Uma viagem no tempo, a partir das lembranças e resquícios da estrada de ferro desativada no Planalto Norte Catarinense, descobrindo o significado do trem na vida de quem presenciou os tempos de ouro da ferrovia

- Acho que vou deixar o carro aqui mesmo.

Minha decisão não poderia ser outra ao passar por aquela estradinha cheia de lama, em meio às árvores que nem permitem ver a luz do sol. Não sei qual o motivo de ter procurado um recuo para estacionar o carro, de forma que também pudesse sair depois. Afinal, dificilmente outro carro passaria por ali naquela sexta-feira.

Até esse ponto, as coisas tinham ido bem. Mesmo perdidos em uma localidade que nem conhecíamos, meu amigo Paulo Ricardo e eu procurávamos algo perdido, inexistente. Seguimos, em partes, as orientações do pai dele, Alceu.

Deveríamos seguir pela estrada principal até passar por uma ponte estreita, antiga e de madeira, entrar na primeira estrada à esquerda e continuar por um bom trecho, até encontrar o trilho do trem. O destino final ficava ao lado da estrada. A explicação foi repetida por três vezes antes de sair de casa. Não anotamos, acreditando ser fácil.

A Estação de Bugre, em Três Barras-SC, era o local onde queríamos chegar, mas não havia mapa que mostrasse o lugar exato, tampouco morador na localidade que pudesse dar informações. A verdade é que não existem mais casas nesse local, apenas áreas de reflorestamento de uma das maiores empresas madeireiras que a região já conheceu – depois da Southern Brazil Lumber & Colonization Company –, a MWV Rigesa.

Quando tomamos consciência do tempo que estávamos na estrada, percebi que o caminho não era o correto. Não fazia sentido aquela distância. Em uma encruzilhada, então, paramos. Um caminhão carregado de madeira também esperava ali e pedimos informações ao motorista.

Estava comprovado: não seguimos as orientações corretas. Em algum ponto, nosso instinto de desbravadores falhou. Continuamos na direção que o caminhoneiro apontou. Um dos funcionários que encontramos confirmou que, naquela direção, logo chegaríamos à estação vizinha, ao município vizinho. Voltamos. Pedimos informações outras duas vezes, até encontrar a estradinha lamacenta.

- Olha só, Paulo, o trilho do trem passa ao lado da estrada.

Seria mais fácil se conseguisse andar pela linha férrea, mas entre a estrada e o trilho o mato não permitia passagem de forma tão simples.

Uma construção surgia à nossa frente. Era um rancho, possivelmente feito por pescadores que exploram o rio ali perto. Um dos nossos informantes havia falado que encontraríamos o trilho do trem e um rancho. Ao lado, estaria a estação antiga. Esse, porém, não era o nome do rancho que buscávamos. Mesmo assim, devia ser perto. Ninguém para questionar. Apenas contando com a sorte.

Por fim, chegamos à linha. Ela estava bem cuidada. Máquina alguma passava por ali havia tempos, mas o mato também não toma conta do percurso. Contemplei aquele lugar por alguns segundos e tentei retomar o pensamento de que isso não bastava. Olhei o mato ao redor. Perdi Paulo de vista. Mirei naquela vegetação, cheguei mais perto e vi uma rocha diferente. Parecia uma plataforma, escondida naquele verde como um camaleão.

- Fábio, esse é o rancho! – gritou Paulo de um lado.

- Espera, porque acho que encontrei.

Enquanto analisava as proporções daquela rocha e conectava ao que já conhecia como plataforma de estação, ansiedade e vibração eram externadas em sorrisos bobos. Não apenas parecia, mas era uma plataforma.

Paulo e eu ficamos bestificados em frente ao marco. Pela emoção, eu fiquei mais.

Resolvi subir na plataforma. A vegetação era coisa mínima, perto da sensação de pisar no solo em que tantas pessoas um dia pisaram. “Encontrei.” Senti uma felicidade sem medida, que não cabia em mim. Uma sensação de êxtase, que me tirou do corpo. Quase como uma hipnose. Naquele instante, eu ouvia o barulho do trem que se aproximava, fazendo tremer a plataforma. Sentia o cheiro de gente, via os passageiros se movimentando por cada canto, mas ali só havia Paulo e eu. Não havia trem. Não havia estação. Voltei à realidade.

