51.

Cínthia Klumpp
Jul 21, 2017 · 4 min read

O Tito encostou no balcão. O casal ali quer duas doses de cachaça. Cachaça? Isto aqui é uma cafeteria vestida de livraria-sebo, álcool só em taça e com vinho, aqui não é bar. É lugar de leitura, bate-papo. Mas o Tito insistiu com o dedo mindinho apontando pro casal sentado ao fundo. Meia idade, talvez um pouco menos. Trocavam sorrisos e olhares ariscos, mãos inquietas. É, vida cruel, ninguém quer chegar nessa idade sozinho, a beleza deixa apenas resquícios, o espírito jovem fica tímido e a vida amorosa é uma montanha de formação sedimentar. Eles estavam se conhecendo e reconheci importância da cachaça. Eita garçom intrometido, sabia que eu tinha uma 51 no armarinho do escritório. Vai lá Tito buscar, só queria poder servir algo mais nobre, mas não tenho não.

Álcool é bom mesmo. Todo dia, depois de fechar o café, tomo uma dose ou duas enquanto conto o caixa, sempre ali, naquela mesa de seis, redonda. O álcool vai descendo, o corpo se soltando. Os pensamentos são como crianças correndo e gritando sem motivo, uma composição musical de diferentes escalas, uma sucessão caótica do não material que pode desajustar qualquer um. Com a cachaça, ali, naquela mesa de seis, minhas crianças mentais formam filas, as notas desfilam em harmonia, e eu conto cinco, dez, cinquenta, cem, cento e vinte. Somo os recibos do cartão. Anoto tudo no caderno azul calcinha. Ali, naquela mesa de seis que divido com o Alcides.

Vai chegando perto das dez da noite, o Alcides já puxa a cadeira e senta, com ou sem cliente. Eita homem que parece ter engolido relógio. E fica ali, me olhando, botando uma pressão pra eu fechar a cafeteria e abrirmos a garrafa. Só assim conseguimos conversar. Ele me apareceu aqui há uns cinco ou seis anos, depois de outros quarenta e poucos sem nos vermos, assim, com esse olho azul pedinte. Chegou dizendo que estávamos atrasados para o jogo, que os meninos estavam lá no campo esperando há um tempão e ria, ria muito apontando pro meu chapéu. Que porra toda é essa, homem? Já estava nervoso, tinha ido até a calçada ver se tinha policial por ali, pra tirar aquele mendigo doido de tudo de dentro da minha cafeteria, mas aquela risada familiar veio atrás de mim e quando eu me virei que eu vi aqueles dedos sujos tapando a boca do riso. O filho da puta tinha uma bola de futebol tatuada no dorso da mão. Caralho, é o Cidão. Abracei a criatura. Ele ria do meu chapéu e eu ria daquela tatuagem feia pra burro, pior agora, dissolvida na pele velha.

Mora na cafeteria, desde então. Passa o dia ali, como um objeto. Do que diz, pouco tem sentido. Às vezes some, não sei aonde vai, mas quando começo a me preocupar já o vejo ali outra vez, falando com as figuras dos pensadores que tenho pregadas na parede, e a que ele mais implica é com Descartes. A conversa com ele nunca está acabada. Ficam os dois ali, se olhando. É a ironia consolidada, o retrato do paradoxo. A alma pura versus a razão pura. “Eu existo e nada penso”- às vezes grita, depois de ler a frase original de Descartes na legenda do quadro. Os clientes se assustam um pouco, tento tirá-lo dali, mas o que posso fazer? É o Cidão, filho da Maria Aurélia da casa 17, artilheiro dos campeonatos do campinho do Ipiranga, logo ali, no rincón do mundo, município esquecido de Santa Rita do Passa Quatro, que nunca me deixou de fora de uma partida, mesmo eu sendo um perna sem pau nenhum, aquele que me acordava assim que o sol saía, gritando pela janela. Vem Mané, vem que sol saiu, a bola tá em jogo. O Tito me olha pedindo para tirar ele de campo. Larga de ser chato, Tito, deixa o homem.

Às vezes o invejava, queria estar ali com ele, naquele lugar que eu não sei qual é para encontra-lo, olhá-lo de frente e dividir daquela risada boa. E é por isso que às dez da noite, sentamos ali, naquela mesa de seis, assistindo nossas almas expostas, os pensamentos adequados desfilando, as notas, a contagem das notas, a passagem do tempo. Pego minha 51, perco 52 anos e vejo o Alcides de novo, lá no campinho, passa pelo meio de campo, toca a bola pra mim, devolvo, e quando vai para a cara do gol a defesa vem com tudo pra cima dele. A bola vai longe e Cidão vai atrás. Ele ri, já sem o canino, brindamos mais uma e ele exibe aquela bola borrada no dorso da mão. Avisto-o de novo pulando o muro, segurando a bola nos braços e gritando para mim. Valeu a jogada Mané?

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    Cínthia Klumpp

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