História com gosto de cevada

Cervejaria Canoinhense preserva o modo artesanal, com uma receita familiar da cerveja produzida há anos


A edificação da cervejaria lembra as estufas das localidades do interior do município. Ela é formada por duas partes com tijolos à vista, construídas em épocas e tamanhos diferentes. A parte menor foi feita antes. Ali é feito todo o processo da cerveja. No lado maior e mais recente fica o bar da cervejaria, onde os clientes são servidos.

A cervejaria foi inaugurada em 1908, por Pedro Werner e Otto Bachmann, na qual colocaram o nome de Ouro Verde. Assim era conhecido o lugar — que ainda não era município -, pois representava toda a fartura de erva-mate na região.

Durante a Guerra do Contestado, entre 1912 e 1916, a cervejaria ficou fechada. Logo depois foi adquirida por Luiz Kaesemudel, que a vendeu para Otto Loeffler, em 1º de abril de 1924. Otto, por sua vez, colocou a cervejaria em nome do filho, Guilherme. Entre 1923 e 1930, o município fez valer a alusão à principal riqueza, passando de Santa Cruz de Canoinhas para Ouro Verde. No entanto, em 1930, com a decadência da economia ervateira, a denominação foi alterada novamente para Canoinhas. Com isso, a cervejaria também assumiu novo nome: Canoinhense.

Guilherme, em 1938, vendeu a cervejaria para o irmão, Rupprecht Loeffler, que tinha 21 anos. Ele manteve toda a tradição da família de cervejeiros, com a produção artesanal de uma receita de cerveja que chegou à quinta geração.

Com a Segunda Guerra Mundial, Rupprecht obedeceu à ordem do pai e comprou grande quantidade de lúpulo, vindo da Alemanha. O produto ocupou quase todo o espaço da cervejaria, a ponto de os vizinhos considerarem uma loucura. Porém, durante a guerra tornou-se impossível importar qualquer produto germânico. Na região, a única cervejaria que conseguiu continuar servindo foi a Canoinhense. Este, também, foi o período mais lucrativo da história da empresa.


Foto: Fábio Rodrigues


Jeito simples

Fã de caçadas, Rupprecht decorou a cervejaria a seu gosto, até a proibição dessa prática. Ao longo dos anos, as paredes do salão foram enfeitadas com peles e chifres de animais, com inspiração nos salões de chope de Munique, e animais empalhados pelo irmão dele, Guilherme.

Foto: Fábio Rodrigues

Rupprecht bebia cerveja todos os dias. Foi assim até os 93 anos, quando faleceu, em fevereiro de 2011. A mulher, Gerda Loeffler, continua administrando a empresa. Considerada a última da primeira geração de cervejarias catarinenses, a Canoinhense é a única que ainda mantém as atividades. Desde o início, mudou em poucos aspectos. Muita coisa ainda é bem artesanal, preservando o lado caseiro e gostoso da produção.

As cervejas prontas para servir estão em uma geladeira. É simples e branca. Os pedidos são colocados em uma comanda de controle apenas do caixa. Na sala de servir, duas mesas. No pátio da cervejaria, um bom lugar para encontro de amigos: o “Biergarten”, jardim da cerveja, em tradução literal, com cinco mesas. Os nomes dos clientes mais conhecidos, ou a identificação das mesas, são marcados na comanda à base do papel e caneta.

Com uma produção mensal de quase 2 mil litros de cerveja, a Canoinhense apenas abre durante o dia, até às 18h30. Enquanto está no caixa do bar, Gerda mantém tudo organizado, nos mínimos detalhes.

Gerda Loeffler administra o negócio que está com a família há quase 90 anos Foto: Fábio Rodrigues

Para ela, tudo relacionado ao marido continua vivo. Em certos momentos, o silêncio de Gerda diz até mais do que as palavras. Não tem como não sentir a falta de Rupprecht, com quem foi casada por 65 anos. “Faltou dez dias para completarmos 66 anos de casados.”

Olhando as fotos da família, e lendo as diversas reportagens já feitas sobre o cervejeiro, ela insiste em informar as datas corretas, lugares, nomes, pronúncias. “E se eu falar algo errado ou você escrever uma coisa que não é? Fica ruim para mim”, alerta. Uma das fotos antigas mostra a cervejaria ainda com o nome Ouro Verde. É de 1925. Nela está Rupprecht, ainda criança, em cima de um barril. Na mesma foto, ainda, o irmão Guilherme, a irmã Erica, o pai Otto e outros dois parentes.


Modo de fazer

A receita é de família. Algo secreto. Isso já fica evidente desde as primeiras conversas com a mulher do cervejeiro sobre o modo de fazer.

As cervejas Nó de Pinho, Mocinha, Jahu e Malzbier são fabricadas da mesma forma há muitos anos. Gerda esclarece que o essencial é a água que será utilizada no processo artesanal de fabricação. “Tem de ser água pura, de poço. Não pode ser essa que vem da rua por causa do cloro.” Dica anotada. O mesmo poço é utilizado na cervejaria desde 1908.


Todas as garrafas são lavadas minuciosamente. Passam pela água com soda, são escovadas, limpadas em um tanque com água e novamente enxaguadas por uma seringa de água corrente, para enxaguar bem por dentro. Uma a uma, as garrafas são aproximadas a uma lâmpada, que permite analisar se estão bem limpas. Depois, vão para um estaleiro para secar.

A cevada é moída em um moinho a motor. É cozinhada com a água, em um grande tacho de cobre aquecido na fornalha. Depois, em um tanque com filtro, o suco da cevada é retirado. Em outro, de inox, é cozinhado com o lúpulo e o açúcar. Como o lúpulo não é cultivado no Brasil, por ser um país de clima consideravelmente quente, o produto vem de países como Alemanha, Estados Unidos e República Tcheca, comprado de distribuidores brasileiros.

A solução é resfriada e vai para fermentação. O líquido fica com aproximadamente 22º C quando o processo químico termina.

Depois de fermentado, é envasado para a gaseificação. Uma máquina antiga ajuda a tampar as garrafas que, por fim, são levadas para pasteurização.

Os frequentadores da cervejaria têm um modo especial de fazer os pedidos. A maioria já pede pela “doce e branca” ou pela “escura e amarga”. Para quem não conhece, vai a orientação: a Nó de Pinho é preta e amarga; Malzbier, preta e doce; Jahu é branca normal; a Mocinha é branca suave. As cervejas produzidas na Canoinhense são de alta fermentação.

Entrar na Cervejaria Canoinhense é retornar ao passado. É, talvez, viajar à Alemanha do século passado, provando do melhor ambiente colonial e em contato direto com a história da cerveja.

Foto: Fábio Rodrigues

Serviço

A Cervejaria Artesanal Canoinhense funciona em horário comercial, das 8h às 18h30.

Endereço: rua Três de Maio, nº 222, centro de Canoinhas-SC. Telefone: (47) 3622-0358.

Originalmente publicado no jornal Correio do Norte, em janeiro de 2014. Todos os direitos reservados.

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