Quando virei os olhos mata adentro, enxerguei toda a fundação da estação. Apesar de demolida, as bases de sustentação permaneceram, dando dimensão àquilo que um dia existiu ali. Um lugar que recebeu tantas pessoas e viu passar tantas cargas, hoje é apenas escombro. Cada vez mais a criação humana se mistura com a criação divina, forçando uma convivência artificial e já sem sentido. Toda a importância que um dia a localidade teve foi resumida a áreas de plantio e corte de árvores, com a presença quase invisível de uma linha de ferro esquecida no tempo.

Meus olhos enxergam saudade

Nos olhos da criança, é possível enxergar o medo. À medida que o grande monstro de ferro se aproxima, o desespero é o impulso para fugir, esconder-se. Pelos olhos da criança, os braços que se movimentam e avançam em direção ao povoado não deveriam significar a alegria que se vê nas outras pessoas, tampouco confiança. Se fossem por esses olhos, os trens jamais seriam motivo de orgulho e saudade. Se os olhos de Nelson não se abrissem a um novo significado, não seria possível passar do medo ao amor, da desconfiança ao orgulho. Quem diria? Se pudesse voltar no tempo, Nelson de Paula Padilha aproveitaria ainda mais o tempo da maria-fumaça, admiraria mais o barulho, o apito e o movimento do trem.

O que fez Nelson mudar de opinião não é segredo. Foi apenas o avanço dos anos o responsável por fazê-lo entender que aquele monstro, na verdade, era um grande meio de renda. Bem mais do que trabalhar na lavoura. Até porque, como ele mesmo diz, lavrador fraco não vê dinheiro.

A exemplo do que se tornaria, posteriormente, a MWV Rigesa, a Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA) era muito famosa por pagar bem, ser uma empresa justa e séria. Em 1978, Nelson não quis mais perder tempo. Era 25 de junho. Foi registrado na hora. Não precisava ter o segundo grau (ensino médio) completo. Apenas precisava caprichar no serviço. E isso Nelson sabia como fazer. Fez.

Aos 60 anos, morando ao lado da estrada de ferro que passa pelo distrito de Marcílio Dias, em Canoinhas-SC, Nelson espera o dia do anúncio da reativação da linha. Só com isso poderá deixar de lado a tristeza da demissão do trabalho na linha férrea que, em 3 de março de 1997, pegou de surpresa todos os ferroviários do trecho Mafra-Porto União.

Naquela época, Nelson era mestre de linha. Um trecho de cem quilômetros em sua guarda. Dezenas de homens trabalhando na manutenção dos trilhos, sobre os quais impunha respeito. Mútuo. A linha foi privatizada e assumida pela Ferrovia Sul Atlântico, em 1º de março de 1997. Todos os empregados da RFFSA foram admitidos na nova empresa, mas dois dias depois receberam as cartas de demissão. Para Nelson, isso foi apenas uma desculpa. A Rede não podia demitir os funcionários porque alguns tinham 15 anos de trabalho na companhia. O salário, esperava-se, cairia com a privatização, mas o trabalho na linha continuaria.

Não. Não continuou. Não ficou ninguém.

- Para mim, o trem é tudo.

A fala mansa se justifica por si só. Os olhos parecem os de uma criança crescida. Hoje, Nelson não se esconde do trem. Pelo contrário. Hoje, ele é quem persegue o trem. Quando os funcionários da América Latina Logística (ALL), atual concessionária da linha, passam pelo vilarejo, Nelson é um dos primeiros a procurar notícias e informações do processo de revitalização da ferrovia.

- Ah, se eu vejo eles por aí eu sempre tento acompanhar o trabalho de algum jeito. Se essa linha estivesse tão ruim, nem mesmo a manutenção passaria. Então ainda pode passar trem. Para a gente que já trabalhou nesse trecho, sempre dá vontade de ajudar na manutenção de alguma forma.

