelt esteve em 1914, pouco depois de deixar o cargo. Até hoje, em várias das 25 estações ao longo dos 461 quilômetros do ramal ferroviário que ligava União da Vitória ao porto de São Francisco do Sul, famílias ou andarilhos moram nos prédios onde funcionavam as estações. Em Irineópolis, o prédio histórico virou depósito da prefeitura. Em Poço Preto, distrito irineopolitano que mais se parece com uma cidade fantasma, o filho de um ferroviário já falecido fez da estação seu lar. Ele diz que tem autorização para isso, mas a América Latina Logística (ALL), empresa que encampou o espólio da extinta Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA), não confirma. Em Matos Costa, as casas dos ferroviários foram abandonadas e hoje abrigam pessoas paupérrimas que mesmo se tiverem condições, não farão melhoria alguma nas casas cuja posse oficial jamais terão. Além do mais, carecem de tudo. Um dos moradores conta que a esperança da cidade é uma fábrica de tecidos, recém-inaugurada, que emprega 200 pessoas. O quadro de funcionários, no entanto, já está completo. Dessa forma, a maioria das famílias que ali vive se sustenta com bicos, pequenas empreitadas como, por exemplo, na construção civil.

Um dos prédios do complexo da estação de Matos Costa é depósito de material reciclável. A estação em si virou museu que nem sempre está aberto ao público.

Em termos de preservação, as estações de Caçador, Porto União e Três Barras estão bem à frente. Porto União e Três Barras tornaram museus os prédios. Em Caçador, um réplica do imóvel original abriga o museu. Julio Corrente, que coordena o Museu de Caçador, conta que não é fácil administrar o prédio.

Julio Corrente, administrador do Museu de Caçador

Para tanto, conta com doações, o que sempre é uma tarefa difícil. “Recentemente fui pedir tinta para um empresário, a fim de pintar o Museu, e ele me disse que era melhor esperar passar a eleição”, conta indignado, sem entender o que uma coisa tem a ver com a outra. Em Calmon, a estação foi restaurada. Em Canoinhas há um projeto para reparar a estação e o Restaurante Gobbi, mas nada que tenha saído do papel.

Para além de preservar o patrimônio da extinta Rede, os Museus de Três Barras e Caçador preservam parte da história da Guerra. Lá estão balas, armas e vários outros objetos usados durante o conflito.

Estação de Calmon
Estação Ferroviária de Mafra
Estação e depósito da Estação Ferroviária de Marcílio Dias
Restaurante da Estação Ferroviária de Marcílio Dias
Estação Ferroviária de Matos Costa

CEM ANOS DEPOIS

Índice de Desenvolvimento Humano da região

Passado um século do fim do conflito, a região contestada tem um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Estado. E não precisa de números para se identificar isso. Quem viaja do litoral para o norte percebe gradativamente o aumento da depressão econômica caracterizada por estradas depreciadas, poucas indústrias e muita pobreza. Marcílio Dias, símbolo de progresso em Canoinhas na primeira metade do século 20, hoje não tem nenhuma indústria e tem a prosperidade apenas nas lembranças.

Índice de Competitividade Regional (ICR-SC)

Para o historiador Fernando Tokarski, a guerra ainda influencia o desenvolvimento da região. Ele lembra que a maior herança que a Lumber deixou foi a pobreza.

“Somos marcados pelo ciclo das serrarias, que num primeiro momento trouxeram um grande ganho patrimonial, de tecnologia, mas depois de explorarem a madeira o que restou foi um monte de serragem. As empresas foram embora e ficou um grande contingente de desempregados e, dessa forma a região definha no sentido econômico, social e cultural”.
Fernando Tokarski, historiador de Canoinhas

Para Tokarski, a pobreza atual é herança não apenas da Lumber, mas do modelo de exploração econômica.

“Havia várias outras serrarias que em uma escala maior ou menor contribuíram para que essa pobreza se perpetuasse nessa região. Mas hoje penso que há uma pequena recuperação, mas que vai demorar muito tempo, já que a nossa região ainda é preterida pelos governos”, opina.

Para o professor Sandro César Moreira, o aspecto político é ainda mais crucial já que os coronéis do Contestado deram lugar a prefeitos e vereadores que são seus filhos e netos.

Para o padre Gilberto Tomazi, de Caçador,

“aqueles que outrora mandaram foram tendo seus filhos e grupos que deram continuidade ao modelo implementado lá no passado”.
Padre Gilberto Tomazi, de Caçador

O padre frisa, no entanto, que há muitas contradições, já que o conflito, de certa forma, fez a região se desenvolver, quando os caboclos se organizaram na luta por dias melhores. O que é lamentável, na visão do padre, é que esse povo continua sendo marginalizado ainda hoje.

Imar Rocha, Secretário executivo da Agência de Desenvolvimento Regional de Caçador

Secretário executivo da Agência de Desenvolvimento Regional de Caçador e estudioso da guerra, Imar Rocha concorda com Moreira. Ele lembra que depois da guerra o governo abandonou de vez a região. A atitude revanchista que pretendia deixar à própria sorte os revoltosos reflete até hoje no desenvolvimento da região.

“Nós somos o resultado deste abandono”, afirma. Os descendentes dos caboclos, por sua vez, opina Rocha, ficaram tão amedrontados com a guerra que não buscaram evoluir.

“Nosso caboclo não tem ambição, ficou assustado com aqueles acontecimentos, que dá graças a Deus por ter o que comer. Ele traz essa visão que vem lá da época da Guerra. Não é como o europeu, que quer evoluir, estudar”.

Rocha exemplifica com a dificuldade que instituições públicas de ensino têm para recrutar alunos, mesmo oferecendo cursos totalmente gratuitos. Para ele, somente a educação pode mudar essa visão reducionista.

Em agosto de 2016 o governador catarinense Raimundo Colombo (PSD) lançou um programa para desenvolver regiões deprimidas do Estado, como é o caso do Planalto Norte Catarinense. Ainda no papel, o programa soma-se a tantos outros lançados por governos passados que parecem cumprir muito mais cotas de marketing do que reduzir a injusta desigualdade que predomina sobre essas terras onde tanto sangue foi derramado há um século na luta por um lugar mais justo e igualitário para se viver.

Maquetes da Universidade do Contestado de Mafra sobre a Guerra
Maquetes da Universidade do Contestado de Mafra sobre a Guerra
Teatro de Bonecos do Museu de Caçador

Dedicado a Nilson Thomé, que tanto lutou para preservar a memória do Contestado eternizada em seus livros.

Trabalho desenvolvido por Portal JMais e jornal Correio do Norte.

Reportagens e fotografias: Priscila Noenberg e Edinei Wassoaski

Fotos históricas: Arquivo do Correio do Norte

Revisão histórica: Fernando Tokarski

Agradecimento: Agência Senado, Fátima Santos e Ellen Colombo

Desenvolvimento do hotsite: Isabel Stafin

Edição de áudio: JJ

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