Na mesa da Cooperativa do Mate, Bráulio Ribas da Cruz relembra um pouco da história que constrói há quase 95 anos. O juiz de paz aposentado é natural de Lapa-PR, no interior do município (hoje, Quitandinha), e veio para a localidade de Barreiros em 1939, no mesmo dia em que casou.
Naquela época, os casamentos eram arranjados pelos pais. “Meu pai entrou em contato com o pai da noiva, por cartas, e arrumou o casamento. Enchemos a carroceria de um caminhão com os parentes e padrinhos e viajamos um dia inteiro. Viemos no dia 30 de julho de 1939, no dia em que eu conheci a noiva e no mesmo dia em que nos casamos.” Laurinda de Lima — mais conhecida por Lalinha — conquistou o noivo e ele também a conquistou. Bráulio tinha 21 anos. Ficou morando com os sogros por dois anos. Depois, abriu uma casa de comércio.
O casal teve duas filhas, que foram para o internato no Colégio Sagrado Coração de Jesus. No final de semana, Lalinha queria ver as filhas. Quando saíam para voltar para casa era uma choradeira e a mulher convenceu Bráulio a se mudarem para a área central de Canoinhas. Não tinha prédios na cidade. A frota de carros era de apenas três. Só tinha uma quadra com calçamento, na rua que chegava à estação de trem.
A família teve uma casa de esportes. Flamenguista, Bráulio sempre gostou de esporte. Vendia apitos, camisas e chuteiras, mas o negócio durou poucos anos.
Bráulio já não lembra muito das datas, mas acredita que tinha 45 anos quando foi nomeado juiz de paz. O cargo foi conseguido em uma conversa com o secretário de Justiça que estava no município. “Estava conversando com ele sobre política, porque era da mesma sigla partidária (Partido Trabalhista Brasileiro — PTB), e pedi um cargo. Ele telefonou para o governador e em três dias eu estava nomeado. Fiquei por muitos anos no cartório da dona Nereida Côrte, fazendo casamentos civis”, conta.
Certo dia, o presidente do PTB em Canoinhas bateu à porta da casa de Bráulio.
- Quero tua assinatura para fazer um diretório.
- Mas é só isso? Porque eu não posso me envolver — disse Bráulio, explicando os motivos.
O juiz de paz assinou. O diretório foi efetivado. Quando Bráulio se deu conta, havia sido lançado candidato a vereador. E aceitou. Foi eleito, reeleito e reeleito. Cinco mandatos: 20 anos no cargo. Na política, ainda surgiu oportunidade de ser candidato a prefeito, mas por motivos partidários não deu certo. Ao contrário do casamento.
Podia não dar certo porque não tinha namoro. Engraçado um casamento assim dar certo, não é? Nem conversado com ela eu tinha.
Mesmo arranjado pelos pais, Bráulio e Lalinha viveram quase 60 anos juntos. “Podia não dar certo porque não tinha namoro. Engraçado um casamento assim dar certo, não é? Nem conversado com ela eu tinha.” Para ele, os casamentos daquela época tinham mais respeito, mais valor e, para se separar, o casal tinha de ter um motivo muito forte. “Hoje só querem saber de ficar”, comenta.
Estimulado pela mulher, Bráulio participou das eleições da Cooperativa do Mate e ficou como presidente por 12 anos. Pensava em não disputar as assembleias contra os amigos e conhecidos, mas Lalinha sempre incentivava a tentar. Para ele, a mulher foi de “tirar o chapéu”, uma esposa “100%”.
Lalinha morreu há 15 anos, vítima de derrame. Bráulio ainda sente a falta da mulher e isso é nítido. Quando fala dela, baixa a cabeça e fica mais sério. Hoje, mora com uma das filhas, mas por cinco anos ficou sozinho. Conta que deitava na cama sem saber se estaria vivo no outro dia.
Ainda continua na Cooperativa do Mate. Não mais como presidente, mas no Conselho Fiscal. Os amigos admiram a força de vontade dele e dizem que não há como não gostar do “seu Bráulio”. Realmente.
Aos 94 anos, prestes a completar 95, ele avalia a própria vida e confessa que teve falhas em alguns momentos. “Afinal, quem não erra? Errei algumas vezes. Se pudesse, voltaria aos 30 anos de idade para consertar. Mas o erro não tem conserto.” Bráulio agradece a atenção, mas quem deve agradecer por tantas lições sou eu.
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