Natural de Mafra, ele já morava em Canoinhas quando se deu conta da força que a ferrovia exercia no vilarejo formado em torno da Estação de Marcílio Dias. Aos domingos, era a estação o ponto de encontro dos moradores. De certa forma, o trem unia a comunidade.

Os olhos do aposentado ainda sonham com o movimento, com o apito do trem e toda a vida que existia antes ali. Não só em Canoinhas.

Ainda criança, esses mesmos olhos viram a localidade de Bugre viva. Pequena, é certo, mas viva. Naquele povoado, de não mais que 50 moradores, o trem era esperança de dias promissores.

Aos 12 anos, morador de General Osório, no município de Mafra-SC, Nelson via, ao longe, a maria-fumaça costurando o traçado da linha. Via a fumaça que vinha de longe e ia para onde a visão não alcançava. A curiosidade era: por que a localidade vizinha, Bugre, tem esse nome? A explicação mais plausível era a de que, durante a Guerra do Contestado, entre 1912 e 1916, os índios que moravam nesse local foram atacados e muitos morreram. Na linguagem dos caboclos, aqueles eram bugres. Bugres mortos como se fossem bichos selvagens.

O tio do menino Nelson frequentava um armazém em Bugre. Era o armazém de propriedade de Pedro Pacheco. Vindo da Lapa-PR, o dono do estabelecimento era sistemático, valente e regionalista: apenas cortava o cabelo na cidade-natal. No entanto, não sabia escrever. Quando vendia produtos fiado, desenhava. Mal. Em uma das compras, o tio de Nelson comprou um queijo. Na hora de pagar, porém, Pacheco considerou o desenho como um bolo. Como convencê-lo ou ajudá-lo a lembrar?

Tempos depois não seria mais necessário desenhar, cobrar ou se lembrar. Aos poucos, junto com o trem, também foi embora o armazém, a energia do lugarejo, as casas, a Estação Bugre. Só sobraram os terrenos para reflorestamento, a linha férrea que corta a mata e vestígios daquilo que um dia foi uma plataforma.

As estações de Marcílio Dias e de Poço Preto, em Canoinhas-SC e Irineópolis-SC, não tiveram o mesmo destino. Sorte dos moradores que ainda esperam a reativação. Sorte dos que ainda sustentam nas construções a memória do passado.

Movimento do trem e as comunidades

Da varanda de casa, Nelson enxerga o trilho e parte do armazém que pertencia à RFFSA, ao lado da estação. Nos instantes de silêncio, um filme passa em sua cabeça. O próprio filme da vida. Daquela vida na Rede Ferroviária.

No chão, os trilhos, sucateados. Na memória, a revolta.

- Não merecia estar assim.

- O quê, Sr Nelson?

- A linha. Vejo a sucata que está e fico admirado. No nosso tempo não tinha disso. Era linha, não era pedaço. O transporte tinha de ser seguro.

Em Marcílio Dias, os trens davam suporte à produção da empresa Wiegando Olsen S/A, serraria que chegou a ter 600 funcionários: da localidade, quase todos. A linha férrea ficava sempre carregada. Diariamente, centenas de vagões passavam pelo vilarejo com cargas de madeira, animais de corte e erva-mate. “Só quem conheceu Marcílio Dias sabe da chance que a vila tinha de ser desenvolvida.” Os armazéns, padarias, farmácia, hotel, restaurante e salão de baile sobreviviam com folga nos tempos da Rede Ferroviária. Caixeiros-viajantes depositavam suas economias nos pontos de parada do trem e as balsas, a cada dez quilômetros na extensão dos rios próximos à linha, transportavam as produções catarinenses para o Paraná. A privatização deixou de estimular o desenvolvimento das cidades do Planalto Norte de Santa Catarina, como deveria, e os locais onde as estações movimentavam o cotidiano só veem o mato se desenvolver. Aos poucos, a realidade dessas localidades foi se transformando, fazendo com que se tornem testemunhas – em modo stand by – do passado.

Da mesma forma como Marcílio Dias, a vila de Poço Preto também mantém a esperança e cria expectativas para o retorno dos trens. Meio dia na localidade é o necessário para conhecer o que os moradores fazem questão de contar: a vila poderia ser polo econômico se houvesse empenho político à época da municipalização, em 1962. Contraditório, segundo Claudemira da Rosa Pavarin. Aos 96 anos, vó Cláudia mora no centro de Irineópolis e se lembra de muitas coisas, como ninguém.

- Poço Preto era mais movimentado que agora, mas não cabia ser a sede do município lá.

Irineópolis teve suporte para se desenvolver, mesmo com a interrupção do sistema ferroviário. Já em Poço Preto, pouca coisa foi para frente. No entanto, a vila persiste e é sinônimo de preservação da própria cultura.

No distrito, o passado não passou. Os moradores de Poço Preto, apesar das máquinas, carros e toda a tecnologia presente, preservam o espírito do caboclo que sobreviveu à Guerra do Contestado. O passado é tão presente quanto a correnteza do rio Iguaçu. À frente da sua época, a estação na vila se mantém ativa. Não recebe passageiros ou cargas. A família que mora ali divide espaço com a própria bodega. Bem diferente do propósito para o qual foi construída a estação.

Em Poço Preto o tempo para. É como estar em outra dimensão, outro mundo. No passado. As coisas, ali, acontecem de forma singular. Lenta e calma. Tudo tem uma história: seja o modo organizado com que as ruas foram planejadas, o campo de futebol ou a praça da igrejinha.

A comunidade parece cultuar o trilho. A ferrovia remete ao caminho, à existência da vila. Em 2011, um trem passou por Poço Preto e a cena das pessoas indo à estação se repetiu. Nas fotos, sorrisos, poses, olhos curiosos. Na fala de Klaiton Mallmann dos Santos, a nostalgia daquele dia.

- É muito legal ver os moradores, todos, correndo para a estação, exclusivamente para ver o trem.

O jovem acadêmico de psicologia não consegue explicar ao certo os próprios sentimentos sobre o vilarejo. Só sabe ser loucamente apaixonado pelo local, pela essência. Nele, os olhos brilham como quem busca a vivência de tempos anteriores ao que é possível. Se pudesse, faria questão de viver nos tempos de ouro da ferrovia. O que ouviu dos familiares fez entender que a vila tinha sido, em algum momento da história, como uma cidade. Hoje, é apenas um distrito irineopolitano que faz parte da área urbana, a 12 quilômetros do Centro.

Um caminho no tempo

Seguir pelo trilho, em Poço Preto, é uma das experiências mais emocionantes e nostálgicas. Cada metro andado em direção à grande ponte de ferro, sobre o rio Timbó, pode ser capaz de contar uma história diferente. Seja de dia, seja de noite. Ali, os sentimentos afloram.

Às margens do rio, a imponente estrutura de ferro contrasta com a água e com o verde. Acompanho Klaiton até o meio da ponte, com cuidado. De um lado, a ponte com a rodovia BR-280, impondo o presente e o trânsito ininterrupto. De outro, o encontro dos rios Timbó e Iguaçu.

O caminho da linha do trem traz consigo o caminho da persistência de Poço Preto e de Marcílio Dias. Mas também carrega o fracasso de localidades como Bugre. Entre avançar para a outra margem do rio e voltar, Klaiton escolhe o retorno. Voltar às origens, para ele, é entender quem é. Esse caminho da existência do ser é longo, como a ferrovia.

Preferimos voltar, como quem volta ao passado. Um passado que não é meu, mas que compartilho da vontade de fazer parte, de retornar, de reviver. A expectativa da reativação da ferrovia é a esperança de que o passado se torne presente. Talvez, uma mitificação de que é possível reviver momentos, voltar no tempo.

Originalmente publicado no jornal Correio do Norte, na edição do dia 15 de agosto de 2014. Todos os direitos reservados.

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